IV Um sonho de sono: conto da insónia

I

Como cai a noite comigo, desaparecido o sol,

vem a lua em nova volta, trajecto sinuoso,

e pernoitamos nela

até a perder de vista, de olhos cerrados.

Viajo deitado, sem descanso.

II

É este o prelúdio do meu sono

sem tempo, sem duração, tomado

por outras forças e outras vidas,

as quais tenho de viver e dar forma

através do olhar de alguém

que penso ser eu,

mas talvez seja mesmo de ninguém.

III

Na soma das horas levadas para sempre

pergunto-me a que ponto da levitação

me envolvo nos lugares onde vou.

Quando no peso do sono cometo os meus crimes?

Porque sangro?

Só agora sonho com um mar tão presente?

Mas tão depressa reconheço

que a lucidez que procuro

perdi-a e busco-a no submundo

das minhas alucinações,

flutuando seco à beira mar

sentado indolentemente

no dorso duma baleia assassina,

caçando algo, ou nadando só.

Outras caras se aproximam,

conhecidas e sábias.

Visito-as, cortando água e fazendo ondas

cavalgando uma baleia,

mas todas têm a pesca feita, e recuo.

Agora amam-se em vida e morte,

colossais criaturas boiam inertes,

embaladas pelo azul anzol dos velhos do mar,

pela fome que saciam neles.

A baleia foge das minhas pernas

ao perder-me nestas visões,

desaparecendo na água, sem me ouvir.

O sol pálido do amanhecer ou frio entardecer

mostra-me a praia deserta e o mar flácido.

A voz diz-me, lamentando,

Estás sempre a flutuar, sem bracejar,

nem reparas que voam aves à volta

por causa do peixe à beira-mar.

 

A pesca brilhava, lá em baixo, na areia,

e as gaivotas entravam a pique.

Mergulhando nas águas paradas

Abri os olhos quebrando a superfície,

Acordando dormente, quieto, deitado.

De volta ao dia e à razão.

O que foi da noite ondula no olhar,

pestanejando sem limpar,

recupero o meu corpo, húmido,

ciente duma manifesta tesão.

Tudo o que é humano é meu,

por racionalidade ou contradição.

O meu desejo é meu.

Já a luxúria é privilégio e transgressão

das mulheres.

Como o meu desejo, satisfaço-me

e conduzo-me, como uma nave.

Como o meu desejo.

Persiste o zumbido da recente aventura

estalando num espasmo.

Pelas ruas se arrastam sons.

Ando nelas com metas e missões.

Ouço mal o ruído, dormente,

assim distorcido e continuo.

Torpe sob o efeito duma memória virtual,

sem música, só o lirismo

das máquinas e dos seus animais,

passeio-me, sem desviar o olhar ausente

preenchido de sonho e de sono,

ágil em linha recta nos atalhos suburbanos,

não derrubo nem obstáculos, nem coisas.

Arrasto um brilho, um manto,

que me ilude, apenas eu embrulhado

nos vultos e ecos contínuos da névoa polida,

redoma, estufa urbana fresca onde impero,

dizimando todo o odor ou palavra

que seja menos de tolerância.

IV

Estala um calafrio borbulhante

das costas para o peito.

Estala nos meus ouvidos.

V

O ruído e a dormência da fantasia

estalam nos meus ouvidos.

Tudo se aguça e constrange.

Tudo é rude e cinza, ao meu alcance,

escuro.

Acaba o sonho e estala a realidade,

rápida, mecânica, despercebida, salubre.

Não há poesia na realidade.

Não há fantasia, na realidade.

Não há sonho porque não há fantasia.

Sem sonho, há descanso.

Há sono.

VI

Tão palpáveis, isentos de dispersão, estes dias iguais passam como noite sem sonho. Faço o que de costume faço, e com vagar. Quando for dormir talvez fique antes a pensar, ou a beber e a fumar, ou a comer e cantar. Tudo resumidozinho, despreocupado, quase leviano. Quase adormecido.

Quase acordado. Sem me lembrar de ontem. Saí à rua, tenho fome e quero um café, acordei com vontade de algo e de alguém. Como já não sonho, estou certo de que me olham com desdém, até com um pouco de medo. Não sei o que fiz antes. Não me lembro de ontem. Pego no café e bebo-o em pé, cá fora, a ver o rio, cá de cima. Pago o café para aparente espanto de quem está à minha volta, embora o pague com as boas maneiras dum menino-açoitado.

Vou por aí, quero ver as ruas agora de manhã, com a luz e a sombra. Há lojas e tascas. Há gentes iguais, homens másculos e mulheres gentis e servis. Como não vivo nas ruas não me apercebo das letras e das palavras e dos poemas nas paredes. Há letras e palavras e poemas pela cidade fora. Ainda se vêem réstias do fim do mundo, acabado antes de eu acordar. Passou o prazo da ameaça. Penso nisso a escancionar a cidade e, no fundo, acho graça ao falhanço da ameaça. O que esperam todos?

Quero voltar para casa. Quero entrar. Quero o silêncio e ouvir a minha respiração. Deitado e mudo, a respirar, toco-me com as mãos frias, de olhos abertos. Ao toque a carne cora e pulsa. Estou acordado.

A minha sombra está projectada ao meu lado, do outro lado da casa. Quem diz que é um lado da alma, não sabe de nada. Uma sombra é o que é, muito inferior ao corpo sólido que sou, recorte da luz na parede.

E que poesia é esta? E porque a faço? Aqui não existe poesia, só nos sonhos ou lá fora, nas paredes lá de fora.

Sou julgado pelas minhas perguntas, estou a transgredir a razão com a minha poesia.

VII

Sou produto carnal, um mero erro mortal?

A corrupta visão e a ilusão espalham

mal e morte em direcção aquele acidental

pedestal criminal onde só me consagram…

Fico nesta razão, mesmo que animal.

Volto a filosofar à luz dos que sonham,

acordado a pensar ir em viagem astral,

e lá poder planar em céus tão acima do chão.

Nova terra finita… Ser-se sem nada ter dito,

Sem alguma vez ter sido. No nada serei novo.

No nada só, medito. Eco com amor sem coito.

Prazeroso moderado amor em movimento.

Vejo na escuridão e ando livre no ovo.

Mero erro mortal, carnal contrafeito.

GJ

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