Bacalhau Basta

A vida não vale nada
e a morte vale ainda menos
mas quando é a nossa vida
vale aquilo que fazemos
desde o dia em que se nasce
até à noite em que se morre
é com aquilo que se faz
que o caminho se percorre
e se a vida é para ser gasta
vamos gastá-la a preceito
para quem é bacalhau basta
para quem é bacalhau basta
mas que seja bacalhau bem feito.

Sérgio Godinho, Bacalhau Basta

Elogio dos repuxos – Ronald Carvalho

Hoje tenho em mim versos variados de Ronald Carvalho, em especial este “Elogio dos repuxos”, que lê assim:

Dor dos repuxos ao Sol-pôr agonizando

em plumas e marfins, em rosas de ouro e luz…

Canto da água que desce em poeira, leve e brando,

canto da água que sobe e onde o jardim transluz.

Dormem sinos na bruma — a cinza tem afagos…

Sombras de antigas naus, velas altas a arfar,

passam em turbilhões pelo fundo dos lagos,

(a aventura, a conquista, a ânsia eterna do mar!)

Repuxos a morrer sobre si mesmos, lentos —

curvos leques a abrir e a fechar num adejo,

— mão vencida que vem de vãos incitamentos,

mão nervosa que vai mais cheia de desejo…

Volúpia de fugir — ser longe e ser distância,

e tornar logo ao cais e de novo partir!

Volúpia — desejar e não possuir, ser ânsia…

Repuxos a descer, repuxos a subir…

Não fixar emoções, volúpia de esquecê-las,

Andar dentro de si perdido na memória…

(Caçadores ideais de mundos e de estrelas —

repuxos ao Sol-Pôr cheios de mágoa e glória…)

Dor dos repuxos ao crepúsculo cantando!

desespero, alegria — o lábio, a mão… e um beijo.

Dor dos repuxos, dor sangrando, dor sonhando —

Ir tocar a ilusão e morrer em desejo…

Les Deux Bonnes Soeurs

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by GJ

 

La Débauche et la Mort sont deux aimables filles,
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l’éternel labeur n’a jamais enfanté.

Au poète sinistre, ennemi des familles,
Favori de l’enfer, courtisan mal renté,
Tombeaux et lupanars montrent sous leurs charmilles
Un lit que le remords n’a jamais fréquenté.

Et la bière et l’alcôve en blasphèmes fécondes
Nous offrent tour à tour, comme deux bonnes soeurs,
De terribles plaisirs et d’affreuses douceurs.

Quand veux-tu m’enterrer, Débauche aux bras immondes?
Ô Mort, quand viendras-tu, sa rivale en attraits,
Sur ses myrtes infects enter tes noirs cyprès? 

Charles Baudelaire

FAUSTO, Goethe -melhores momentos

“Que vida! angústias sempre: ora a almejar por gozo,
ora inquieto na posse, e do almejar saudoso!

(…)

Mudar de pele não muda interior. Com quaisquer trapos
há-de ir comigo o meu viver terrestre.
Já sou velho de mais para brinquedos,
e para descartar-me de cobiças
inda muito rapaz. Que há nesse mundo
que me possa atrair? Priva-te! Abstém-te!
Eis o eterno refrão com que nos quebram
o bichinho do ouvido a toda a hora.
De manhã, quando acordo, é sempre aflito
e ansioso de chorar, pela certeza
de que o dia que enceto é, como os outros,
incapaz de cumprir-me um só desejo,
nem um só. Pois se eu sei que a expectativa
do mínimo prazer já chega eivada
de sua improbação, e cada almejo
do meu férvido sangue há-de ir gelar-se
ante as carrancas do viver prosaico!
À noite é-me forçoso entrar num leito
onde já sei me aguarda o labirinto
da turbulenta insónia, e, se olhos cerro,
medonho pesadelo! O Deus que me enche
rege-me a seu talante, influi, domina
té o âmago mais fundo o meu composto.
E tamanha potência nada pode
fora de mim nos mínimos objectos!
Dura carga é viver! quem dera a morte!
(…)
— Feliz o herói que, na embriaguez da glória,
no instante mesmo em que lhe pega os loiros
com sangue hostil nas fontes a vitória,
cai fulminado ao silvo dos peloiros!
— Feliz o amante que depois do enleio
de louca dança, e no auge do delírio,
súbito expira no adorado seio,
e antes da morte vislumbrou o Empíreo!
— E feliz eu, se quando, face a face,
logrei tratar com génio alto e possante,
nesse extra-vida glorioso instante
morte improvisa os dias meus soprasse!

(…)

Entendamo-nos bem. Não ponho eu mira
na posse do que o mundo alcunha gozos.
O que preciso e quero é atordoar-me.
Quero a embriaguez de incomportáveis dores,
a volúpia do ódio, o arroubamento
das sumas aflições. Estou curado
das sedes do saber; de ora em diante
às dores todas escancaro nesta alma.
As sensações da espécie humana em peso,
quero-as eu dentro de mim; seus bens, seus males
mais atrozes, mais íntimos, se entranhem
aqui onde à vontade a mente minha
os abrace, os tateie; assim me torno
eu próprio a humanidade; e se ela ao cabo
perdida for, me perderei com ela.

