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Projecção de sombras em festim
Alcançam à distância visões sem fim
Sombras de gato bravo no telhado
Movem-se exuberantes e a medo
Do peso das passadas pesadas
Ignorando se é grande se é pequeno
Denunciado pelo leve ruído
Branco estática intensidade
Ao sol rocha quente,
Dia soalheiro, quedo, dormente,
Bebe da noite água mole
Que corroa a inquebrável corrente
Castradora da intuição insurrecta
À falta de chave que a liberte.
Que mente que sente, mente,
Que é diferente e vê e crê somente.

 

Bacalhau Basta

A vida não vale nada
e a morte vale ainda menos
mas quando é a nossa vida
vale aquilo que fazemos
desde o dia em que se nasce
até à noite em que se morre
é com aquilo que se faz
que o caminho se percorre
e se a vida é para ser gasta
vamos gastá-la a preceito
para quem é bacalhau basta
para quem é bacalhau basta
mas que seja bacalhau bem feito.

Sérgio Godinho, Bacalhau Basta

Auto-reflexão

Acabei de ouvir uma coisa acerca da auto reflexão que se pode ligar a escrita como meio. É como falar com um amigo, à procura de conselhos, quando aquilo precisamos é de olhar para nós mesmos. Fazendo-o com esse intuito, sem resistências e questionando, por pior que seja a verdade a que evitamos chegar, encontra-se um conforto melhor do que indulgencia e negação. Nenhum amigo verdadeiro nos mentirá, mas se perguntarmos às nossas consciências, a menos que corruptas, vamos ouvir o que não queremos, e ai reside o valor da auto-reflexão. Saber tirar proveito e aprender e a verdadeira aventura do auto conhecimento.

 

GJ

O vinho

Le Vin des amants

Aujourd’hui l’espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!

Comme deux anges que torture
Une implacable calenture
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!

Mollement balancés sur l’aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,

Ma soeur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves!

Charles Baudelaire

 

Mal acabei a minha última aula, de a ensinar isto é, pus-me a caminho, a pé pelo Saldanha para a Estefânia, descendo para o Campo Mártires da Pátria. Cheguei meia hora mais cedo, senão pelo vinho, que ali servem bem. Em Março, ao frio, um copo de vinho tinto e o último cigarro daquele maço desfizeram a primeira meia hora e As Flores do Mal desfizeram a segunda.

Já chega!, dizia eu a molhar os lábios no segundo copo, nunca mais me apontam o dedo por chegar atrasado seja àquilo que for, eu que aqui estou há uma hora à espera.

Fecho os olhos a beber, fecho os olhos a passar fumo, entre vistas abre-se a porta com um sopro duro de frio que logo se enevoou ao encontrar os bêbedos da casa. Chegou e pediu desculpas, sem dar grande importância, enrolando-se numa história que não me incomodou ignorar, enrolando-se numa história que não me incomodou ignorar. Não somos amantes, não obstante uma e outra tentativas passadas. O vinho clama pelo meu amante longínquo, que me guardava em segredo. Chamei pelo vinho que me lavava a língua o seu nome, seis vezes exactas, parando aquando à hora do fecho pela noite a correr não veio. Gradualmente, o pó estático que sustentava a sua ilusória presença a meu lado assentava no chão e as luzes apagavam-se.

Ao terceiro copo, depois ter articuladamente respondido a todas as perguntas de que se conseguiu lembrar de me fazer, virei o jogo com apenas e tu? Garanto que ouvi até ter a certeza de que um bem ou um vai-se andando fora dito, introduzindo a sequência de insólitas desgraças do costume, ensopando a língua de vinho, que em tons raros de canela me abriam o apetite.

O quarto copo cheirava a Douro. Nas palavras que agora a recordavam o passado em que mergulhei na noite revolta e chuvosa sem me afogar. Sorvi daquele vinho as notas para cantar quatro Stornelli Romanesche aprendidas em tascas, em barcos e bacanais e ainda mais uma, trazida na gota escorrida pelo pé do quinto copo. Più seeeeeemo e mejò staaaamo, tremeu-me na voz límpida pelo aperto na garganta que a assobiava. Do balcão, os velhos bêbedos saíram sem pagar; dos assentos, o casal que menosprezava a intimidade do silêncio ofendeu-se com o regalo barítono que lhes interrompeu a conversa fatigante, o regalo generoso trazido pelo vinho amoroso que tão doce me deixou. Dançávamos em cima da mesa. Juntos dançámos aquela ágil troca de pés que amolgou a mesa de pinho. Caí. Perdi. Carregou-me.

