Conversas

Diálogos de coisas amorosas. Voltando a Julho.

Concordo mais contigo, agora, que amar é, de facto, um acto construtivo. Destrói para construir sucessivamente. É assim que aprendemos cumulativamente, mas é assim que se ama?

Acho que é bem isso, é obrigares-te a renovar os teus paradigmas a cada dia, e não só. É dar, destruir barreiras e cercar o lugar na tua memória onde vai repousar o teu amor, construir no outro o teu repouso, onde podes ser tu.

Com isso sugeres o vão e doente acto de amar ser uma guerra de conquista de terras? Um tango? Sabes que o tango era dançado por homens?  Despique hormonal de machos?

Surpreende-te assim tanto que a competição e conquista parta dos pares? Podes observar na natureza quão rudes permanecemos, podes comparar uma medição de forças entre alfas e uma dança de sensualidade, habilidade, atracção física cuja eficácia se revela no frémito do corpo.

O que é a sedução senão uma luta pela conquista?

Conquista de quê? De espaço? Para que serve essa conquista?

És um animal e, como tal, territorial, conquistador e dominador. Precisas de te expandir para seres maior, não cabes só em ti, o teu território é o legado, a tua conquista a tua força. Enquanto amas, afirmas-te.

São primitivas, as tuas razões. Explica-me, então, porque investiria alguém, nos tempos de hoje, em territórios obsoletos? É assim a aventura de amar um jogo de criança aborrecida, às escondidas, até ser encontrada? Pois a mim parece-me que amar é egoísmo. É tão especial que homens e mulheres por todo o mundo, ao través dos tempos,  desfalecem à espera de terem certeza do que sentem. A luta pereceu, embora sejamos terras por conquistar, sem conquistadores, porque poucos são os que nada têm a perder. São os absurdos.

Já ninguém se interrompe para amar, ninguém quer sair a perder.

O que perdes se nada tiveste?

Em termos reais, não há vencedores e vencidos. Há tempo consumido e o tempo tem memória nas palavras que disseste, nos gestos, na desdita, no começo, no fim e o quão bravo ou fraco foste. Amar é doentio, ser alguém no mundo e estar apaixonado é o sintoma, é o que escreve os romances e os versos de almas torturadas pela incompreensão do que é, realmente, amor. Ser alguém e amar são águas imiscíveis. Podes tu, mais do que uma verdadeira vez diluir-te, para afirmar que amas? O delíquio do teu ego no ar desta doença não acontece se não acontecer, não tens o poder de o fazer deliberadamente. Tem de ser causado, tem de reagir a outro agente.

Quantas vezes se perdeu de amores D.Juan?

D. Juan amou? Ou procurou no coração de tantas a admiração?

Amor eterno é mais um mito que passamos séculos a tentar comprovar, mais um tédio para juntar aos padrões impossíveis de manter. D. Juan amou várias vezes e, escavada a terra da raiz desse nascido amor, nada mais havia para ele, o entusiasmo, o desejo, a alegria da paixão jovial feliz e a adrenalina passageiras cessam.

Nunca se transformou num só.

Não queres insinuar um paralelismo com alquimia, espero?

Perde e morre prematuramente aquele que não vive nem sente ao limite. Amar é fundires a tua matéria única com outra matéria impossível. Só é amor por ser transcendente, por não o encontrares no comum, no que já existe, por desafiar todos os gritos de perigo e sobrevivência que disparam no teu corpo físico. Tem de se criar a si próprio.

GJ

Isso nunca aconteceria comigo…

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Da carruagem mais despovoada do comboio em hora de ponta sai na paragem de Benfica uma única pessoa, uma rapariga do mais comum possível, com um certo ar de gerbo. Aconteceu nessa mesma tarde de S. Martinho (sim, sim eu lembro-me) um reencontro testemunhado pela classe trabalhadora aborrecida e pelo proletariado indisposto, momento confuso em que esta rapariga fica petrificada durante os suspensos segundos, na plataforma. (Detesto-a) Do fechar dramático das portas, ao início da corrida débil, do indistinto grito gemido ao abraço que a levantou no ar aos rodopios, as nossas atenções centraram-se nestes dois macacos do destino, vendo-os deslizar para direita e desaparecer do ecrã das janelas. O olhar voltou para dentro, exalaram-se bafos de tédio pela carruagem, olhavam para o chão, para o tecto, para as mãos, para os seios, para as jóias, para os engenhos de exclusão nas dadas formas e feitios; eu perdi o meu olhar na janela, um tanto dividido com o que acabara de ver. (eu também, foi bizarro) Alguém olhava para mim, sentia o ardor daquele olhar na têmpora, vindo da porta: eu era a janela daquele olhar. (era eu, óbvio) Saí do comboio ainda a tentar decidir-me sobre o que tinha visto… O tempo que parou, o ar preso nos pulmões, o olhar que se cruzou de surpresa, as memórias que desenrolaram dos sorrisos e lágrimas, a corrida que os podia ter partido em quatro, o abraço genérico dos chick-flicks e o beijo já visto à distância, o tempo que parou onde a chegada é a partida. (desta vez ficas?) Não é agridoce?