(…)

Sê mulher! impõe-te dominá-lo!
Consente que este olhar que em ti se está cravando,
consente que estas mãos às tuas abraçando,
te expressem mudamente o que de mim tens feito,
o que nem cabe em voz, nem cabe já no peito;
permite-me engolfar-me em bem-aventurança,
num afecto sem fim, sem quebra nem mudança,

eterno… sim, que a ser menor que a eternidade,
seria o desespero, o nada. Este não há-de,
não pode já ter fim; jamais, jamais.

(…)

MEFISTÓFELES

Tomara ser passarinho.
para ir ter onde eu desejo;
depressa formara as asas,
que as penas são de sobejo.

Nisto de sol a sol consome os dias;
nisto de sol a sol desvela as noites.
Se alguma rara vez lhe assoma às faces
vislumbre de alegria, as mais das vezes
de mortal pesadumbre as tem nubladas;
ora mostra no rosto mal enxuto
sinais de ter chorado, ora parece
a poder de cansada estar serena…
mas sempre namorada.

FAUSTO

Ah, cobra, cobra!

 

(…)

MARGARIDA, só, fiando na roca, e cantando

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Inda não quitei a vida,
e já ’stou na sepultura.
Quem nasceu tão sem ventura,
melhor não fora nascida.

Trago esvaído o juízo,
o coração como louco.
Sempre durastes bem pouco,
horas do meu paraíso.

[312]

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Canso a buscar-te por fora;
canso à janela a esperar-te,
sem ver em nenhuma parte,
nem saber quem te demora.

Que nobre andar! que figura!
que olhar! que riso! e que boca,
donde eu sentia já louca
jorrar caudais de doçura

E aquela mão, que inda vejo
a apertar convulsa a minha
o fogo que ela não tinha!
E o beijo! oh meu Deus, o beijo!

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!
[313]

Onde estás, que me esvoaço
por colher-te? onde…? não sei.
Se outra vez a ti me abraço,
das angústias que hoje passo
como então me vingarei!

(Levantando-se, e declamando com veemência.)

Prendo-te ao seio,
já sem receio
de te perder.
Farto os desejos
de toda em beijos
me desfazer.

(…)

PROCTOFANTASMISTA

Na própria cara
vo-lo repito, Espíritos! Não sofro
a Espíritos ser déspotas; e a causa
é que déspota ser não posso eu mesmo.

(Continuam a dançar)

Tudo hoje me sai torto. Paciência!
Aldemenos, fiz mais esta Viagem.
E antes que faça a última, inda espero
vencer alfim diabos e poetas.

 

(…)

MARGARIDA (cantando em delírio)

Nasci de uma perdida.
Gerou-me um salteador.
A mãe roubou-me a vida.
O pai tragou-me em flor.
Saltou-me a irmã vizinha
do fresco seu coval;
mudou-me em avezinha
no agreste matagal;
fugi da terra feia;
vim ser feliz no ar;
aqui só me recreia
voar, voar, voar.

Autoretratos / Self portraits

Depois de um longa semana cheia de novidades e muito que fazer no mundo lá fora, todas as horas livres foram passadas da melhor forma, possibilitando-me maior foco. Meti-me a desenhar umas ideias que andavam aqui a pairar há bastante tempo e a relembrar-me que não lhe estava a dar atenção e que estava a ser preguiçoso.

After a long and eventful week with a lot of work all my free time was spent in the best way possible, allowing me to be focused. I began drawing some ideas I had floating over my head for a long time which kept reminding me I wasn’t tending to them and that I was being lazy.

Como sou o meu único modelo, usei-me para praticar desenho de corpo e estudar sombras e texturas, daí que tenham surgido alguns autoretratos, como estes.

As I am my own model I draw myself to study body drawing and shadows and textures, hence the making of these self portraits.

 

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GJ

O vinho

Le Vin des amants

Aujourd’hui l’espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!

Comme deux anges que torture
Une implacable calenture
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!

Mollement balancés sur l’aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,

Ma soeur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves!

Charles Baudelaire

 

Mal acabei a minha última aula, de a ensinar isto é, pus-me a caminho, a pé pelo Saldanha para a Estefânia, descendo para o Campo Mártires da Pátria. Cheguei meia hora mais cedo, senão pelo vinho, que ali servem bem. Em Março, ao frio, um copo de vinho tinto e o último cigarro daquele maço desfizeram a primeira meia hora e As Flores do Mal desfizeram a segunda.

Já chega!, dizia eu a molhar os lábios no segundo copo, nunca mais me apontam o dedo por chegar atrasado seja àquilo que for, eu que aqui estou há uma hora à espera.