Quanta amargura amaciada pelo mosto sadio! Olhava pela janela ociosa do pendura a Lisboa que já não fazia sentido, chupando dos dentes o último gole de vinho que chamasse o seu nome.

 

GJ

A presunção da autobriografia

Au Lecteur

C’est ici un livre de bonne foi, lecteur. Il t’avertit, dés l’entrée, que je ne m’y suis proposé aucune fin, que domestique et privée. Je n’y ai eu nulle considération de ton service, ni de ma gloire. Mes forces ne sont pas capables d’un tel dessein. Je l’ai voué à la commodité particulière de mes parents et amis : à ce que m’ayant perdu (ce qu’ils ont à faire bientôt) ils y puissent retrouver aucuns traits de mes conditions et humeurs, et que par ce moyen ils nourrissent, plus altiére et plus vive, la connaissance qu’ils ont eue de moi. Si c’eût été pour rechercher la faveur du monde, je me fusse mieux paré et me présenterais en une marche étudiée. Je veux qu’on m’y voie en ma façon simple, naturelle et ordinaire, sans contention et artifice : car c’est moi que je peins. Mes défauts s’y liront au vif, et ma forme naïve, autant que la révérence publique me l’a permis. Que si j’eusse été entre ces nations qu’on dit vivre encore sous la douce liberté des premières lois de nature, je t’assure que je m’y fusse très volontiers peint tout entier, et tout nu. Ainsi, lecteur, je suis moi-même la matière de mon livre : ce n’est pas raison que tu emploies ton loisir en un sujet si frivole et si vain. Adieu donc ; de Montaigne, ce premier de mars mil cinq cent quatre vingts.

Montaigne

Montaigne assim enceta a introdução de “Les Essais”, cujo conteúdo é ele mesmo, onde se quer mostrar na forma mais verdadeira. Dirige-se aos amigos, sobretudo, aos familiares com qualquer violência, um pouco de rancor, em advertências e justificações, como um animal selvagem amedrontado e indefeso, encurralado… ou será antes um homem prestes a cumprir a vontade de ser mais transparente sem fazer dos leitores reféns de quaisquer dúvidas que a autobiografia, nos seus momentos mais obscuros, pudesse levantar? Ele mostra-se, não sem antes avisar que o fará intencionalmente.

Este é cá dos meus, um livro aberto com intuito de o ser, contando apenas o suficiente para não ser demasiado. A resposta à provocação do título: quão cheios serão os tomates daquele que se atreve a escrever, publicar e endereçar uma autobiografia para achar que alguém se importa? – não é por acaso que se dirige aos amigos e família: aqueles que nos ensinam que, por muito bem que conheçamos alguém, nunca conhecemos ninguém verdadeiramente. Ele vai dar esse gosto ao clã dele, quer o amem ou amem menos do que ele, ao que já sabem o suficiente para querer saber o resto.

Publicaria uma autobiografia? Nem eu quero saber…

GJ

Um soneto para a viagem

Há-de ledo cair em breve o céu vindo a nós enfim.

Sem dor que me moleste declinarei o fim

Pelo raro privilégio de estar só e assim

Sal das gentes e do ego, limpo e longe do motim.

 

Chegará o céu a tempo, pois, de os levar a todos.

Todos os Párias portugal ao céu oferece e

nós ficamos cá porquanto for absurdo

morrer apenas porque o tempo nega a prece

 

prévia que houvera inferno para os felizes.

Podemos na terra crer ou ignorar quais mitos

ritos, alegorias, impunes aos juízes

 

de olhos carniceiros, reflectidos no abismo,

caos ido de outrora em que a nossa paixão bastava

entrever e houvera inferno para nós, felizes.

 

GJ

Carta a Rainer Maria Rilke

ps

 

Mas a sua solidão será um pouso e um lar, mesmo no meio de relações muito hostis, e a partir dela encontrará os seus caminhos.

