Bacalhau Basta

A vida não vale nada
e a morte vale ainda menos
mas quando é a nossa vida
vale aquilo que fazemos
desde o dia em que se nasce
até à noite em que se morre
é com aquilo que se faz
que o caminho se percorre
e se a vida é para ser gasta
vamos gastá-la a preceito
para quem é bacalhau basta
para quem é bacalhau basta
mas que seja bacalhau bem feito.

Sérgio Godinho, Bacalhau Basta

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Auto-reflexão

Acabei de ouvir uma coisa acerca da auto reflexão que se pode ligar a escrita como meio. É como falar com um amigo, à procura de conselhos, quando aquilo precisamos é de olhar para nós mesmos. Fazendo-o com esse intuito, sem resistências e questionando, por pior que seja a verdade a que evitamos chegar, encontra-se um conforto melhor do que indulgencia e negação. Nenhum amigo verdadeiro nos mentirá, mas se perguntarmos às nossas consciências, a menos que corruptas, vamos ouvir o que não queremos, e ai reside o valor da auto-reflexão. Saber tirar proveito e aprender e a verdadeira aventura do auto conhecimento.

 

GJ

Isso nunca aconteceria comigo…

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Da carruagem mais despovoada do comboio em hora de ponta sai na paragem de Benfica uma única pessoa, uma rapariga do mais comum possível, com um certo ar de gerbo. Aconteceu nessa mesma tarde de S. Martinho (sim, sim eu lembro-me) um reencontro testemunhado pela classe trabalhadora aborrecida e pelo proletariado indisposto, momento confuso em que esta rapariga fica petrificada durante os suspensos segundos, na plataforma. (Detesto-a) Do fechar dramático das portas, ao início da corrida débil, do indistinto grito gemido ao abraço que a levantou no ar aos rodopios, as nossas atenções centraram-se nestes dois macacos do destino, vendo-os deslizar para direita e desaparecer do ecrã das janelas. O olhar voltou para dentro, exalaram-se bafos de tédio pela carruagem, olhavam para o chão, para o tecto, para as mãos, para os seios, para as jóias, para os engenhos de exclusão nas dadas formas e feitios; eu perdi o meu olhar na janela, um tanto dividido com o que acabara de ver. (eu também, foi bizarro) Alguém olhava para mim, sentia o ardor daquele olhar na têmpora, vindo da porta: eu era a janela daquele olhar. (era eu, óbvio) Saí do comboio ainda a tentar decidir-me sobre o que tinha visto… O tempo que parou, o ar preso nos pulmões, o olhar que se cruzou de surpresa, as memórias que desenrolaram dos sorrisos e lágrimas, a corrida que os podia ter partido em quatro, o abraço genérico dos chick-flicks e o beijo já visto à distância, o tempo que parou onde a chegada é a partida. (desta vez ficas?) Não é agridoce?

Conta-me esta história enquanto esperamos o 738 no hospital. Ainda se faz sentir o verão de S.Martinho, encandeados pela luz no alcatrão e nos edifícios, enfraquecidos pelo calor e pela fome. Ouço a memória a funcionar, estou lá a viver a mesma viagem, a ver as mesmas coisas. É a única forma de estar presente. Estes dias, quando não estamos apressados ou a dizer adeus, estamos a contar histórias. Eu convenço-me de que se me esforçar o suficiente a minha memória pode ser enganada, adulterada, por isso imagino o que ouço e vivo essas visões. A visão mostra o que nos rodeia, mas através dela não distinguimos o real do sonho. Antes de percepcionarmos o que é real ou representação, a visão é um canal de informação não filtrada. Não me incomoda tirar partido de um conhecimento tão útil. Vejo o sorriso ao acabar de contar a pequena memória que partilhamos, a raridade do sucedido que só vendo, só estando lá, se poderia acreditar. Isso torna-o relevante, a intensidade da história encaixa na prosódia do seu discurso dignificado.

O que é que eu acho?

  • Isso nunca aconteceria comigo…

Com um desviar de olhos em alerta, prossegue, tímido, obrigado pela emoção a querer saber o porquê, açoitado pelo ego que levanta a guarda.

  • Ai sim?! E pode-se saber porquê?
  • Porque – tremo a voz – porque – rio – … porque, é o que… Porque tenho uma grande resistência a emoções fortes, é só por isso, mais nada. Não ia desatar a correr, talvez sorrisse e acenasse, ah olá e tal- aparece o autocarro – mas não tem nada a ver contigo, eu às vezes desligo a parte humana que responde a humanos…
  • Está bem – desvia o olhar para o autocarro, a expressão reflecte preocupação nas sombras de todas as rugas visíveis – até logo, depois diz qualquer coisa.
  • Sim, até logo.

Sim, até logo, meu amor é o meu pensamento, e o que se fica por completar é ouvido até ao fim do outro lado. Acreditar é vital, acredito.