Fecho os olhos a beber, fecho os olhos a passar fumo, entre vistas abre-se a porta com um sopro duro de frio que logo se enevoou ao encontrar os bêbedos da casa. Chegou e pediu desculpas, sem dar grande importância, enrolando-se numa história que não me incomodou ignorar, enrolando-se numa história que não me incomodou ignorar. Não somos amantes, não obstante uma e outra tentativas passadas. O vinho clama pelo meu amante longínquo, que me guardava em segredo. Chamei pelo vinho que me lavava a língua o seu nome, seis vezes exactas, parando aquando à hora do fecho pela noite a correr não veio. Gradualmente, o pó estático que sustentava a sua ilusória presença a meu lado assentava no chão e as luzes apagavam-se.

Ao terceiro copo, depois ter articuladamente respondido a todas as perguntas de que se conseguiu lembrar de me fazer, virei o jogo com apenas e tu? Garanto que ouvi até ter a certeza de que um bem ou um vai-se andando fora dito, introduzindo a sequência de insólitas desgraças do costume, ensopando a língua de vinho, que em tons raros de canela me abriam o apetite.

O quarto copo cheirava a Douro. Nas palavras que agora a recordavam o passado em que mergulhei na noite revolta e chuvosa sem me afogar. Sorvi daquele vinho as notas para cantar quatro Stornelli Romanesche aprendidas em tascas, em barcos e bacanais e ainda mais uma, trazida na gota escorrida pelo pé do quinto copo. Più seeeeeemo e mejò staaaamo, tremeu-me na voz límpida pelo aperto na garganta que a assobiava. Do balcão, os velhos bêbedos saíram sem pagar; dos assentos, o casal que menosprezava a intimidade do silêncio ofendeu-se com o regalo barítono que lhes interrompeu a conversa fatigante, o regalo generoso trazido pelo vinho amoroso que tão doce me deixou. Dançávamos em cima da mesa. Juntos dançámos aquela ágil troca de pés que amolgou a mesa de pinho. Caí. Perdi. Carregou-me.

Quanta amargura amaciada pelo mosto sadio! Olhava pela janela ociosa do pendura a Lisboa que já não fazia sentido, chupando dos dentes o último gole de vinho que chamasse o seu nome.

 

GJ

let me out of my mind

Let me trip, let the colours bring back the thrill, let me fly, let me dive, let me be super human, vanish from here to there, start all delayed human things from scratch to finish, let me float bare above your heads and rain down on you, let me wear a different skin, let me be purple, white polka dots, neon like or pitch-black, let me touch the sun and melt it for good, let my eyes shine, let my body glow, let me out of my mind to remind myself nothing existing matters.

GJ

I needed to vent, write a condensed paragraph with all the information, instead of a long structured, skillful text…

De a) a B) pela zebra

A forma como encaro o decorrer dos desafios e desaires de todos os meus dias pode-se equiparar ao simples acto de atravessar a estrada.

O hábito propõe uma preparação de largos anos, em que antes de me dirigir algures e me cruzar com as gentes e as coisas que desconheço e com as quais coexisto, todos os gestos, todos os actos, me avivam a memória de como chegar de a) a b), cada passa ecoa no corredor para a rua num rufar arrastado avenida fora, que me permite avançar.

Se o caminho está desimpedido, avanço.

Se o meu ritmo se combina com os que comigo se cruzam, avanço, jamais parando.

Se não há travessia, avanço, a meu próprio risco.

Se vindos de várias frontes, os perigos, seguidos, apressados, sigo sem que me vejam, sem interferir, para prosseguir, porque apenas posso avançar.

GJ

24 hour 180º

Deep into the last half hour of Star Wars: Episode III – Revenge of the Sith I was fighting a mighty battle with an insidious melancholic train of thought, eschewing it to the back of the back of my mind, as I pushed harder to focus on the movie. None of us spoke during, we just held hands, lightly caressing each other’s sweaty palms, until you closed your hand tightly, allerting me there was a great scene coming up, but I confess I had lost the battle and hopped on the train.

It started during the previous movie. Anakin stood in front of the Jedi Council and Yoda saw through him that he was filled with fear, which later on made him vulnerable to the Dark Side of the Force. With that Yoda explains further on Fear leads to anger. Anger leads to hate. Hate leads to suffering, and advised Train yourself to let go of everything you fear to lose. Damn that Yoda! I was enjoying finally having a moment only for ourselves, watching and learning about your favourite sequel, I was glued to the screen with enthusiasm, until that peevish booger threw me off the space odyssey wagon onto an utterly uncomfortable box of sharp question marks. It was right there, directly from the speakers to my ears, what I had been avoiding meditating on, thinking about, why I was jumpy to the tought of being away from you. The truth is, we have been away for a while now. For as much as we want to sugar coat it, the last three months were, in reality, 6 days, the sixth being the last one, when I said goodbye at the bus stop and watched it take you home. There’s a gap fundamentally unspoken here, you get to go home and I get to mend myself for a couple days until I can focus on something else, misplaced in a house with a profound lack of familiar warmth.

After Master Yoda’s quaint observation I delved into it concerning our situation, whilst trying to, at least, understand what was happening in the movie. So, Anakin burned, Amidala gave birth, Lord Vader was created, I had been afraid of moving far away from you and was worried about the costs of my absence,  about the distance, the constant longing, the wistful thinking, the fear of losing you to the distance. You see, miracles in my life happened by you. I don’t matter.

