A velha idade

Atrasado como de costume, no comboio atrasado do costume, assomo-me à porta para sair a correr. O caminho de ferro circula quase à mesma altura do passeio, naquele bocado antes de chegar a Benfica, vê-se perfeitamente o trânsito, a calçada, as pessoas, as casas, a antiga morada de um bom e velho amigo de infância, o sol alto do meio-dia bate nas janelas, e um velhote vestido a rigor no seu sobretudo pousa as mãos no gradeamento da varanda, parecendo uma gravura de alto contraste, vejo cada relevo daquela figura estampada contra a superfície nédia.

Esta imagem pareceu arrastar-se pelos breves segundos de passagem, tendo tempo de ver e olhar com atenção para o velho que ali se detinha, grande e destacado. Por nenhuma razão em específico acenei com a mão um adeus, talvez por compreender que estava ali para ser visto, da mesma maneira que estava colado à porta para sair. Pergunto-me porque estaria ele ali, tão simples e visível, enquanto todas as outras janelas brilham com o mesmo branco, fechadas. Devia estar feliz com algo, talvez estivesse a aquecer os ossos, ou até mesmo a esperar alguém, exasperado pela demora.

GJ

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