Volúpia

Sem chão, hirto, sem teu tecto

permaneço enfim só e quieto

quedo absorto no circunscrito

vazio sedento do teu afecto.

 

Goteja a tua chegada e choves,

eu rezo para que me molhes.

 

Beber-te é volúpia.

Cobrir-te é volúpia.

Sermos é volúpia.

 

GJ

Um soneto para a viagem

Há-de ledo cair em breve o céu vindo a nós enfim.

Sem dor que me moleste declinarei o fim

Pelo raro privilégio de estar só e assim

Sal das gentes e do ego, limpo e longe do motim.

 

Chegará o céu a tempo, pois, de os levar a todos.

Todos os Párias portugal ao céu oferece e

nós ficamos cá porquanto for absurdo

morrer apenas porque o tempo nega a prece

 

prévia que houvera inferno para os felizes.

Podemos na terra crer ou ignorar quais mitos

ritos, alegorias, impunes aos juízes

 

de olhos carniceiros, reflectidos no abismo,

caos ido de outrora em que a nossa paixão bastava

entrever e houvera inferno para nós, felizes.

 

GJ

Descre(r)ver

Alongadas alas prostram predestinações

desafiando delgados deuses em pontas prodigiosas,

pródigo prima na lenta leitura, contido conta

volantes velozes segundos serenos

pelas páginas do prólogo proeminente

soprando sôfrego, perigosas,

no corpo comprido, tensões

assolam, percorrem prevaricando inteiramente

sua mente melancólica lenta lendo logo

se esvai escorrida em longa linha

luzidia e lambida no semblante sequestrado,

do rosto corrompido assente no peito de pedra soprado,

oscilante, ofegante, consciente do carregado peso presbítero

premente e lânguido, quente, cuspido.

 

GJ