I joined you for lunch, which was left unattended ‘till late that day, before the movie marathon, followed by the short in time yet rich in intensity night which rendered a mellow morning with it’s contractual hour of bleak bliss, denial and love making. We watched The Force Awakens and we didn’t spoil the leading moments to your departure speaking about the distance. Later that night I watched Fellini’s Satyricon, chewing my tongue in distress for not having heard word from you since…

I pray I can learn to let go, but not so much you won’t know how much you’re cared after, for your staying found with me is your personal freedom and my mission.

 

GJ

Dois cafés, um em chávena escaldada

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Se estivéssemos agora a tomar café pedias-me para ir tirar e encher dois copos com água do balcão, para pagares os cafés sem que eu resmungasse. Ficaríamos dentro do café e não na esplanada, na mesa do canto, de frente um para o outro. Terias voltado e estaríamos a falar sobre aquele filme de ficção-científica com aliens e uma Linguista, do outro filme que não é bem Star Wars mas sim uma história paralela, sobre o castelo medieval que estão a construir em França e que vai levar mais 25 anos até estar totalmente erguido, sobre a vergonha que foi a organização dos Jogos Olímpicos e depois, por falar em Brasil, sobre os confrontos entre professores e estudantes com a polícia no Rio de Janeiro, só depois disso contaríamos as novidade boas e más, um diálogo que temos aperfeiçoado, intercalado por olhares cruzados, um sorriso encavacado e um amo-te. Porias a tua mão sobre a minha e falaríamos abertamente de como nos sentíssemos, até o tempo parar nos teus olhos doirados e a bolha estar restaurada. Dali partiríamos para um qualquer passeio, amando-nos pelo caminho, parando para almoçar, descobrindo mais um do outro, um sobre o outro, sem a hora da partida.

Não passaria pelo embaraço de te dizer acerca da minha solidão, não estaria disperso por demais tarefas que me mantivessem no sossego apartado do calor, apressado correr a lista da minha rotineira manhã para começarmos a nossa, enfim, seria a minha prioridade – se hoje te tivesse recebido. Especialmente hoje, que abalou o aperto e se acomodou a pachorrenta alma de lavrador, pois que se por um lado te espero fazendo dos dias poucos segundos, cultivo essa solidão para dela recolher sustento.

É esta a sólida distinção entre solidão e estar apenas só, em que o espírito arde num firme fio para o absoluto no resoluto lavor, e não soprado pela falta. Solidão é meu repouso e meu lar.

Assim seria, ficção ou não, se tivéssemos tomado café hoje.

GJ

Edgar Allan Poe “The Poetic Principle”

Adquiri recentemente os contos completos de Poe, muitos dos quais já tinha lido em inglês, pelo que considero a tradução boa, bem como a obra poética completa, traduzida por Margarida Vale de Gato, que é excelente e faz um livro esteticamente agradável, ilustrado por Filipe Abranches. No entanto, enquanto leitor de Poe, fascinou-me a “Poética” (assim traduzido na versão que possuo), uma longa narrativa acerca do pensamento, estratégia, construção, estética e propósito da poesia.

Penso que foi aqui que Poe se adiantou ainda além do seu tempo, opondo-se ao Romantismo na literatura, defendendo ideais que viriam a interromper a visão Romântica, não podendo mais ser o inconsciente poético voltar ao que era: o princípio poético passaria a ser metódico, sagaz, quase matemático, sensorial e imediato. Bem argumentada, não obstante com várias falhas e falácias no desenvolvimento, mas que  mostra a enormíssima sensibilidade poética de Poe, tornar-se-ia, então, numa muito influente dissertação no literário americano e do mundo ocidental. Alguns consideram-no perigoso pela forma como, de repente, a forma e escola seguiram outro caminho, pela forma como influenciou e desencorajou muitas obras escritas.

Qualquer aficionado de Poe desejaria ler esta composição para ir mais longe na análise integral da obra deste autor. Podem adquiri-lo facilmente, embora a melhor edição a que deitei o olho me tenha sido oferecida e é da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

GJ

Dois cafés e dois copos d’água

Se estivéssemos a tomar café agora eu resmungaria acerca da desnecessária controvérsia do copo d’água ou do copo com água iniciada pela mulher do café mais cheia de chavões do que discernimento. Enjorcarias a tua expressão de carneiro mal morto ao mesmo tempo que revirarias os olhos, a concordar comigo, ainda à procura da cigarreira e do isqueiro. Eu passar-te-ia o cinzeiro e guardaria o livro que teria estado a ler meia hora antes de chegares atrasada, porque o café estaria marcado para as quatro e, farto de esperar, decidi entreter-me. Perguntar-me-ias se não fumava, pelo que teria finalmente oportunidade de partilhar contigo que esse foi outro vício que larguei, faz hoje exactamente três meses.