Therefore, dear Sir, love your solitude and try to sing out with the pain it causes you. For those who are near you are far away… and this shows that the space around you is beginning to grow vast… be happy about your growth, in which of course you can’t take anyone with you (…)

Rainer Maria Rilke

Meu caro,

Detesto saber que estás morto e que esta carta é um bala vazia, mas também apenas Kappus pareceu receber mais que um dos teus conselhos, quando não estavas a mudar de novo de casa ou a morrer de pobreza e doença. Essa é a verdade dos factos que contam, não que afecte a minha admiração por ti. A verdade é sombria para muitos, enquanto que para mim, a verdade não se figura preocupante. Em boa verdade, vivo bem de olhos abertos esta última, inclusive aquela que me incomoda, a de não poder nunca desviar a minha atenção de qualquer tarefa sem encetar um obsessivo interrogatório existencial e a medo tentar responder a todas as questões que ainda não desmistifiquei e que comprometem a minha vontade de existir, a de persistir na pueril demanda de tudo querer resolver dentro de mim. Esta é a verdade dos factos que já eu conheço bem e talvez a venha a aceitar. De entre todas as minhas questões, Rainer, preciso da tua perícia e honestidade para fazer face à minha solidão… Como era, de verdade, a tua solidão?

Nas tuas cartas prevalece a tua boa vontade, a tua eloquente vulnerabilidade e a tua mestria, mas não és sincero. Preciso que me digas o que acarreta afundar-me na minha já instalada solidão? Sou tão amante da solidão aqui como em qualquer lugar, pois então de que me vale partir e deixar o parco pão que me é dado? Porque me devo eu apartar do calor que eu, cão imprestável, conquistei nesta terra inóspita? A que limites foste tu capaz de te arrastar e à tua amada solidão? És capaz de me incentivar ainda agora ou dissuadir-me-ás? O que aprendeste contigo mesmo senão o que já sabias? Quanto espaço privatizaste entre ti e nós os outros? Quantifica-me a tua paz de espírito. Longe de escrutínios e ainda tendo de passar pelos fretes do dia-a-dia, digo-te que sinto mais a solidão como a tal cruz de que falas em carregar, solidão dentro da qual, acolhido, lambo das maleitas a minha cura, e por isso questiono incessantemente, até o frenesi acabar e então a vida fora de mim é apenas uma ilusão, quebrada por outra pergunta. O que muda? Qual a razão de ser? Porque devo alimentar esta alienação? A mim parece-me que tiveste mais ajudas do que alguém como eu tem direito a ter. A mim parece-me que és um charmoso e inspirador homem, bem como um grande aldrabão… e no entanto levantas uma boa questão: temos de enfrentar o nosso crescimento sozinhos. Pois, ninguém o fará da mesma forma e talvez a interferência atrofie o nosso desenvolvimento, talvez sacrifique um maior futuro, enquanto que em total solidão apenas nós podemos interferir e agir de acordo com o que é do nosso melhor interesse.

Quase que te consigo ouvir a reflectir sobre os meus devaneios cortantes, ainda sim, incapaz de ser genuíno. És um cobarde. Tenta, pelo menos, ajudar-me nesta última questão. Fico onde estou e ignoro o que poderia vir a ser das oportunidades de partir, contando comigo apenas como porto de abrigo e, segundo os teus ensinamentos, ser um homem mais completo e sábio, ou parto ignorando que até hoje aqui amadureci, contra todas as adversidades? Tiveste de responder a esta questão, no teu tempo de vida? Tanto quanto me é possível observar, terei de fazer à tua maneira e descobrir o que melhor me serve, pois não sei se não terás trilhado este mesmo caminho e optado por outro, pelo teu, aquele que te trouxe até mim. Foi coragem ou cobardia?

Não precisas de me responder para já, eu não te quero ver tão cedo.

Teu,

GJ

Caril de frango

Ainda estou a meio, o frango está selado, parti-o em pedaços demasiado grandes mas lá cozinhou, está muito bem limpo e temperado, só lhe falta ficar banhado no molho que deixa toda a gente cá de casa quase de cama a fazer a digestão… É verão e a família reuniu-se, eu decidi fazer o jantar. Nunca ninguém sabe o que quer para a refeição, como é costume, o meu pai quer alguma coisa saborosa para quebrar a dieta sensaborona e eu prometi fazer-lhe um caril caprichado. Deste ele não se vai queixar, já lhe sei os truques todos.

