Prompt: 10 minutos de escrita aleatória

Arrumei o meu caderno de non-fiction na gaveta das dívidas, das cartas e das avenças na noite em que pensar se tornou demasiado, elevava-se a minha fúria com o furor do pensamento e das memórias que guardava de há 3 meses até então leem-se apenas lamentos. A última entrada é de 15 de Janeiro, escrevo com o entusiasmo perigoso de alguém crispado pelo desespero, na queda da ignorância, em maiúsculas espaçadas, a flutuar pelas pequenas páginas amareladas, vincadas pela ponta da esferográfica verde; tantos lugares comuns gerados pela febre, pela esperança. Fui buscá-lo para me relembrar do ritual que comecei para, numa tentativa frustre, recapturar o meu fluxo de escrita; tentativa que logo abandonei ao reviver através deste canal que sintonizei a rotina de alguém assombrado pelos meus demónios joviais. Abandonei-o de imediato, apenas para voltar e justificar-me. Quão fácil é tornar umas páginas de carácter factual num diário desnecessário.

De volta ao furor do pensamento incentivado pela memória de um ritual ido e finado, o papel não se deu bem com a tinta que se esborratou pelos cortes traçados pelo aparo aguçado. Ainda gosto de escrever em papel, bem como ainda gosto de escrever com caneta de aparo e tinta. Temo não ter mão nem agilidade para a caligrafia, pois também me falta a faculdade de me preocupar com o rigor de algo que tenho de fazer antes que me esqueça. A minha memória é o que mais me falha, além da objectividade. Nada tenho feito por completo. Para mal esgalhado já basto eu e as minhas manias. Divago. Entre tanta rasura torna-se óbvia a minha impulsividade para editar a negatividade que me possa comprometer… Divago uma vez mais, o relógio aponta poucos segundos para o fim e o violino de Tchaikovsky geme de uma maneira insuportável, já…

GJ

Ready, Set, Done