Rígel

‘Respira fundo, pelo nariz, enche o ar de pulmões, expande a caixa torácica, prende o ar lá dentro’ – ouço as reticências dela a marcar o tempo, a cadência da inspiração retida e da exalação soprada – ‘e solta agora o ar pela boca, com força’ – ordenou-me, com a mão no meu peito, esvaziando-o como um balão deitado no colchão d’água. É como flutuar, é como tapar-me com cimento, como enterrar-me num sono consciente. Inalei fundo toda a tranquilidade que não conheço. Exalei toda a desarmonia e desordem. Algures na transfusão pausada e cadenciada, na suspensão encontrei yin e na roda viva yang.

‘Concentra-te na minha voz’, lembrou-me, ‘Vou iniciar a contagem decrescente de dez a zero. A cada número, descerás um degrau. Olha à tua volta, vê onde estás. Vês as tuas escadas? Já aí estiveste’. As escadas eram, de facto as mesmas. O mesmo corredor sombrio e limpo, cujas paredes que encolhiam em ângulo agudo para as escadas amarelavam e gretavam, apenas iluminado à minha passagem, à falta de tochas, candeias ou algo tão banal como electricidade. Ao virar o corredor em caracol para as escadas encontro o mesmo brilho azul e difuso, gelo e neve e luar. É por aqui que desço mais e mais para o meu abismo. ‘Dez’, e desço o degrau. Não se sente nada, o gelo é gelo e o túnel forma-se. ‘Nove’, e desço outro degrau. Andei uma vez numa montanha russa na grande feira popular de Viena, onde as carruagens entravam num túnel estreito, a luz apenas mostrava a boca da serpente, para dentro só escuridão. ‘Oito’, desço outro degrau, desta vez com receio de escorregar. ‘Sete’, desço. A imaginação é algo poderoso. Aqui estou eu, representação de mim mesmo no meu subconsciente, nu. ‘Seis’, com um pé ainda no degrau anterior. Estou nu a descer escadas com degraus contados. Arquitectei bem a minha toca, tudo arrumado e funcional. ‘Cinco’, ainda que permaneça uma divisão mórbida da minha consciência, encanta-me. Desço. ‘Quatro’, desço com receio de me esquecer de descer. Mesmo agora ao molesto-me por me permitir trazer medo para casa. Depressa acabo com a pestilência do medo no meu santuário fortificado, onde não há escutas nem privação, apenas segurança e mundivivência. Poder ultrapassar limites de visão e alcance. Perscrutar o universo, projectando-me além da atmosfera e abaixo de mim mesmo. ‘Um’, merda! Três, dois, um, desço. Enquanto desço perco as escadas e caio hirto numa espiral cósmica, translúcida, líquida, clara de ovo e leite diluídos em água e ondas neónicas, boreais e sol.

‘Concentra-te na minha voz, guiar-te-ei’, olhei para cima enquanto caía, olhei para baixo tentando perceber onde ia cair. Ouço-a, estou cá e lá, mas noutro sítio. Querendo, viajei mais além das indicações dela. Escorreguei para os olhos de uma baleia, que me mostravam constelações e mais escuridão do que alguma vez conheci. Um vazio avassalador que reanimou o meu corpo cósmico, sem mãos nem pés, apenas veias e terminais luminosos, sem carne, apenas plasma, um ovo, um embrião na teta que tudo o que existe alimenta. De onde venho ninguém tem lar e no frio onde moram os diamantes do céu terrestre encontro o remédio para a minha amargura de filho abandonado. A esfera é feita de um tecido macio, quente, vivo. Um hemisfério sólido, branco, outro invisível, revelador de uma noite onírica. De dentro surgem figuras sem corpo ou membro, ligadas ao navio, brancas, com os mais profundos olhos negros, duas bolhas negras onde cabem os olhos dos humanos. Quem são? Acariciam-me com ondas de calor, com carinho e saudade e consigo aceder a tantos segredos nos olhos que entram nos meus, consigo intuir a missão que me foi entregue sem consentimento ou permissão. Sou, de um só golpe sem piedade, abortado para fora da nave, caído numa realidade vermelha caótica, de destruição e medo. ‘Não permitirei medo’, penso, emboscado por ventos solares que me elevam e se alojam em frequências nucleares irrequietas, emitindo faixas de luz pelo meu corpo de plasma, ensopando as ramificações que tomo por membros de nano estrelas.

