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DesRazão (UnReason) published poem collection from youth

I’ve written about this before but today I share my version of the book, what I had in mind for it but am now able to produce myself. The design, content and production are mine and I can say I’m more statisfied with this result than the previous. I’m still to print it and make a hardcover copy, although bookbinding takes a lot of skill, time and money, so I might do it during summer vacation.

 

Here it is

(click on the miniatures to see the full size image)

 

 

GJ

FAUSTO, Goethe -melhores momentos

“Que vida! angústias sempre: ora a almejar por gozo,
ora inquieto na posse, e do almejar saudoso!

(…)

Mudar de pele não muda interior. Com quaisquer trapos
há-de ir comigo o meu viver terrestre.
Já sou velho de mais para brinquedos,
e para descartar-me de cobiças
inda muito rapaz. Que há nesse mundo
que me possa atrair? Priva-te! Abstém-te!
Eis o eterno refrão com que nos quebram
o bichinho do ouvido a toda a hora.
De manhã, quando acordo, é sempre aflito
e ansioso de chorar, pela certeza
de que o dia que enceto é, como os outros,
incapaz de cumprir-me um só desejo,
nem um só. Pois se eu sei que a expectativa
do mínimo prazer já chega eivada
de sua improbação, e cada almejo
do meu férvido sangue há-de ir gelar-se
ante as carrancas do viver prosaico!
À noite é-me forçoso entrar num leito
onde já sei me aguarda o labirinto
da turbulenta insónia, e, se olhos cerro,
medonho pesadelo! O Deus que me enche
rege-me a seu talante, influi, domina
té o âmago mais fundo o meu composto.
E tamanha potência nada pode
fora de mim nos mínimos objectos!
Dura carga é viver! quem dera a morte!
(…)
— Feliz o herói que, na embriaguez da glória,
no instante mesmo em que lhe pega os loiros
com sangue hostil nas fontes a vitória,
cai fulminado ao silvo dos peloiros!
— Feliz o amante que depois do enleio
de louca dança, e no auge do delírio,
súbito expira no adorado seio,
e antes da morte vislumbrou o Empíreo!
— E feliz eu, se quando, face a face,
logrei tratar com génio alto e possante,
nesse extra-vida glorioso instante
morte improvisa os dias meus soprasse!

(…)

Entendamo-nos bem. Não ponho eu mira
na posse do que o mundo alcunha gozos.
O que preciso e quero é atordoar-me.
Quero a embriaguez de incomportáveis dores,
a volúpia do ódio, o arroubamento
das sumas aflições. Estou curado
das sedes do saber; de ora em diante
às dores todas escancaro nesta alma.
As sensações da espécie humana em peso,
quero-as eu dentro de mim; seus bens, seus males
mais atrozes, mais íntimos, se entranhem
aqui onde à vontade a mente minha
os abrace, os tateie; assim me torno
eu próprio a humanidade; e se ela ao cabo
perdida for, me perderei com ela.

(…)

Sê mulher! impõe-te dominá-lo!
Consente que este olhar que em ti se está cravando,
consente que estas mãos às tuas abraçando,
te expressem mudamente o que de mim tens feito,
o que nem cabe em voz, nem cabe já no peito;
permite-me engolfar-me em bem-aventurança,
num afecto sem fim, sem quebra nem mudança,

eterno… sim, que a ser menor que a eternidade,
seria o desespero, o nada. Este não há-de,
não pode já ter fim; jamais, jamais.

(…)

MEFISTÓFELES

Tomara ser passarinho.
para ir ter onde eu desejo;
depressa formara as asas,
que as penas são de sobejo.

Nisto de sol a sol consome os dias;
nisto de sol a sol desvela as noites.
Se alguma rara vez lhe assoma às faces
vislumbre de alegria, as mais das vezes
de mortal pesadumbre as tem nubladas;
ora mostra no rosto mal enxuto
sinais de ter chorado, ora parece
a poder de cansada estar serena…
mas sempre namorada.

FAUSTO

Ah, cobra, cobra!

 

(…)

MARGARIDA, só, fiando na roca, e cantando

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Inda não quitei a vida,
e já ’stou na sepultura.
Quem nasceu tão sem ventura,
melhor não fora nascida.

Trago esvaído o juízo,
o coração como louco.
Sempre durastes bem pouco,
horas do meu paraíso.

[312]

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Canso a buscar-te por fora;
canso à janela a esperar-te,
sem ver em nenhuma parte,
nem saber quem te demora.

Que nobre andar! que figura!
que olhar! que riso! e que boca,
donde eu sentia já louca
jorrar caudais de doçura

E aquela mão, que inda vejo
a apertar convulsa a minha
o fogo que ela não tinha!
E o beijo! oh meu Deus, o beijo!