Tenho a certeza que me apoiarias nessa decisão a dizer que também deverias deixar de fumar, distorcendo a questão para concluíres que no fundo não vale a pena, que sempre soubeste que te seria prejudicial e que não era agora que te ias armar em hipócrita, além de que o café te sabe mesmo bem é com o L&M vermelho do costume. Rir-me-ia com um toque de escárnio da tua observação sobre costumes. Costumes esses que, tal como os vícios, te envolvem numa temporária e exaustiva segurança. Já estarias a olhar para o lado a bafejar, a fazer perguntas desinteressantes a lamentares e facto de já nem teres pachorra para escrever, nem teres assunto para escrever, no fundo, a preparar o terreno para te sentires à vontade para falar sobre ti, sobre o verdadeiro motivo de estarmos a tomar café. Aquilo que não te saberia dizer, por não saber como sem nos deixar em absoluto constrangimento, é que tu precisas de deixar a conversa da coitadinha de lado, que já sei que encornaste o pobre moço porque já não se amam há bastante tempo e que tens vivido uma mentira por teres medo de estar sozinha, mas o outro deu-te tusa e começaste a repensar a tua vida – e quando tomaste uma decisão, não só não te correu bem como ainda pior do que poderias ter esperado. Eu sei disso tudo e não te julguei nem uma única vez, nem quando me perguntaste o que achava se te envolvesses com outra pessoa, estando ainda a reatar uma relação abalada, em que te insultaste a ti própria por considerares tal hipótese. Não te julguei quando, depois de cederes às tuas necessidades, desapareceste, muito menos quando soube que me evitavas por vergonha do que poderia achar de ti. Outro dos vícios que tinha largado aquando a nossa última conversa foi opinar sobre sentimentos que não são os meus.

Começarias por quebrar o silêncio, depois de esmagares a beata contra o fundo do cinzeiro, quente nas pontas dos dedos, queixando-te da falta de tempo para tudo e que não tens feito mais nada senão trabalhar. Eu compreenderia. Dar-me-ias mais não sei quantas razões, eu compreenderia. Nunca me falarias sobre o que te aconteceu, mas far-me-ias entender que estarias a sofrer. Eu mudaria de assunto para as minhas novidades, e daqui para a frente esse assunto não surgiria de novo em conversa, não por ti, mas sim porque não me incomodo em viver no passado.

Já depois de te fazer rir, a mostrar os pequenos dentes presos numa muito roxa gengiva, veríamos as horas e seria já tarde para ti, estaria na hora de ir embora. Despedir-nos-íamos com um beijo na bochecha e um vago até breve, para continuarmos a seguir os nossos caminhos distintos. Assim teria sido, se tivéssemos tomado café.

 

GJ

 

Um soneto para a viagem

Há-de ledo cair em breve o céu vindo a nós enfim.

Sem dor que me moleste declinarei o fim

Pelo raro privilégio de estar só e assim

Sal das gentes e do ego, limpo e longe do motim.

 

Chegará o céu a tempo, pois, de os levar a todos.

Todos os Párias portugal ao céu oferece e

nós ficamos cá porquanto for absurdo

morrer apenas porque o tempo nega a prece

 

prévia que houvera inferno para os felizes.

Podemos na terra crer ou ignorar quais mitos

ritos, alegorias, impunes aos juízes

 

de olhos carniceiros, reflectidos no abismo,

caos ido de outrora em que a nossa paixão bastava

entrever e houvera inferno para nós, felizes.

 

GJ

Carta a Rainer Maria Rilke

ps

 

Mas a sua solidão será um pouso e um lar, mesmo no meio de relações muito hostis, e a partir dela encontrará os seus caminhos.

Therefore, dear Sir, love your solitude and try to sing out with the pain it causes you. For those who are near you are far away… and this shows that the space around you is beginning to grow vast… be happy about your growth, in which of course you can’t take anyone with you (…)

Rainer Maria Rilke

Meu caro,

Detesto saber que estás morto e que esta carta é um bala vazia, mas também apenas Kappus pareceu receber mais que um dos teus conselhos, quando não estavas a mudar de novo de casa ou a morrer de pobreza e doença. Essa é a verdade dos factos que contam, não que afecte a minha admiração por ti. A verdade é sombria para muitos, enquanto que para mim, a verdade não se figura preocupante. Em boa verdade, vivo bem de olhos abertos esta última, inclusive aquela que me incomoda, a de não poder nunca desviar a minha atenção de qualquer tarefa sem encetar um obsessivo interrogatório existencial e a medo tentar responder a todas as questões que ainda não desmistifiquei e que comprometem a minha vontade de existir, a de persistir na pueril demanda de tudo querer resolver dentro de mim. Esta é a verdade dos factos que já eu conheço bem e talvez a venha a aceitar. De entre todas as minhas questões, Rainer, preciso da tua perícia e honestidade para fazer face à minha solidão… Como era, de verdade, a tua solidão?

