Tongue

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cinders, cinders,

flacking from your tongue,
mouthing my necromancies
blown to cinders, cinders
‘tween puffs of scant life blown

dust to flesh bred.
Mine’s the art of death
by your artful touch, fate, end.

 

GJ

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Projecção de sombras em festim
Alcançam à distância visões sem fim
Sombras de gato bravo no telhado
Movem-se exuberantes e a medo
Do peso das passadas pesadas
Ignorando se é grande se é pequeno
Denunciado pelo leve ruído
Branco estática intensidade
Ao sol rocha quente,
Dia soalheiro, quedo, dormente,
Bebe da noite água mole
Que corroa a inquebrável corrente
Castradora da intuição insurrecta
À falta de chave que a liberte.
Que mente que sente, mente,
Que é diferente e vê e crê somente.

 

Medo

Faço o funeral ao medo.

Não me recordava,

desde que percebi

de que em pequeno

rodeado de medo

e morte me vi,

até a morte ser medo.

Medo é errado.

Medo é bom.

Fatalidade era costume

ateado em brado lume

encostando-me, assombrado,

à alucinação fantástica

das maravilhas da infância.

Até me saber só

nada percebia do logro

da tristeza e seu ócio.

Do vício e do dó

evidenciaram-se as rédeas,

arreando o desejo,

desejando ser só,

de uma só vez, todo só.

A perda é uma cela.

Medo é doença.

Perto de revelações, penso,

que o mundo cabe no meu abraço

e se o destino é finar,

que me esgote eu sem pesar.

Lava

Eis que no meu peito

corroído pela lava

rebentam águas salgadas

 

banho-me nas furnas

da cravada ilha alva

cuspo de vulcão desfeito.

 

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

 

Se pedras forem castigos

dados aos tarados nos pelourinhos,

se os demónios forem desiguais

envenando n’Olímpo os gigantes divinais

 

Abalo com as tuas pedras

o teu templo herético

selo o teu jazigo helénico

c’o horror dos cubistas.

 

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

Prostra os forasteiros,

bebe tu meu mar, o meu sangue.

Por pecados que apenas eu me castigue

ardendo na lava do meu peito.

Um soneto para a viagem

Há-de ledo cair em breve o céu vindo a nós enfim.

Sem dor que me moleste declinarei o fim

Pelo raro privilégio de estar só e assim

Sal das gentes e do ego, limpo e longe do motim.

 

Chegará o céu a tempo, pois, de os levar a todos.

Todos os Párias portugal ao céu oferece e

nós ficamos cá porquanto for absurdo

morrer apenas porque o tempo nega a prece

 

prévia que houvera inferno para os felizes.

Podemos na terra crer ou ignorar quais mitos

ritos, alegorias, impunes aos juízes

 

de olhos carniceiros, reflectidos no abismo,

caos ido de outrora em que a nossa paixão bastava

entrever e houvera inferno para nós, felizes.

 

GJ