O que dizer, se desisto de mim como me conheci e obedeço ao ridículo lugar comum daquele que sofre consciente da própria demência? Sentei-me no banco de jardim ordinário, das traseiras ordinárias de um prédio ordinário de Telheiras. Andei uns bons quilómetros em jejum, já parei o meu tempo dedicado a outrém, tendo iniciado o cronómetro a contar o tempo das perguntas inexoráveis e do pensamento frio, esse que me traz da amargura que me humedeceu os olhos, ao fumar o mais ordinário e ineficaz cigarro mal enrolado, para me ocupar de vez da resposta óbvia, persistente, oportunista, essa da inexistência. Esforço-me tanto por fingir para mim mesmo que nada finjo, que tudo se mistura no mesmo sonho.

O que acho? Acho que uma parte de mim quer correr para ti, outra poderia correr para longe de ti, outra poderia ser real e lembrar-se do que nos afastou.

GJ

Faz-te Forward: um programa de integração sócio-profissional feito à tua medida

Umas das melhores experiências do ano. Dinâmico, útil, exigente e gratuito.
A receita para o sucesso és tu, mas lembra-te que não existes sozinho e todos nós chegamos mais longe uns com os outros. O teu talento tem lugar.
Sem dúvida que vale a pena e que se aprende mais do que se está à espera, mais sobre nós e sobre de que tipo de pessoas nos queremos rodear, mas sobretudo como lidar com todos os outros e nos potenciarmos. Dá para crescer, crescer mais um bocadinho e até mudar de rumo.
Se tens entre 18 e 25 anos e pensas em concorrer, estão ABERTAS as candidaturas até 12 de Novembro! Se tens um talento que queres explorar, se sentes que precisas de uma forcinha para te fazeres à estrada, se te vês como um profissional pronto para atacar a tua área como se não houvesse mais nada, este é um lugar onde te podes encontrar e onde podes conhecer muito mais pessoas como tu. Tens formações específicas, tens coaching, tens mentoria e uma rede alargada de contactos. Envia a tua candidatura e surpreende-te.

Se fores seleccionado… empenha-te, entrega-te e vai até onde quiseres ir, ninguém te impõe limites… Faz-te Forward é sem travões e em frente.

Para mais informações: http://fazteforward.trtcode.com/

GJ

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Entro nas memórias vívidas que se desenterram sozinhas, dum passado cálido e distante como um sonho, da infância como lugar único que vivi em despudor e despreocupação, e memórias que me são inacessíveis, encobertas por finais alternativos recriados pela perturbação que causam ao íntegro presente. Há um lado fabuloso nos dias que vivo, que sorriem, quando distraído em pensamentos e regressões, que afogam o olhar, quando ressaltam os pensamentos proibidos, em que vejo, balbucio e escuto o mal, assaltado por repressões, transgressões e limites, fios de navalha, memórias vivas fora do corpo, corpo vazio e bobo, corpo rubro e alma morta.

Anseio dirigir-me palavras de amigo, destapando os anos que me esqueci de ter vivido, inundar a lacuna, a vala dos defuntos actos legítimos e irascíveis, para me devolver a clareza da visão, para me trazer a união do todo que tenho vindo a planear e a arrumar em inventários selectos da minha mente pouco afectada, definhada, a fronte da minha paixão ardente que foi incendiada por derrames contínuos do combustível que há muito da fonte havia parado de jorrar. Anseio poder ser o todo que me coloca no invejado lugar daquele que se conhece e se aceita. Anseio não temer… e, no entanto, quando me sinto bravo, é a ânsia me faz tremer.

Há muito que me ecoa a visão clarividente que me garante que morrerei em breve. Só sei que poderei morrer quando me torno uma perda. Como poderia ser uma perda sem ser de alguém pertença? E se alguém me tem, a alguém me terei dado. Quem me pudesse perder, sofreria algo como uma perda. Não temo a morte, pelo que tal pânico é extra irracional, dentro da racionalidade que estimo e tão bem cuido para compreender os caprichos dos meus medos, fixados em solos arenosos. Temo e inundam-me os olhos de melancolia a perda de quem sou aos olhos de quem me tem, que me poderá perder para a rigidez rigorosa, sem ter sido lido, sem me ter aberto, sem ter lido aos donos do meu afoito coração de criança desconfiada crescida os mandamentos do real inquieto desnutrido, desiludido, alienado, adormecido. A fábula é a mais extensa, infindável peça que ainda não tive o atrevimento de deixar a meio. E que mentiroso eu sou.

E que mentiroso eu sou.

A mentira que me atrevo a reconhecer é a nova farsa que crio para esconder a verdade do que julgo entorpecer pela reprovação. A mentira é a verdade e a verdade a ternura, a compaixão da mentira… e há uma lava que se verte pela lava extinta, o vulcão que me cava de novo o peito pela alegria que tenho em me ver desfeito das minhas teias de controlador do universo. A minha liberdade só chega quando sou detido. Preciso da prisão para ser livre. Preciso de não ser, para ser livre. Continuarei livre de amarras para me prender a uma única expressão: a do caos unificador que me faz anémico e tranquilo para os donos do afoito coração de criança desconfiada desiludida, ardida.

E que amoroso sou eu. Quem em amores desmesurados me quero derreter eu. Derreter em lava e perdição, derreto-me, eu.

Apaga-me e desunha-me, deixa as crostas para nunca mais ver a ferida.

GJ

contemplando