Nas tuas cartas prevalece a tua boa vontade, a tua eloquente vulnerabilidade e a tua mestria, mas não és sincero. Preciso que me digas o que acarreta afundar-me na minha já instalada solidão? Sou tão amante da solidão aqui como em qualquer lugar, pois então de que me vale partir e deixar o parco pão que me é dado? Porque me devo eu apartar do calor que eu, cão imprestável, conquistei nesta terra inóspita? A que limites foste tu capaz de te arrastar e à tua amada solidão? És capaz de me incentivar ainda agora ou dissuadir-me-ás? O que aprendeste contigo mesmo senão o que já sabias? Quanto espaço privatizaste entre ti e nós os outros? Quantifica-me a tua paz de espírito. Longe de escrutínios e ainda tendo de passar pelos fretes do dia-a-dia, digo-te que sinto mais a solidão como a tal cruz de que falas em carregar, solidão dentro da qual, acolhido, lambo das maleitas a minha cura, e por isso questiono incessantemente, até o frenesi acabar e então a vida fora de mim é apenas uma ilusão, quebrada por outra pergunta. O que muda? Qual a razão de ser? Porque devo alimentar esta alienação? A mim parece-me que tiveste mais ajudas do que alguém como eu tem direito a ter. A mim parece-me que és um charmoso e inspirador homem, bem como um grande aldrabão… e no entanto levantas uma boa questão: temos de enfrentar o nosso crescimento sozinhos. Pois, ninguém o fará da mesma forma e talvez a interferência atrofie o nosso desenvolvimento, talvez sacrifique um maior futuro, enquanto que em total solidão apenas nós podemos interferir e agir de acordo com o que é do nosso melhor interesse.

Quase que te consigo ouvir a reflectir sobre os meus devaneios cortantes, ainda sim, incapaz de ser genuíno. És um cobarde. Tenta, pelo menos, ajudar-me nesta última questão. Fico onde estou e ignoro o que poderia vir a ser das oportunidades de partir, contando comigo apenas como porto de abrigo e, segundo os teus ensinamentos, ser um homem mais completo e sábio, ou parto ignorando que até hoje aqui amadureci, contra todas as adversidades? Tiveste de responder a esta questão, no teu tempo de vida? Tanto quanto me é possível observar, terei de fazer à tua maneira e descobrir o que melhor me serve, pois não sei se não terás trilhado este mesmo caminho e optado por outro, pelo teu, aquele que te trouxe até mim. Foi coragem ou cobardia?

Não precisas de me responder para já, eu não te quero ver tão cedo.

Teu,

GJ

Projecto paginação, ilustração e encadernação de livro infantil

Um dos projectos da minha recente formação em Design Editorial foi paginar, ilustrar e encadernar um livro infantil, sendo a encadernação elemento opcional de projecto mas que abracei com entusiasmo. Aprendi muito neste projecto, com a orientação da excelente ilustradora e professora Mariana Viana, tendo apresentado o resultado final à muitíssimo querida artista Danuta Wojciechowska, grande ilustradora para crianças.

A história que trabalhei é da autoria de Margarida Castel-Branco, os títulos das outras duas capas fazem parte da mesma colecção.

 

GJ

 

Caril de frango

Ainda estou a meio, o frango está selado, parti-o em pedaços demasiado grandes mas lá cozinhou, está muito bem limpo e temperado, só lhe falta ficar banhado no molho que deixa toda a gente cá de casa quase de cama a fazer a digestão… É verão e a família reuniu-se, eu decidi fazer o jantar. Nunca ninguém sabe o que quer para a refeição, como é costume, o meu pai quer alguma coisa saborosa para quebrar a dieta sensaborona e eu prometi fazer-lhe um caril caprichado. Deste ele não se vai queixar, já lhe sei os truques todos.

Na rua estão os irmãos da casa lá de baixo. Continuam ranhosos e raquíticos, lutam pelo mesmo sítio para brincar, pelo carrinho de bebé no qual ela passeia o boneco horroso a fingir que é mãe, carinho que ele quer usar para fingir que é o pai a andar de mota. Apesar de não gostar deles nem de onde eles vêm, a imaginação de ambos mostra-me o que realmente são: crianças com muito para dar, com um resto da inocência que a miséria lhes tirou. O pai chega e correm para ele, o miúdo salta para cima da mota e fica lá sozinho. Já nem pia, acho que perdeu a esperança de que algum dia o pai volte atrás. Ela conta-lhe o dia todo a trotear aos pés dele. Ouço a porta bater e passos nas escadas de novo para o pátio de cima. De volta ao cimento, levanta o boneco do chão, penteia-lhe o cabelo de plástico e atira-o para o carrinho, provavelmente partindo-lhe o pescoço. O fruto não cai longe da árvore… Ele deixou-se estar sentado na mota, arregaçou as mangas, fitando o horizonte. Agora tenta chegar aos pedais enquanto imita o som do motor a arrancar. Ffinalmente o motor a pega e ele grita “ADEEEEUS NÃO VOLTO PARA JANTAAR” e uma berraria pegada de idiotices… a irmã ignora-o sem esforço.

