Amante

         Quantas palavras amorosas não se fizeram e desfizeram em anéis de fumo?

         Nenhum sadomasoquismo se compara, nem em regras, nem em índole, à doce mistura de prazer e terror que é rasgar os músculos  dos nossos corações que bombeiam sangue, paraísos e monstros, para dar lugar à voluntária intrusão da razão, amando de corpo e alma.

          A solidão não me desfaz, nem desfez, nem me trouxe de volta o que destruí cheio de vontade.

        Palavras nada dizem. Falo de mim para todos os corações que com as minhas entranhas queiram colidir e desfrutar idoneamente do meu tempo, adormecer comigo e viver em mim, em liberdade. Tenho abrigo.

          As doces palavras que disse, libertei-as, para que criassem a melhor das realidades. Desfizeram-se, sem destino.

Que ninguém fique. Que ninguém seja destino. Que ninguém se atreva. Porque eu nada espero.

O tempo não espera. Eu também não.

SONY DSC

O último suspirou por tantos mais e,

do outro lado do templo-moinho

sentei-me, bafejando mais e mais

fumo contemplativo,

à medida que a lua se destapava, astral,

fitando-me para lá das nuvens.

Espantei a nostalgia, manco e inebriado,

sentindo-me em casa no meio da rua,

enquanto os gatos vadios faziam amor

soar como guerra.

GJ

Anúncios