Bacalhau Basta

A vida não vale nada
e a morte vale ainda menos
mas quando é a nossa vida
vale aquilo que fazemos
desde o dia em que se nasce
até à noite em que se morre
é com aquilo que se faz
que o caminho se percorre
e se a vida é para ser gasta
vamos gastá-la a preceito
para quem é bacalhau basta
para quem é bacalhau basta
mas que seja bacalhau bem feito.

Sérgio Godinho, Bacalhau Basta

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Auto-reflexão

Acabei de ouvir uma coisa acerca da auto reflexão que se pode ligar a escrita como meio. É como falar com um amigo, à procura de conselhos, quando aquilo precisamos é de olhar para nós mesmos. Fazendo-o com esse intuito, sem resistências e questionando, por pior que seja a verdade a que evitamos chegar, encontra-se um conforto melhor do que indulgencia e negação. Nenhum amigo verdadeiro nos mentirá, mas se perguntarmos às nossas consciências, a menos que corruptas, vamos ouvir o que não queremos, e ai reside o valor da auto-reflexão. Saber tirar proveito e aprender e a verdadeira aventura do auto conhecimento.

 

GJ

O vinho

Le Vin des amants

Aujourd’hui l’espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!

Comme deux anges que torture
Une implacable calenture
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!

Mollement balancés sur l’aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,

Ma soeur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves!

Charles Baudelaire

 

Mal acabei a minha última aula, de a ensinar isto é, pus-me a caminho, a pé pelo Saldanha para a Estefânia, descendo para o Campo Mártires da Pátria. Cheguei meia hora mais cedo, senão pelo vinho, que ali servem bem. Em Março, ao frio, um copo de vinho tinto e o último cigarro daquele maço desfizeram a primeira meia hora e As Flores do Mal desfizeram a segunda.

Já chega!, dizia eu a molhar os lábios no segundo copo, nunca mais me apontam o dedo por chegar atrasado seja àquilo que for, eu que aqui estou há uma hora à espera.

Fecho os olhos a beber, fecho os olhos a passar fumo, entre vistas abre-se a porta com um sopro duro de frio que logo se enevoou ao encontrar os bêbedos da casa. Chegou e pediu desculpas, sem dar grande importância, enrolando-se numa história que não me incomodou ignorar, enrolando-se numa história que não me incomodou ignorar. Não somos amantes, não obstante uma e outra tentativas passadas. O vinho clama pelo meu amante longínquo, que me guardava em segredo. Chamei pelo vinho que me lavava a língua o seu nome, seis vezes exactas, parando aquando à hora do fecho pela noite a correr não veio. Gradualmente, o pó estático que sustentava a sua ilusória presença a meu lado assentava no chão e as luzes apagavam-se.

Ao terceiro copo, depois ter articuladamente respondido a todas as perguntas de que se conseguiu lembrar de me fazer, virei o jogo com apenas e tu? Garanto que ouvi até ter a certeza de que um bem ou um vai-se andando fora dito, introduzindo a sequência de insólitas desgraças do costume, ensopando a língua de vinho, que em tons raros de canela me abriam o apetite.

O quarto copo cheirava a Douro. Nas palavras que agora a recordavam o passado em que mergulhei na noite revolta e chuvosa sem me afogar. Sorvi daquele vinho as notas para cantar quatro Stornelli Romanesche aprendidas em tascas, em barcos e bacanais e ainda mais uma, trazida na gota escorrida pelo pé do quinto copo. Più seeeeeemo e mejò staaaamo, tremeu-me na voz límpida pelo aperto na garganta que a assobiava. Do balcão, os velhos bêbedos saíram sem pagar; dos assentos, o casal que menosprezava a intimidade do silêncio ofendeu-se com o regalo barítono que lhes interrompeu a conversa fatigante, o regalo generoso trazido pelo vinho amoroso que tão doce me deixou. Dançávamos em cima da mesa. Juntos dançámos aquela ágil troca de pés que amolgou a mesa de pinho. Caí. Perdi. Carregou-me.

