Bacalhau Basta

A vida não vale nada
e a morte vale ainda menos
mas quando é a nossa vida
vale aquilo que fazemos
desde o dia em que se nasce
até à noite em que se morre
é com aquilo que se faz
que o caminho se percorre
e se a vida é para ser gasta
vamos gastá-la a preceito
para quem é bacalhau basta
para quem é bacalhau basta
mas que seja bacalhau bem feito.

Sérgio Godinho, Bacalhau Basta

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Picture prompt: from picture to word #2

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I fear so much being afraid, I fear I’ll defy myself touching this fear to know what it is, and since they all grow from fear itself, nothingness, inexistence and inertia take hold of my brains, arms and legs, pressing my heart to stop beating. I fear being unable. I fear I’m able. I’m afraid to start. Ugh, what a sook. I’m afraid of what fossets I’m about to open. I fear the end. I’m afraid I’ll flee and give up. I fear being mediocre. I fear I’ll fail and betray what I’ve weaved into dreams, because nothing do natural should make me feel trapped. In order to break free, only doing seems to be the answer – and I do – I do it relentlessly whe  fear strikes hard, stomping loud. I stop at nothing and it still haunts me. Am I driven by fear? I move faster away from it.

Inclusively, breaking out in the beginning of the healing process, when I see myself as a newborn project into a new bubble, like a bent river to another riverbend. All the while I run fast from fear by overcompensating on work thus breaking out from mediocrity’s mental confinement.

Mediocrity is a trap I often ignored and fell into, getting stuck in a rutt I would  exhaust myself trying to climb out of, much like a quicksand, overhelmed with confusion, soaked and heavy, losing hope, burying myself further down.

 

GJ

Porque me sinto zangado pt II

A pergunta persiste.

Pergunto-me a mim mesmo, perguntam-me outros ao través dos anos, e eu resisto e engulo a resposta, porque a idade era tenra e o tempo da liberdade ainda não era. A resposta, a explicação da minha zanga esquizofrénica, que ora é, ora se esquece de ser, é o trauma da esperança e do sonho, o desejo de concretizar ideais, a promessa que fiz a mim mesmo de tudo da minha mente construir e criar. Mas que os meus pares me passem ao lado e sejam jamais, e se esqueçam de novo de perguntar, porque os ignoro hoje se ontem os quis revisitar. Mete-me nojo visitar-vos, ver-vos de um passado que não floresceu, quando a minha dolorosa e inevitável missão ao través dos anos é ser eu.

Pergunta-me hoje porque estou tão zangado assim, deixa-me ter espaço e tempo para responder e entre tudo o que os meus pés e punhos podem partir e em pedaços explicativos ajudar a minha a desenrolar, dir-te-ei com a mágoa de deuses fora do devido altar que à flor da pele a natureza me fere de urgência de ser livre – E EU AINDA NÃO SOU LIVRE – que todo eu sou cansaço, que da mediocridade sinto o peso do tempo, o peso do tempo atrasado, irreparável inércia que me rói os dentes, obstrui e constrange as válvulas, a culpa da fraqueza piora a dor de cabeça, e a raiva animal, viral, lança-me ao ataque, à sabotagem de tudo o que representa futuro, e de tudo isto resta-me zanga, mágoa e raiva. Fazer para quê? O quê? Em troco de quê? Por quem e porquê? Com que garantia do bem estar da minha sanidade? Com que posses? Por que cedência? Resta-me sair ao mundo todos os dias a realizar a minha missão e ser rodeado de apoiantes, que levam o que gostam de ver, e regresso eu sozinho, ainda a ser o que sou e mais não me consigo suportar, a minha mágoa, a minha zanga, a minha raiva. Zangado, silvos de medo, encolhido a um canto, solto estes avisos para que tenhas precaução: não sou o que tenho de ser e sou um acumular daquilo que nunca quis ser. De mim não vejo mais maravilhas, de mim não espero mais sonho, de mim apenas tenho fuga, reclusão, solidão, inércia, caluda e falta de sono.

