Seis anos de salada

1996 na história foi um ano bissexto, para muitos terá sido mais um, provavelmente para os meus pares pouco relevante para além de brincar na rua ou, para os mais afortunados, TV a cores e jogos de vídeo. Também foi o ano da Malhação, do prémio Nobel da Paz atribuído a Ximenes Belo e Ramos-Horta, do Nobel da Literatura da poeta política polaca Szymborska, da grande perda que a morte de Carl Sagan representou, bem como a muito chorada morte de Tupac Shakur. Para mim foi a morte da minha avó, a mulher que cuidou de mim nos seus últimos anos de vida e fez questão que eu soubesse o que era ser amado, ouvido e respeitado – embora a memória mais berrante seja a de ser completamente livre ao lado dela, ter asas para voar – ela nunca temia e eu nunca vacilava.

Lembro-me de uma tarde com a minha avó, no quarto dela, de gritar e fazer birra porque ela me estava a trocar a roupa, ou algo assim – devia ter-me cagado todo enquanto estava a brincar -, enfim as coisas de que as avós normalmente se encarregam de fazer. A minha birra consistia em ter sido interrompido do que estava a fazer e que queria fazer sem demoras. Ser parado e preso para executar uma tarefa perfeitamente adiável aborreceu-me. Então, para meu desgosto enquanto homem que sou a lembrar-me do que disse, esperneei e gritei um muito malcriado e ingrato ‘deslarga-me estúpida’, corri porta fora para o quintal, depois de ela me ter abraçado, beijado a bochecha e ajeitado a farta e negra cabeleira. Maltratada pelo menino dos olhos dela respondeu ‘ninguém te está pegando!’ Já lhe tinha fugido das mãos, senão tinha apanhado, olhava para trás enfurecido, para ela, que se mostrava zangada e dizia ‘ai o menino se é malcriado!’ com um ligeiro tremor de riso na voz, rindo-se da minha postura de selvagem inofensivo, tirando grande gozo daquela figurinha. Na verdade, pela boca da minha mãe, filha dela, soube anos mais tarde que o que a minha rica avó dizia gostar aqui do menino era da ruindade e doçura constantes.

O facto é que estava enfurecido, no quintal, olhando para trás, ainda a sentir-me no direito de ter agido para defender os meus interesses, muito embora também me sentisse, para mal do meu orgulho, arrependido e zangado comigo mesmo por a ter desconsiderado. Leva-me finalmente a perceber que passados longos anos e muito ter mudado desde então ainda reajo como uma criança reguila e birrenta com aqueles que me amam e que eu amo em reciprocidade, aqueles que eu também tantas vezes magoo. Saber que me amam, anos depois desta memória, é uma arma que ainda uso em meu favor para poder transgredir sem culpas ou sem me perguntar acerca das consequências. Ser amado tão livremente deixou-me o gosto de ser mimado, levou-me a crer que faça ou diga o que for, permanecerei impune. Tal não aconteceu e não acontece.

Voltei atrás, meti-me debaixo da janela do quarto, eu era ainda muito pequeno, tinha três ou quatro anos, mal chegava ao parapeito, aliás mal passava da risca azul daquela enorme casa caiada, mas já tinha boa voz e fôlego, pedindo desculpa, chamando por ela, até que ela apareceu e me pediu a mão para me levar para dentro, para sair do sol. Era verão em Beja, o chão e o quintal estavam cheios de ameixas, pelo menos as que não conseguíamos apanhar, que amadureciam nos ramos e caiam, esborrachando-se contra o solo e lá apodrecendo.

Um dia a minha culpa por sentir que não tinha feito o suficiente não a trouxe de volta e todo o meu amor se fez sentir na sua ausência, não fazendo qualquer diferença, depois de ter morrido na minha cama. O encanto desta história é ela, não eu, a maravilha foi feita por ela apenas, e é a ela que dedico a minha solarenga e livre infância. Assim foi a descoberta do mais puro amor, a ruptura da inocência, a descoberta  da perda irremediável. Assim foram os seis anos de salada.

 

GJ