Na rua estão os irmãos da casa lá de baixo. Continuam ranhosos e raquíticos, lutam pelo mesmo sítio para brincar, pelo carrinho de bebé no qual ela passeia o boneco horroso a fingir que é mãe, carinho que ele quer usar para fingir que é o pai a andar de mota. Apesar de não gostar deles nem de onde eles vêm, a imaginação de ambos mostra-me o que realmente são: crianças com muito para dar, com um resto da inocência que a miséria lhes tirou. O pai chega e correm para ele, o miúdo salta para cima da mota e fica lá sozinho. Já nem pia, acho que perdeu a esperança de que algum dia o pai volte atrás. Ela conta-lhe o dia todo a trotear aos pés dele. Ouço a porta bater e passos nas escadas de novo para o pátio de cima. De volta ao cimento, levanta o boneco do chão, penteia-lhe o cabelo de plástico e atira-o para o carrinho, provavelmente partindo-lhe o pescoço. O fruto não cai longe da árvore… Ele deixou-se estar sentado na mota, arregaçou as mangas, fitando o horizonte. Agora tenta chegar aos pedais enquanto imita o som do motor a arrancar. Ffinalmente o motor a pega e ele grita “ADEEEEUS NÃO VOLTO PARA JANTAAR” e uma berraria pegada de idiotices… a irmã ignora-o sem esforço.

Que miúdo bravio, digo eu, lembrando-me de mim mesmo, às turras com o meu melhor amigo quando tinha a idade deste chavalo a fingir que foge de casa na mota do pai. Morava mesmo ao meu lado, os nossos pais eram amigos de longa data, ele era um ano mais velho que eu, o meu pai adorava-o. Era mais aventureiro, era o rapazola que seguia o pai para qualquer lado e qualquer desafio, o verdadeiro rapaz das ideias estúpidas que lidera os rapazes estúpidos. Eu era mesmo amigo dele mas não gostava lá muito de brincar com ele, só de algumas maneiras e tinha de ser como eu queria. Por norma brincávamos a algo relacionado com super heróis, descobertas de ossadas de dinossauros, Sherlock Holmes, Indiana Jones e lutas, revezando-nos sempre entre personagem principal, ajudante e inimigo perigoso que leva sempre a maior porrada. Lembro-me de um dia estarmos a fingir que éramos detectives e arqueólogos ao mesmo tempo e de termos descoberto uma pegada animal que era também a prova de um crime, mesmo debaixo de um arbusto, em frente à oficina do meu pai. Ele olhava-nos com algum desdém e aborrecimento, mas deixava-nos em paz e eu não lhe ligava nenhuma, espreitando de vez em quando se ele vinha ter comigo. O Bernardo foi buscá-lo correr e mostrou-lhe a pegada e explicou-lhe a história toda. Pareceu-me que o ouvia com entusiasmo, mas talvez estivesse só a fingir e a pensar que tinha de voltar para dentro, e não o interrompeu. Aquele gesto, pensei, se fosse comigo tinha levado um berro para ir chatear o Camões. O meu pai voltou para a oficina e o Bernardo comeu terra.

Deixou alguma comida no prato. Disse que estava bom embora tivesse falta de sal, a olhar para a televisão. O arroz ficou empapado.

 

GJ

Deaf Splash of Growth

 

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I’m feeling full today, I can’t stomach any food, so I’m making a soothing warm soup, plenty pumpkin, squash, turnips, carrots, beets, a little ginger and a handful of fresh minced mint. The sizzling hot day turned the roads and sidewalks into radiators, the air is thick and hot at eight pm. As I sip on an icy cup of ginger tea the soup is cooking and the water is reaching boiling point, foaming, lifting the lid, while in the sink water is dripping, from the tap that needs fixing and its constant dripping sets my teeth on edge. It took only one drop splashing on the already large pool formed by the leakage, splashing into a few more droplets, to send me back to the time when I believed whatever would happen then would shape my whole life. Whatever happened before and after I realised the truth didn’t shape the rest of my life, whatever happened on those blissful days spent in hidding, in young love didn’t define me –  that’s the story.

It was, after all, young love, utter and unnerving short sighted bliss, that encouraged me to spend my days in longing, waiting for my lover to come back, parting ways at the train station and staying close for when the time came up being faithfully there to walk back home together. That last day I wondered ‘round the valley and up the ridges in Sintra, I still know the trails by hand, all of them. I had the camera with me, as well as bag with books, water and fruit. As the day progressed, the cartridge filled up with photos, the bag filled up with flowers I had been collecting and the books remained untouched.

