Nem a propósito

Daily Prompt: Quote Me

O prompt de hoje sugere-me escolher uma citação e comentá-la. Nem a propósito, abandonei ontem o “De Profundis” de Wilde num parágrafo que cita Goethe, que me remete para o momento em que a li pela primeira vez:

Aquele que nunca comeu o seu pão em solidão,
Aquele que nunca passou as horas da noite
A chorar e esperando a manhã,
Não vos conhece, ó Poderes Celestes.

É engraçado reviver leituras, dentro de leituras, a prática é muito comum, escritores que citam outros escritores, e Goethe não era estranho a Wilde. A humildade trazida pelo sofrimento é o tema da citação, bem como o tema do momento da narrativa de Wilde. Aquele que sofre vê o belo e o divino, vê claramente que de mais não precisa do que essa lucidez, alimento e abrigo.

Tenho tido a oportunidade de trocar impressões com autores, pessoas das letras, que também se cruzaram com alguns dos rabiscos que para aqui andam, e concordamos que todo o tempo é necessário e não há horas do dia suficientes para concretizar o que do mundo acumulamos, nós, quem muito sente; concordamos mais ainda com Wilde, quando diz The only people I would care to be with now are artists and people who have suffered: those who know what beauty is, and those who know what sorrow is: nobody else interests me, quando o mundo exterior se torna muito exigente da nossa atenção.

 

GJ

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   Acredito que tudo é, por natureza e por defeito, desequilibrado. A falta de equilíbrio resolve-se com outros pesos, para cada limiar de desequilibrio há um elemento que pode contrabalançar os efeitos nefastos da deficiência raquítica do ser.

  Receita-se uma valente dose de bravura ao pensador da lógica fria e problematizante que se encontra apaixonado. Aconselha-se ao mais acelerado, ansioso e drasticamente romântico dos corações uma viagem pela noite fria da introspecção e calma. No entanto, pergunto-me qual o propósito de todo este contrabalanço? Se se é o que se é, e Ser é experiência, então não há existência menor que a experiência e cada um será o que é, simplesmente.

  Um mundo cheio de sobreviventes esplendorosos que fomos destruindo  sem nunca realmente ver os cantos à casa, sem nunca realmente tocar os que existem connosco e que aniquilamos, e, de alguma forma, só vivemos para o olhar do próximo. Uns mais resguardados de tudo, outros mais arfantes pelo calor do vizinho, mas todos querem o mais cobiçado, raro e vão dos bens, todos querem um coração, com amor. Um coração com amor pode já vir quebrado, pode não reparar um partido, pode não ser suficiente, pode elevar a consciência a novos patamares da existência mais amáveis, amorosos e globalmente estáveis.

  Acho que se resume a auto-preservação, para que as nossas deficiências não nos deformem. Corrige-se o instável e a bola de neve continua, no eixo em que giramos, num jogo de influências em que nos encontramos, não ao acaso, mas porque chegamos a um ponto de encontro.

GJ