Quanta amargura amaciada pelo mosto sadio! Olhava pela janela ociosa do pendura a Lisboa que já não fazia sentido, chupando dos dentes o último gole de vinho que chamasse o seu nome.

 

GJ

A presunção da autobriografia

Au Lecteur

C’est ici un livre de bonne foi, lecteur. Il t’avertit, dés l’entrée, que je ne m’y suis proposé aucune fin, que domestique et privée. Je n’y ai eu nulle considération de ton service, ni de ma gloire. Mes forces ne sont pas capables d’un tel dessein. Je l’ai voué à la commodité particulière de mes parents et amis : à ce que m’ayant perdu (ce qu’ils ont à faire bientôt) ils y puissent retrouver aucuns traits de mes conditions et humeurs, et que par ce moyen ils nourrissent, plus altiére et plus vive, la connaissance qu’ils ont eue de moi. Si c’eût été pour rechercher la faveur du monde, je me fusse mieux paré et me présenterais en une marche étudiée. Je veux qu’on m’y voie en ma façon simple, naturelle et ordinaire, sans contention et artifice : car c’est moi que je peins. Mes défauts s’y liront au vif, et ma forme naïve, autant que la révérence publique me l’a permis. Que si j’eusse été entre ces nations qu’on dit vivre encore sous la douce liberté des premières lois de nature, je t’assure que je m’y fusse très volontiers peint tout entier, et tout nu. Ainsi, lecteur, je suis moi-même la matière de mon livre : ce n’est pas raison que tu emploies ton loisir en un sujet si frivole et si vain. Adieu donc ; de Montaigne, ce premier de mars mil cinq cent quatre vingts.

Montaigne

Montaigne assim enceta a introdução de “Les Essais”, cujo conteúdo é ele mesmo, onde se quer mostrar na forma mais verdadeira. Dirige-se aos amigos, sobretudo, aos familiares com qualquer violência, um pouco de rancor, em advertências e justificações, como um animal selvagem amedrontado e indefeso, encurralado… ou será antes um homem prestes a cumprir a vontade de ser mais transparente sem fazer dos leitores reféns de quaisquer dúvidas que a autobiografia, nos seus momentos mais obscuros, pudesse levantar? Ele mostra-se, não sem antes avisar que o fará intencionalmente.

Este é cá dos meus, um livro aberto com intuito de o ser, contando apenas o suficiente para não ser demasiado. A resposta à provocação do título: quão cheios serão os tomates daquele que se atreve a escrever, publicar e endereçar uma autobiografia para achar que alguém se importa? – não é por acaso que se dirige aos amigos e família: aqueles que nos ensinam que, por muito bem que conheçamos alguém, nunca conhecemos ninguém verdadeiramente. Ele vai dar esse gosto ao clã dele, quer o amem ou amem menos do que ele, ao que já sabem o suficiente para querer saber o resto.

Publicaria uma autobiografia? Nem eu quero saber…

GJ

Um soneto para a viagem

Há-de ledo cair em breve o céu vindo a nós enfim.

Sem dor que me moleste declinarei o fim

Pelo raro privilégio de estar só e assim

Sal das gentes e do ego, limpo e longe do motim.

 

Chegará o céu a tempo, pois, de os levar a todos.

Todos os Párias portugal ao céu oferece e

nós ficamos cá porquanto for absurdo

morrer apenas porque o tempo nega a prece

 

prévia que houvera inferno para os felizes.

Podemos na terra crer ou ignorar quais mitos

ritos, alegorias, impunes aos juízes

 

de olhos carniceiros, reflectidos no abismo,

caos ido de outrora em que a nossa paixão bastava

entrever e houvera inferno para nós, felizes.

 

GJ

Carta a Rainer Maria Rilke

ps

 

Mas a sua solidão será um pouso e um lar, mesmo no meio de relações muito hostis, e a partir dela encontrará os seus caminhos.