At dawn, I sat nearby the train station, at an oddly crowded location. I could see the house in the valley from the belvedere, I dreamt about the future living there, grazing the wild flower bouquet resting on my lap. Famished and thirsty, could barely hold myself, there was still no sign, no familiar grin surfaced from the hasty croud getting out of the train. The night rose quickly and damp, with a thin coat of fog which soaked up the tragedy in alluring gusts of heavy, bleak, perfumed wind.

I was left alone and I knew already then wallowing in loneliness was not on my plans so I left alone and dropped the flowers in a sort of shy gesture.

Today I’m a little faint from both the heat brought by summer and all my loving and affection, having a little bit of a weak stomach from loving deeply and having nothing even remotely as heavenly to treat myself with, spending my days writing endless love letters with everything I do, fueled by it, sipping on unimaginable quiet.

By the fountain, at the ridge, I took a while to absorb the nature around me, just sit down and listen. The water flowed dully and silent from the canals to the fountain. Only the sound of the drops from the water dully and almost criteriously splashing on the rocks dripping on the wavering water could be heard. I spent the night.

 

GJ

Colher

Dei ao mar, caído da minha jangada desenlaçada pela minha própria mente turbulenta.

É certo, antes de arar queria colher como antes de perguntar queria já saber. Quis sempre vencer a corrida contra mim mesmo e adivinhar-me antes de o tempo ter corrido. Colher-me-ia o tempo ainda desmentido, que não existia, e voltaria para me questionar ininterruptamente e estar todas as vezes errado, todas as vezes todas as manhãs, todas as perguntas respondidas, todas as certezas desfeitas. Esta eternidade teve um fim contigo. Quando me mostraste a cor da minha pele e a vi clara como água aceitei a vibração do laranja que me ardia na vista turva da água salgada, quando mergulhado estive, quebrados a cada nó da maré os meus ossos, sargaço do mar, quando me colheste e respondeste à pergunta que se afogou comigo, trouxeste a manhã irrepetível.

Juntos desmentimos o tempo, repetimos manhãs em que buscamos tudo do conhecimento e ficamos em flor e ora em fruto, nos ramos rebentamos em flores, e então em frutos.

GJ

Porque me sinto zangado pt II

A pergunta persiste.

Pergunto-me a mim mesmo, perguntam-me outros ao través dos anos, e eu resisto e engulo a resposta, porque a idade era tenra e o tempo da liberdade ainda não era. A resposta, a explicação da minha zanga esquizofrénica, que ora é, ora se esquece de ser, é o trauma da esperança e do sonho, o desejo de concretizar ideais, a promessa que fiz a mim mesmo de tudo da minha mente construir e criar. Mas que os meus pares me passem ao lado e sejam jamais, e se esqueçam de novo de perguntar, porque os ignoro hoje se ontem os quis revisitar. Mete-me nojo visitar-vos, ver-vos de um passado que não floresceu, quando a minha dolorosa e inevitável missão ao través dos anos é ser eu.

Pergunta-me hoje porque estou tão zangado assim, deixa-me ter espaço e tempo para responder e entre tudo o que os meus pés e punhos podem partir e em pedaços explicativos ajudar a minha a desenrolar, dir-te-ei com a mágoa de deuses fora do devido altar que à flor da pele a natureza me fere de urgência de ser livre – E EU AINDA NÃO SOU LIVRE – que todo eu sou cansaço, que da mediocridade sinto o peso do tempo, o peso do tempo atrasado, irreparável inércia que me rói os dentes, obstrui e constrange as válvulas, a culpa da fraqueza piora a dor de cabeça, e a raiva animal, viral, lança-me ao ataque, à sabotagem de tudo o que representa futuro, e de tudo isto resta-me zanga, mágoa e raiva. Fazer para quê? O quê? Em troco de quê? Por quem e porquê? Com que garantia do bem estar da minha sanidade? Com que posses? Por que cedência? Resta-me sair ao mundo todos os dias a realizar a minha missão e ser rodeado de apoiantes, que levam o que gostam de ver, e regresso eu sozinho, ainda a ser o que sou e mais não me consigo suportar, a minha mágoa, a minha zanga, a minha raiva. Zangado, silvos de medo, encolhido a um canto, solto estes avisos para que tenhas precaução: não sou o que tenho de ser e sou um acumular daquilo que nunca quis ser. De mim não vejo mais maravilhas, de mim não espero mais sonho, de mim apenas tenho fuga, reclusão, solidão, inércia, caluda e falta de sono.