Que miúdo bravio, digo eu, lembrando-me de mim mesmo, às turras com o meu melhor amigo quando tinha a idade deste chavalo a fingir que foge de casa na mota do pai. Morava mesmo ao meu lado, os nossos pais eram amigos de longa data, ele era um ano mais velho que eu, o meu pai adorava-o. Era mais aventureiro, era o rapazola que seguia o pai para qualquer lado e qualquer desafio, o verdadeiro rapaz das ideias estúpidas que lidera os rapazes estúpidos. Eu era mesmo amigo dele mas não gostava lá muito de brincar com ele, só de algumas maneiras e tinha de ser como eu queria. Por norma brincávamos a algo relacionado com super heróis, descobertas de ossadas de dinossauros, Sherlock Holmes, Indiana Jones e lutas, revezando-nos sempre entre personagem principal, ajudante e inimigo perigoso que leva sempre a maior porrada. Lembro-me de um dia estarmos a fingir que éramos detectives e arqueólogos ao mesmo tempo e de termos descoberto uma pegada animal que era também a prova de um crime, mesmo debaixo de um arbusto, em frente à oficina do meu pai. Ele olhava-nos com algum desdém e aborrecimento, mas deixava-nos em paz e eu não lhe ligava nenhuma, espreitando de vez em quando se ele vinha ter comigo. O Bernardo foi buscá-lo correr e mostrou-lhe a pegada e explicou-lhe a história toda. Pareceu-me que o ouvia com entusiasmo, mas talvez estivesse só a fingir e a pensar que tinha de voltar para dentro, e não o interrompeu. Aquele gesto, pensei, se fosse comigo tinha levado um berro para ir chatear o Camões. O meu pai voltou para a oficina e o Bernardo comeu terra.

Deixou alguma comida no prato. Disse que estava bom embora tivesse falta de sal, a olhar para a televisão. O arroz ficou empapado.

 

GJ

More than space

When it comes to writing I need more than space, I need preparation, silence and solitude.

It’s sunday, I start my day with a good strech, a very bumpy walk to the kitchen where I have a tall glass of water, followed by a healthy breakfast washed down with a mug of coffee. Cleaning and tidying up come first, nothing else is done before the bed is made and looking neat. A quick lukewarm shower and body care routines after the morning workout only. By the time I’m fully clothed and ready, the floor is clean, everything is in place and there’s nothing else to take care of, so I can pull the blinds all the way up and let the morning sun fill the room, open the window and let the air circulate. It’s summer and I have a fan pointed at my face, nonetheless. I sit down and put on classical music, I do my reading, I take my minerals, I have fruit and water with me and when I’m done reading articles and the daily news, I stick to writing.

The room is lit up with sunlight, the music is soothing, the place is in order, in my desk the computer is on although I write and edit on paper, the books I’m studying and a translation I’m working are here to remind me of what’s to do next, probably right after lunch, and a to complete drawing book rests next to the pencil and rubber to relax in between activities. The drawing materials are stored right next to me, so I don’t really have to move a lot. It’s risky to work in my bedroom, but it’s the safest place with everything I need to work with, plus it has my smell and vivid memories, it is fully charged with my obsessions and tokens of love, life and inspiration.

This is my workspace.

***

I have a request for you. If you made it this far, I’d like to hear what you, fellow blogger, reader, lovely person, would suggest me to write about. Anything, really. In exchange, I’ll provide. For best results, make sure to trully challenge and send your suggestions through the contact form on the link bellow.

Thanks a lot and have a great one!

 

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Deaf Splash of Growth

 

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I’m feeling full today, I can’t stomach any food, so I’m making a soothing warm soup, plenty pumpkin, squash, turnips, carrots, beets, a little ginger and a handful of fresh minced mint. The sizzling hot day turned the roads and sidewalks into radiators, the air is thick and hot at eight pm. As I sip on an icy cup of ginger tea the soup is cooking and the water is reaching boiling point, foaming, lifting the lid, while in the sink water is dripping, from the tap that needs fixing and its constant dripping sets my teeth on edge. It took only one drop splashing on the already large pool formed by the leakage, splashing into a few more droplets, to send me back to the time when I believed whatever would happen then would shape my whole life. Whatever happened before and after I realised the truth didn’t shape the rest of my life, whatever happened on those blissful days spent in hidding, in young love didn’t define me –  that’s the story.

It was, after all, young love, utter and unnerving short sighted bliss, that encouraged me to spend my days in longing, waiting for my lover to come back, parting ways at the train station and staying close for when the time came up being faithfully there to walk back home together. That last day I wondered ‘round the valley and up the ridges in Sintra, I still know the trails by hand, all of them. I had the camera with me, as well as bag with books, water and fruit. As the day progressed, the cartridge filled up with photos, the bag filled up with flowers I had been collecting and the books remained untouched.

At dawn, I sat nearby the train station, at an oddly crowded location. I could see the house in the valley from the belvedere, I dreamt about the future living there, grazing the wild flower bouquet resting on my lap. Famished and thirsty, could barely hold myself, there was still no sign, no familiar grin surfaced from the hasty croud getting out of the train. The night rose quickly and damp, with a thin coat of fog which soaked up the tragedy in alluring gusts of heavy, bleak, perfumed wind.