Therefore, dear Sir, love your solitude and try to sing out with the pain it causes you. For those who are near you are far away… and this shows that the space around you is beginning to grow vast… be happy about your growth, in which of course you can’t take anyone with you (…)

Rainer Maria Rilke

Meu caro,

Detesto saber que estás morto e que esta carta é um bala vazia, mas também apenas Kappus pareceu receber mais que um dos teus conselhos, quando não estavas a mudar de novo de casa ou a morrer de pobreza e doença. Essa é a verdade dos factos que contam, não que afecte a minha admiração por ti. A verdade é sombria para muitos, enquanto que para mim, a verdade não se figura preocupante. Em boa verdade, vivo bem de olhos abertos esta última, inclusive aquela que me incomoda, a de não poder nunca desviar a minha atenção de qualquer tarefa sem encetar um obsessivo interrogatório existencial e a medo tentar responder a todas as questões que ainda não desmistifiquei e que comprometem a minha vontade de existir, a de persistir na pueril demanda de tudo querer resolver dentro de mim. Esta é a verdade dos factos que já eu conheço bem e talvez a venha a aceitar. De entre todas as minhas questões, Rainer, preciso da tua perícia e honestidade para fazer face à minha solidão… Como era, de verdade, a tua solidão?

Nas tuas cartas prevalece a tua boa vontade, a tua eloquente vulnerabilidade e a tua mestria, mas não és sincero. Preciso que me digas o que acarreta afundar-me na minha já instalada solidão? Sou tão amante da solidão aqui como em qualquer lugar, pois então de que me vale partir e deixar o parco pão que me é dado? Porque me devo eu apartar do calor que eu, cão imprestável, conquistei nesta terra inóspita? A que limites foste tu capaz de te arrastar e à tua amada solidão? És capaz de me incentivar ainda agora ou dissuadir-me-ás? O que aprendeste contigo mesmo senão o que já sabias? Quanto espaço privatizaste entre ti e nós os outros? Quantifica-me a tua paz de espírito. Longe de escrutínios e ainda tendo de passar pelos fretes do dia-a-dia, digo-te que sinto mais a solidão como a tal cruz de que falas em carregar, solidão dentro da qual, acolhido, lambo das maleitas a minha cura, e por isso questiono incessantemente, até o frenesi acabar e então a vida fora de mim é apenas uma ilusão, quebrada por outra pergunta. O que muda? Qual a razão de ser? Porque devo alimentar esta alienação? A mim parece-me que tiveste mais ajudas do que alguém como eu tem direito a ter. A mim parece-me que és um charmoso e inspirador homem, bem como um grande aldrabão… e no entanto levantas uma boa questão: temos de enfrentar o nosso crescimento sozinhos. Pois, ninguém o fará da mesma forma e talvez a interferência atrofie o nosso desenvolvimento, talvez sacrifique um maior futuro, enquanto que em total solidão apenas nós podemos interferir e agir de acordo com o que é do nosso melhor interesse.

Quase que te consigo ouvir a reflectir sobre os meus devaneios cortantes, ainda sim, incapaz de ser genuíno. És um cobarde. Tenta, pelo menos, ajudar-me nesta última questão. Fico onde estou e ignoro o que poderia vir a ser das oportunidades de partir, contando comigo apenas como porto de abrigo e, segundo os teus ensinamentos, ser um homem mais completo e sábio, ou parto ignorando que até hoje aqui amadureci, contra todas as adversidades? Tiveste de responder a esta questão, no teu tempo de vida? Tanto quanto me é possível observar, terei de fazer à tua maneira e descobrir o que melhor me serve, pois não sei se não terás trilhado este mesmo caminho e optado por outro, pelo teu, aquele que te trouxe até mim. Foi coragem ou cobardia?

Não precisas de me responder para já, eu não te quero ver tão cedo.

Teu,

GJ