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!
[313]

Onde estás, que me esvoaço
por colher-te? onde…? não sei.
Se outra vez a ti me abraço,
das angústias que hoje passo
como então me vingarei!

(Levantando-se, e declamando com veemência.)

Prendo-te ao seio,
já sem receio
de te perder.
Farto os desejos
de toda em beijos
me desfazer.

(…)

PROCTOFANTASMISTA

Na própria cara
vo-lo repito, Espíritos! Não sofro
a Espíritos ser déspotas; e a causa
é que déspota ser não posso eu mesmo.

(Continuam a dançar)

Tudo hoje me sai torto. Paciência!
Aldemenos, fiz mais esta Viagem.
E antes que faça a última, inda espero
vencer alfim diabos e poetas.

 

(…)

MARGARIDA (cantando em delírio)

Nasci de uma perdida.
Gerou-me um salteador.
A mãe roubou-me a vida.
O pai tragou-me em flor.
Saltou-me a irmã vizinha
do fresco seu coval;
mudou-me em avezinha
no agreste matagal;
fugi da terra feia;
vim ser feliz no ar;
aqui só me recreia
voar, voar, voar.

Projecto paginação, ilustração e encadernação de livro infantil

Um dos projectos da minha recente formação em Design Editorial foi paginar, ilustrar e encadernar um livro infantil, sendo a encadernação elemento opcional de projecto mas que abracei com entusiasmo. Aprendi muito neste projecto, com a orientação da excelente ilustradora e professora Mariana Viana, tendo apresentado o resultado final à muitíssimo querida artista Danuta Wojciechowska, grande ilustradora para crianças.

A história que trabalhei é da autoria de Margarida Castel-Branco, os títulos das outras duas capas fazem parte da mesma colecção.

 

GJ

 

DesRazão: o livro, o contexto, a explicação, o casamento deste blog em livro.

promo

 

… percebe-se hoje nitidamente que a loucura nunca poderá enunciar a verdade da arte, assim como nunca a arte terá como enunciar a verdade da loucura (…) Esse desatino vê-se ligado a todo um reajustamento ético onde o que está em jogo é o sentido da sexualidade, a divisão do amor, a profanação e os limites do sagrado, da pertinência da verdade à moral (…) quis o destino, infelizmente, que as coisas fossem mais complicadas. E, de um modo geral, que a história da loucura não pudesse servir, em caso algum, como justificativa e ciência auxiliar na patologia das doenças mentais. A loucura, no devir de sua realidade histórica, torna possível, em dado momento, um conhecimento da alienação num estilo de positividade que a delimita como doença mental (…)

A internação clássica enreda, com a loucura, a libertinagem de pensamento e de fala, a obstinação na impiedade ou na heterodoxia, a blasfémia, a bruxaria, a alquimia – em suma, tudo o que caracteriza o mundo falado e interditado da desrazão.

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Olá, sê bem vindo.

Deixa-me falar-te sobre um livro que foi chamado DesRazão. Este livro foi publicado e publicamente apresentado este ano, há alguns meses, e, desde então, desde o momento em que nasceu, já passou por várias mãos. Os que estiveram presentes no dia da apresentação ao público puderam escutar e conhecer a origem do livro, de que se trata, qual o propósito, numa óptica muito pessoal como, aliás, se pretende que seja a leitura de poemas carregados de leitura nas entrelinhas desfasadas de pretensões. É um livro leve, com poemas seleccionados, um livro simples e de fácil manuseamento, vem ilustrado e prefaciado. É uma colecção de pensamentos e lições, a expressão de uma voz consciente da desrazão, que ganhou poder ao conquistar essa mesma consciência, quer apelar à desrazão de quem o ler, convidando o receptor a procurar ou a afirmar-se – em última análise, o questionamento e a repulsa também são reacções. Procuram-se reacções.

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DesRazão

Passados os tempos da publicação e da modéstia envergonhada da distribuição, da estranheza do feedback, enfim, do início, este livro começa novas viagens.

Em primeiro lugar achei devida uma apresentação formal neste blog e aos leitores virtuais. Um livro não vive sem leitores e o leitor precisa de contexto, precisa que lhe seja mostrado o próximo livro.

Em segundo lugar, este meu estimado blog faz anos este mês, e esta é a celebração ideal!

Em terceiro lugar, porque vejo que preciso de divulgar cada vez mais, disponho os livros num espaço físico para compra, vejamos, no fundo para dar aos exemplares uma casa e seguir com o plano de capturar reacções.

Esta é a visão do livro, é a melodia com que foram compostos os poemas, este é o meu propósito.

Deixo-vos com um preview do livro, no link abaixo!

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GJ

https://www.behance.net/gallery/30432535/Desrazao-Poemas-Poems-2015