Correram os anos e mantive o meu olhar certeiro na estrada contínua. Omito aqui os tropeções, os achados e outras recordações, a estrada é longa e longa deveria continuar a ser até chegar onde quisesse, porém a estrada acabou precocemente e a meio a minha música ficou. Como poderia eu continuar a alimentar o boato da minha loucura? Observa, vê que a minha revolta não pode ser menor nem silenciosa, como retomo a minha gritaria! O som abandonou-me e eu faço melodias e ritmos contra uma parede que não consigo escalar, para incomodar quem me ouve, até fazer o cimento estalar. Perdidas estão as cornetas que abalaram as muralhas de Jericó e perdida está a doença do coração deste homem que antes, consumido pela esperança, pensou poder existir, porém agora, livre do veneno, se indigna com o a priori que lhe diz que só pode ser… É o meu único luxo .

GJ

– editado, 14/08/2016

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Entro nas memórias vívidas que se desenterram sozinhas, dum passado cálido e distante como um sonho, da infância como lugar único que vivi em despudor e despreocupação, e memórias que me são inacessíveis, encobertas por finais alternativos recriados pela perturbação que causam ao íntegro presente. Há um lado fabuloso nos dias que vivo, que sorriem, quando distraído em pensamentos e regressões, que afogam o olhar, quando ressaltam os pensamentos proibidos, em que vejo, balbucio e escuto o mal, assaltado por repressões, transgressões e limites, fios de navalha, memórias vivas fora do corpo, corpo vazio e bobo, corpo rubro e alma morta.

Anseio dirigir-me palavras de amigo, destapando os anos que me esqueci de ter vivido, inundar a lacuna, a vala dos defuntos actos legítimos e irascíveis, para me devolver a clareza da visão, para me trazer a união do todo que tenho vindo a planear e a arrumar em inventários selectos da minha mente pouco afectada, definhada, a fronte da minha paixão ardente que foi incendiada por derrames contínuos do combustível que há muito da fonte havia parado de jorrar. Anseio poder ser o todo que me coloca no invejado lugar daquele que se conhece e se aceita. Anseio não temer… e, no entanto, quando me sinto bravo, é a ânsia me faz tremer.

Há muito que me ecoa a visão clarividente que me garante que morrerei em breve. Só sei que poderei morrer quando me torno uma perda. Como poderia ser uma perda sem ser de alguém pertença? E se alguém me tem, a alguém me terei dado. Quem me pudesse perder, sofreria algo como uma perda. Não temo a morte, pelo que tal pânico é extra irracional, dentro da racionalidade que estimo e tão bem cuido para compreender os caprichos dos meus medos, fixados em solos arenosos. Temo e inundam-me os olhos de melancolia a perda de quem sou aos olhos de quem me tem, que me poderá perder para a rigidez rigorosa, sem ter sido lido, sem me ter aberto, sem ter lido aos donos do meu afoito coração de criança desconfiada crescida os mandamentos do real inquieto desnutrido, desiludido, alienado, adormecido. A fábula é a mais extensa, infindável peça que ainda não tive o atrevimento de deixar a meio. E que mentiroso eu sou.

E que mentiroso eu sou.

A mentira que me atrevo a reconhecer é a nova farsa que crio para esconder a verdade do que julgo entorpecer pela reprovação. A mentira é a verdade e a verdade a ternura, a compaixão da mentira… e há uma lava que se verte pela lava extinta, o vulcão que me cava de novo o peito pela alegria que tenho em me ver desfeito das minhas teias de controlador do universo. A minha liberdade só chega quando sou detido. Preciso da prisão para ser livre. Preciso de não ser, para ser livre. Continuarei livre de amarras para me prender a uma única expressão: a do caos unificador que me faz anémico e tranquilo para os donos do afoito coração de criança desconfiada desiludida, ardida.

E que amoroso sou eu. Quem em amores desmesurados me quero derreter eu. Derreter em lava e perdição, derreto-me, eu.

Apaga-me e desunha-me, deixa as crostas para nunca mais ver a ferida.

GJ

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