Conta-me esta história enquanto esperamos o 738 no hospital. Ainda se faz sentir o verão de S.Martinho, encandeados pela luz no alcatrão e nos edifícios, enfraquecidos pelo calor e pela fome. Ouço a memória a funcionar, estou lá a viver a mesma viagem, a ver as mesmas coisas. É a única forma de estar presente. Estes dias, quando não estamos apressados ou a dizer adeus, estamos a contar histórias. Eu convenço-me de que se me esforçar o suficiente a minha memória pode ser enganada, adulterada, por isso imagino o que ouço e vivo essas visões. A visão mostra o que nos rodeia, mas através dela não distinguimos o real do sonho. Antes de percepcionarmos o que é real ou representação, a visão é um canal de informação não filtrada. Não me incomoda tirar partido de um conhecimento tão útil. Vejo o sorriso ao acabar de contar a pequena memória que partilhamos, a raridade do sucedido que só vendo, só estando lá, se poderia acreditar. Isso torna-o relevante, a intensidade da história encaixa na prosódia do seu discurso dignificado.

O que é que eu acho?

  • Isso nunca aconteceria comigo…

Com um desviar de olhos em alerta, prossegue, tímido, obrigado pela emoção a querer saber o porquê, açoitado pelo ego que levanta a guarda.

  • Ai sim?! E pode-se saber porquê?
  • Porque – tremo a voz – porque – rio – … porque, é o que… Porque tenho uma grande resistência a emoções fortes, é só por isso, mais nada. Não ia desatar a correr, talvez sorrisse e acenasse, ah olá e tal- aparece o autocarro – mas não tem nada a ver contigo, eu às vezes desligo a parte humana que responde a humanos…
  • Está bem – desvia o olhar para o autocarro, a expressão reflecte preocupação nas sombras de todas as rugas visíveis – até logo, depois diz qualquer coisa.
  • Sim, até logo.

Sim, até logo, meu amor é o meu pensamento, e o que se fica por completar é ouvido até ao fim do outro lado. Acreditar é vital, acredito.

O que dizer, se desisto de mim como me conheci e obedeço ao ridículo lugar comum daquele que sofre consciente da própria demência? Sentei-me no banco de jardim ordinário, das traseiras ordinárias de um prédio ordinário de Telheiras. Andei uns bons quilómetros em jejum, já parei o meu tempo dedicado a outrém, tendo iniciado o cronómetro a contar o tempo das perguntas inexoráveis e do pensamento frio, esse que me traz da amargura que me humedeceu os olhos, ao fumar o mais ordinário e ineficaz cigarro mal enrolado, para me ocupar de vez da resposta óbvia, persistente, oportunista, essa da inexistência. Esforço-me tanto por fingir para mim mesmo que nada finjo, que tudo se mistura no mesmo sonho.

O que acho? Acho que uma parte de mim quer correr para ti, outra poderia correr para longe de ti, outra poderia ser real e lembrar-se do que nos afastou.

GJ

Amante

         Quantas palavras amorosas não se fizeram e desfizeram em anéis de fumo?

         Nenhum sadomasoquismo se compara, nem em regras, nem em índole, à doce mistura de prazer e terror que é rasgar os músculos  dos nossos corações que bombeiam sangue, paraísos e monstros, para dar lugar à voluntária intrusão da razão, amando de corpo e alma.

          A solidão não me desfaz, nem desfez, nem me trouxe de volta o que destruí cheio de vontade.

        Palavras nada dizem. Falo de mim para todos os corações que com as minhas entranhas queiram colidir e desfrutar idoneamente do meu tempo, adormecer comigo e viver em mim, em liberdade. Tenho abrigo.

          As doces palavras que disse, libertei-as, para que criassem a melhor das realidades. Desfizeram-se, sem destino.

Que ninguém fique. Que ninguém seja destino. Que ninguém se atreva. Porque eu nada espero.

O tempo não espera. Eu também não.

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O último suspirou por tantos mais e,

do outro lado do templo-moinho

sentei-me, bafejando mais e mais

fumo contemplativo,

à medida que a lua se destapava, astral,

fitando-me para lá das nuvens.

Espantei a nostalgia, manco e inebriado,

sentindo-me em casa no meio da rua,

enquanto os gatos vadios faziam amor

soar como guerra.

GJ

Ad libs

   Acredito que tudo é, por natureza e por defeito, desequilibrado. A falta de equilíbrio resolve-se com outros pesos, para cada limiar de desequilibrio há um elemento que pode contrabalançar os efeitos nefastos da deficiência raquítica do ser.

  Receita-se uma valente dose de bravura ao pensador da lógica fria e problematizante que se encontra apaixonado. Aconselha-se ao mais acelerado, ansioso e drasticamente romântico dos corações uma viagem pela noite fria da introspecção e calma. No entanto, pergunto-me qual o propósito de todo este contrabalanço? Se se é o que se é, e Ser é experiência, então não há existência menor que a experiência e cada um será o que é, simplesmente.

  Um mundo cheio de sobreviventes esplendorosos que fomos destruindo  sem nunca realmente ver os cantos à casa, sem nunca realmente tocar os que existem connosco e que aniquilamos, e, de alguma forma, só vivemos para o olhar do próximo. Uns mais resguardados de tudo, outros mais arfantes pelo calor do vizinho, mas todos querem o mais cobiçado, raro e vão dos bens, todos querem um coração, com amor. Um coração com amor pode já vir quebrado, pode não reparar um partido, pode não ser suficiente, pode elevar a consciência a novos patamares da existência mais amáveis, amorosos e globalmente estáveis.

  Acho que se resume a auto-preservação, para que as nossas deficiências não nos deformem. Corrige-se o instável e a bola de neve continua, no eixo em que giramos, num jogo de influências em que nos encontramos, não ao acaso, mas porque chegamos a um ponto de encontro.

GJ