Lilith

Cresce-me a luz da dúvida na fronte. Mal me toca a carícia da intuição, que cego me fiz, dançando valsas e cortejos só, à confiança dos sentidos, de olhos fechados, com o fantasma do meu agora reencarnado desânimo. Cresce-me a necessidade de usar palavras. Palavras que silenciara e trocara por adornos de realeza perfurando a pele macia, quente, fugaz, violeta. Palavras trocadas que cimentaram bases de paz. Cresce-me o impulso, empunho suspeitas prontas para me flagelar, suspeitando do meu objecto e da minha suspeita, vocifero as hipóteses que tecem as três bruxas da minha introspecção, que me fazem companhia, alienação, solidão, mania. Afogo-me em retratações, entre cláusulas que assumo para comigo com rigores e temores.

Cresce-me na fronte a sombra da perda, sobre os olhos que procuraram com ambição e não folhearam os capítulos soprados pelo vento pestanejado pela rapidez vigarista de olhos desassossegados. As palavras voam no silêncio de segundos, no desmaio da minha crença. Alço a batuta, em repetido alívio e flagelo, sangro, soo o alarme do descontentamento, largo os uivos da suspeita que me desenlaçaram do sacrifício do orgulho, do suicídio do medo. Findo-me com as palavras que te convocam, que te acusam para me justificar tão inquieto, tão incerto.

Digo apenas que amarias o meu corpo conforme dizes de tua vontade, não amando, amarás outros na rebentação, que és volátil impressionável Vénus e serei eu ardido Vulcano, trabalhando o aço azulíneo para te desbravar as amarras do egoísmo ácido que atiras sobre o meu peito descoberto.

Atravessa-me a fronte, eclipsando a manhã da razão, uma Lilith maligna que me destrona do bom julgamento, em velhas lembranças, na velha cegueira impotente, de amarguras imprevistas. Cumprindo-se o presságio adiantado pela melancolia, farei minhas as lágrimas seguradas de Adriano, pelo fúnebre brilho que se abate no meu olhar afogado pela perda do teu níveo frescor.