Um post fatalista

Acredito que viver comigo seja uma solidão tremenda. A solidão só funciona comigo só. A saudade só acontece quando estou acompanhado, desaparecendo quando fico sozinho. Não estou ainda vendido a esta filosofia de ser o meu próprio universo, ainda que a solidão seja possível , até exequível e enriquecedora. A irrelevância do tempo e da odisseia do propósito da vida dão vazão à criatividade e à ambição. Ser nada e morrer, ao dissabor da continuidade dos dias é, impreterivelmente, igual ao desespero de explorar a vida até morrer. Somos memórias e esquecimento. Quem se lembrar de mim há-de morrer, como lembro os que morreram e lembrarei os que morrerem. O fim da vida é o fim. Não engrandece nada, apenas me dá o dia de hoje para que o possa de facto viver, seja com o entusiasmo que for. O que sou e serei, depois de morto é, ao mesmo tempo, conjectura e esquecimento. Neste aspecto as nossas memórias de nós mesmos perdem-se, seladas. Falhei, após tentar, em ser alguém. O meu passado é vulgar, sem qualquer feito que sobressaia.

Apenas ser, porque assim o posso, chega-me. Apenas estou, porque já cá estou, e chega. Posso ir muito mais além sabendo que estou cá e posso. Não há calor humano que mude alguma coisa, no estado fixo das coisas, quando não desespero por não beber o sumo da vida, tal como é publicitada e fetichisada. O que é, simplesmente é.

Eu deixo pratos por lavar e percebo que o amor à vida não se reflecte em reles superstições que nos garantem o dia de amanhã. Diz-se carpe diem de boca cheia como se fosse tudo adrenalina. Só há carpe diem se puder dizer que cheguei à cama e dormi bem.

GJ