I was left alone and I knew already then wallowing in loneliness was not on my plans so I left alone and dropped the flowers in a sort of shy gesture.

Today I’m a little faint from both the heat brought by summer and all my loving and affection, having a little bit of a weak stomach from loving deeply and having nothing even remotely as heavenly to treat myself with, spending my days writing endless love letters with everything I do, fueled by it, sipping on unimaginable quiet.

By the fountain, at the ridge, I took a while to absorb the nature around me, just sit down and listen. The water flowed dully and silent from the canals to the fountain. Only the sound of the drops from the water dully and almost criteriously splashing on the rocks dripping on the wavering water could be heard. I spent the night.

 

GJ

Colher

Dei ao mar, caído da minha jangada desenlaçada pela minha própria mente turbulenta.

É certo, antes de arar queria colher como antes de perguntar queria já saber. Quis sempre vencer a corrida contra mim mesmo e adivinhar-me antes de o tempo ter corrido. Colher-me-ia o tempo ainda desmentido, que não existia, e voltaria para me questionar ininterruptamente e estar todas as vezes errado, todas as vezes todas as manhãs, todas as perguntas respondidas, todas as certezas desfeitas. Esta eternidade teve um fim contigo. Quando me mostraste a cor da minha pele e a vi clara como água aceitei a vibração do laranja que me ardia na vista turva da água salgada, quando mergulhado estive, quebrados a cada nó da maré os meus ossos, sargaço do mar, quando me colheste e respondeste à pergunta que se afogou comigo, trouxeste a manhã irrepetível.

Juntos desmentimos o tempo, repetimos manhãs em que buscamos tudo do conhecimento e ficamos em flor e ora em fruto, nos ramos rebentamos em flores, e então em frutos.

GJ

Porque me sinto zangado pt II

A pergunta persiste.

Pergunto-me a mim mesmo, perguntam-me outros ao través dos anos, e eu resisto e engulo a resposta, porque a idade era tenra e o tempo da liberdade ainda não era. A resposta, a explicação da minha zanga esquizofrénica, que ora é, ora se esquece de ser, é o trauma da esperança e do sonho, o desejo de concretizar ideais, a promessa que fiz a mim mesmo de tudo da minha mente construir e criar. Mas que os meus pares me passem ao lado e sejam jamais, e se esqueçam de novo de perguntar, porque os ignoro hoje se ontem os quis revisitar. Mete-me nojo visitar-vos, ver-vos de um passado que não floresceu, quando a minha dolorosa e inevitável missão ao través dos anos é ser eu.

Pergunta-me hoje porque estou tão zangado assim, deixa-me ter espaço e tempo para responder e entre tudo o que os meus pés e punhos podem partir e em pedaços explicativos ajudar a minha a desenrolar, dir-te-ei com a mágoa de deuses fora do devido altar que à flor da pele a natureza me fere de urgência de ser livre – E EU AINDA NÃO SOU LIVRE – que todo eu sou cansaço, que da mediocridade sinto o peso do tempo, o peso do tempo atrasado, irreparável inércia que me rói os dentes, obstrui e constrange as válvulas, a culpa da fraqueza piora a dor de cabeça, e a raiva animal, viral, lança-me ao ataque, à sabotagem de tudo o que representa futuro, e de tudo isto resta-me zanga, mágoa e raiva. Fazer para quê? O quê? Em troco de quê? Por quem e porquê? Com que garantia do bem estar da minha sanidade? Com que posses? Por que cedência? Resta-me sair ao mundo todos os dias a realizar a minha missão e ser rodeado de apoiantes, que levam o que gostam de ver, e regresso eu sozinho, ainda a ser o que sou e mais não me consigo suportar, a minha mágoa, a minha zanga, a minha raiva. Zangado, silvos de medo, encolhido a um canto, solto estes avisos para que tenhas precaução: não sou o que tenho de ser e sou um acumular daquilo que nunca quis ser. De mim não vejo mais maravilhas, de mim não espero mais sonho, de mim apenas tenho fuga, reclusão, solidão, inércia, caluda e falta de sono.

Correram os anos e mantive o meu olhar certeiro na estrada contínua. Omito aqui os tropeções, os achados e outras recordações, a estrada é longa e longa deveria continuar a ser até chegar onde quisesse, porém a estrada acabou precocemente e a meio a minha música ficou. Como poderia eu continuar a alimentar o boato da minha loucura? Observa, vê que a minha revolta não pode ser menor nem silenciosa, como retomo a minha gritaria! O som abandonou-me e eu faço melodias e ritmos contra uma parede que não consigo escalar, para incomodar quem me ouve, até fazer o cimento estalar. Perdidas estão as cornetas que abalaram as muralhas de Jericó e perdida está a doença do coração deste homem que antes, consumido pela esperança, pensou poder existir, porém agora, livre do veneno, se indigna com o a priori que lhe diz que só pode ser… É o meu único luxo .

GJ

– editado, 14/08/2016