Correram os anos e mantive o meu olhar certeiro na estrada contínua. Omito aqui os tropeções, os achados e outras recordações, a estrada é longa e longa deveria continuar a ser até chegar onde quisesse, porém a estrada acabou precocemente e a meio a minha música ficou. Como poderia eu continuar a alimentar o boato da minha loucura? Observa, vê que a minha revolta não pode ser menor nem silenciosa, como retomo a minha gritaria! O som abandonou-me e eu faço melodias e ritmos contra uma parede que não consigo escalar, para incomodar quem me ouve, até fazer o cimento estalar. Perdidas estão as cornetas que abalaram as muralhas de Jericó e perdida está a doença do coração deste homem que antes, consumido pela esperança, pensou poder existir, porém agora, livre do veneno, se indigna com o a priori que lhe diz que só pode ser… É o meu único luxo .

GJ

– editado, 14/08/2016

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Entro nas memórias vívidas que se desenterram sozinhas, dum passado cálido e distante como um sonho, da infância como lugar único que vivi em despudor e despreocupação, e memórias que me são inacessíveis, encobertas por finais alternativos recriados pela perturbação que causam ao íntegro presente. Há um lado fabuloso nos dias que vivo, que sorriem, quando distraído em pensamentos e regressões, que afogam o olhar, quando ressaltam os pensamentos proibidos, em que vejo, balbucio e escuto o mal, assaltado por repressões, transgressões e limites, fios de navalha, memórias vivas fora do corpo, corpo vazio e bobo, corpo rubro e alma morta.

Anseio dirigir-me palavras de amigo, destapando os anos que me esqueci de ter vivido, inundar a lacuna, a vala dos defuntos actos legítimos e irascíveis, para me devolver a clareza da visão, para me trazer a união do todo que tenho vindo a planear e a arrumar em inventários selectos da minha mente pouco afectada, definhada, a fronte da minha paixão ardente que foi incendiada por derrames contínuos do combustível que há muito da fonte havia parado de jorrar. Anseio poder ser o todo que me coloca no invejado lugar daquele que se conhece e se aceita. Anseio não temer… e, no entanto, quando me sinto bravo, é a ânsia me faz tremer.

Há muito que me ecoa a visão clarividente que me garante que morrerei em breve. Só sei que poderei morrer quando me torno uma perda. Como poderia ser uma perda sem ser de alguém pertença? E se alguém me tem, a alguém me terei dado. Quem me pudesse perder, sofreria algo como uma perda. Não temo a morte, pelo que tal pânico é extra irracional, dentro da racionalidade que estimo e tão bem cuido para compreender os caprichos dos meus medos, fixados em solos arenosos. Temo e inundam-me os olhos de melancolia a perda de quem sou aos olhos de quem me tem, que me poderá perder para a rigidez rigorosa, sem ter sido lido, sem me ter aberto, sem ter lido aos donos do meu afoito coração de criança desconfiada crescida os mandamentos do real inquieto desnutrido, desiludido, alienado, adormecido. A fábula é a mais extensa, infindável peça que ainda não tive o atrevimento de deixar a meio. E que mentiroso eu sou.

E que mentiroso eu sou.

A mentira que me atrevo a reconhecer é a nova farsa que crio para esconder a verdade do que julgo entorpecer pela reprovação. A mentira é a verdade e a verdade a ternura, a compaixão da mentira… e há uma lava que se verte pela lava extinta, o vulcão que me cava de novo o peito pela alegria que tenho em me ver desfeito das minhas teias de controlador do universo. A minha liberdade só chega quando sou detido. Preciso da prisão para ser livre. Preciso de não ser, para ser livre. Continuarei livre de amarras para me prender a uma única expressão: a do caos unificador que me faz anémico e tranquilo para os donos do afoito coração de criança desconfiada desiludida, ardida.

E que amoroso sou eu. Quem em amores desmesurados me quero derreter eu. Derreter em lava e perdição, derreto-me, eu.

Apaga-me e desunha-me, deixa as crostas para nunca mais ver a ferida.

GJ

contemplando