Sou violado pela luz mais dolorosa e justa, elevando-me na atmosfera bélica que vim para derrubar e domar. Na inexistência de som, sentia-me a gritar lamurias de super novas, enquanto sorvo pela boca toda a matéria. Expludo luz de todos os terminais, desfazendo-me em poeiras que reflectem o universo. Irradio explosões de luz em mantos que cobrem a realidade que fui enviado para extinguir. A luz roça os astros circundantes, a luz que sempre trouxe e que se uniu ao concílio dos astros para banir o medo e a miséria. Assim nasci, memória da vitória sobre os limites. Luzindo mais bravo e completo, terminado. Rígel.

Lilith

Cresce-me a luz da dúvida na fronte. Mal me toca a carícia da intuição, que cego me fiz, dançando valsas e cortejos só, à confiança dos sentidos, de olhos fechados, com o fantasma do meu agora reencarnado desânimo. Cresce-me a necessidade de usar palavras. Palavras que silenciara e trocara por adornos de realeza perfurando a pele macia, quente, fugaz, violeta. Palavras trocadas que cimentaram bases de paz. Cresce-me o impulso, empunho suspeitas prontas para me flagelar, suspeitando do meu objecto e da minha suspeita, vocifero as hipóteses que tecem as três bruxas da minha introspecção, que me fazem companhia, alienação, solidão, mania. Afogo-me em retratações, entre cláusulas que assumo para comigo com rigores e temores.

Cresce-me na fronte a sombra da perda, sobre os olhos que procuraram com ambição e não folhearam os capítulos soprados pelo vento pestanejado pela rapidez vigarista de olhos desassossegados. As palavras voam no silêncio de segundos, no desmaio da minha crença. Alço a batuta, em repetido alívio e flagelo, sangro, soo o alarme do descontentamento, largo os uivos da suspeita que me desenlaçaram do sacrifício do orgulho, do suicídio do medo. Findo-me com as palavras que te convocam, que te acusam para me justificar tão inquieto, tão incerto.

Digo apenas que amarias o meu corpo conforme dizes de tua vontade, não amando, amarás outros na rebentação, que és volátil impressionável Vénus e serei eu ardido Vulcano, trabalhando o aço azulíneo para te desbravar as amarras do egoísmo ácido que atiras sobre o meu peito descoberto.

Atravessa-me a fronte, eclipsando a manhã da razão, uma Lilith maligna que me destrona do bom julgamento, em velhas lembranças, na velha cegueira impotente, de amarguras imprevistas. Cumprindo-se o presságio adiantado pela melancolia, farei minhas as lágrimas seguradas de Adriano, pelo fúnebre brilho que se abate no meu olhar afogado pela perda do teu níveo frescor.

Bacalhau Basta

A vida não vale nada
e a morte vale ainda menos
mas quando é a nossa vida
vale aquilo que fazemos
desde o dia em que se nasce
até à noite em que se morre
é com aquilo que se faz
que o caminho se percorre
e se a vida é para ser gasta
vamos gastá-la a preceito
para quem é bacalhau basta
para quem é bacalhau basta
mas que seja bacalhau bem feito.

Sérgio Godinho, Bacalhau Basta

To whom it may concern

To walk on this earth where everybody else is just everybody else and I walk inside my half bubble perfumed with your honey like saliva on my skin, your powerful waving. To grow gardens plowed in my mouth. To be the privileged proud man who meets his future reaching out for your half to make us whole. I go to bed with this knowing we shall have what we don’t yet.

 

GJ

A drop in the ocean

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Binding takes time, while unbinding bears great pain. Ultimately, freedom has its costs, unless you’re set free cold turquey. It’s wise to acknowledge the gesture and free yourself from your own ropes, too. New shores and gratitude. Lessons learnt, growth. Letting go is an option, when the ending of a situation is not up to you, not anymore.

A choice should be taken considering the highest good, with a conscience and a reality check, nonetheless. Regret nothing, if you’re hell bent on acting thoughtfully, meaning well. Have a mind, have a heart, have a conscience of who you are, be here and now, give yourself enough credit. Say goodbye to shallow ends and don’t ever forget the situations you’ve been through. Remember how much you loved, the struggles, the bliss, the sharing, how much you care to carry gracefully within you the memories and those who came across your path.

One more thing… beware. You’re good, not forgetful. You see perfectly, you see through intentions, you proofread every single word and you’ve been given a voice and rhethoric skills. Effectively cease whatever open or secret war.

Smile to the sun, count your blessings.

GJ