Bacalhau Basta

A vida não vale nada
e a morte vale ainda menos
mas quando é a nossa vida
vale aquilo que fazemos
desde o dia em que se nasce
até à noite em que se morre
é com aquilo que se faz
que o caminho se percorre
e se a vida é para ser gasta
vamos gastá-la a preceito
para quem é bacalhau basta
para quem é bacalhau basta
mas que seja bacalhau bem feito.

Sérgio Godinho, Bacalhau Basta

Recent readings: Manfred – act III end of scene I – Lord Byron

Abbot. This should have been a noble creature: he
Hath all the energy which would have made
A goodly frame of glorious elements,
Had they been wisely mingled; as it is,
It is an awful chaos—light and darkness,
And mind and dust, and passions and pure thoughts,
Mix’d, and contending without end or order,
All dormant or destructive. He will perish,
And yet he must not; I will try once more,
For such are worth redemption; and my duty
Is to dare all things for a righteous end.
I’ll follow him—but cautiously, though surely. [Exit ABBOT.

O LIVRO DAS IMAGENS, Rilke

Solidão

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios…

A Canção do Suicida

Só mais um momento.
Que voltem sempre a cortar-me
a corda.
Há pouco estava tão preparado
e havia já um pouco de eternidade
nas minhas entranhas.

Estendem-me a colher,
esta colher de vida.
Não, quero e já não quero,
deixem-me vomitar sobre mim.

Sei que a vida é boa
e que o mundo é uma taça cheia,
mas a mim não me chega ao sangue,
a mim só me sobe à cabeça.

Aos outros alimenta-os, a mim põe-me doente;
compreendei que há quem a despreze.
Durante pelo menos mil anos
preciso agora fazer dieta.

Recordação

E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.           

Rainer Maria Rilke, in “O Livro das Imagens”
Tradução de Maria João Costa Pereira

Elogio dos repuxos – Ronald Carvalho

Hoje tenho em mim versos variados de Ronald Carvalho, em especial este “Elogio dos repuxos”, que lê assim:

Dor dos repuxos ao Sol-pôr agonizando

em plumas e marfins, em rosas de ouro e luz…

Canto da água que desce em poeira, leve e brando,

canto da água que sobe e onde o jardim transluz.

Dormem sinos na bruma — a cinza tem afagos…

Sombras de antigas naus, velas altas a arfar,

passam em turbilhões pelo fundo dos lagos,

(a aventura, a conquista, a ânsia eterna do mar!)

Repuxos a morrer sobre si mesmos, lentos —

curvos leques a abrir e a fechar num adejo,

— mão vencida que vem de vãos incitamentos,

mão nervosa que vai mais cheia de desejo…

Volúpia de fugir — ser longe e ser distância,

e tornar logo ao cais e de novo partir!

Volúpia — desejar e não possuir, ser ânsia…

Repuxos a descer, repuxos a subir…

Não fixar emoções, volúpia de esquecê-las,

Andar dentro de si perdido na memória…

(Caçadores ideais de mundos e de estrelas —

repuxos ao Sol-Pôr cheios de mágoa e glória…)

Dor dos repuxos ao crepúsculo cantando!

desespero, alegria — o lábio, a mão… e um beijo.

Dor dos repuxos, dor sangrando, dor sonhando —

Ir tocar a ilusão e morrer em desejo…

Les Deux Bonnes Soeurs

baudelaire1
by GJ

 

La Débauche et la Mort sont deux aimables filles,
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l’éternel labeur n’a jamais enfanté.

Au poète sinistre, ennemi des familles,
Favori de l’enfer, courtisan mal renté,
Tombeaux et lupanars montrent sous leurs charmilles
Un lit que le remords n’a jamais fréquenté.

Et la bière et l’alcôve en blasphèmes fécondes
Nous offrent tour à tour, comme deux bonnes soeurs,
De terribles plaisirs et d’affreuses douceurs.

Quand veux-tu m’enterrer, Débauche aux bras immondes?
Ô Mort, quand viendras-tu, sa rivale en attraits,
Sur ses myrtes infects enter tes noirs cyprès? 

Charles Baudelaire

Birthday Present

What is this, behind this veil, is it ugly, is it beautiful?
It is shimmering, has it breasts, has it edges?

I am sure it is unique, I am sure it is what I want.
When I am quiet at my cooking I feel it looking, I feel it thinking

‘Is this the one I am too appear for,
Is this the elect one, the one with black eye-pits and a scar?

Measuring the flour, cutting off the surplus,
Adhering to rules, to rules, to rules.

Is this the one for the annunciation?
My god, what a laugh!’

But it shimmers, it does not stop, and I think it wants me.
I would not mind if it were bones, or a pearl button.

I do not want much of a present, anyway, this year.
After all I am alive only by accident.

I would have killed myself gladly that time any possible way.
Now there are these veils, shimmering like curtains,

The diaphanous satins of a January window
White as babies’ bedding and glittering with dead breath. O ivory!

It must be a tusk there, a ghost column.
Can you not see I do not mind what it is.

Can you not give it to me?
Do not be ashamed–I do not mind if it is small.

Do not be mean, I am ready for enormity.
Let us sit down to it, one on either side, admiring the gleam,

The glaze, the mirrory variety of it.
Let us eat our last supper at it, like a hospital plate.

I know why you will not give it to me,
You are terrified

The world will go up in a shriek, and your head with it,
Bossed, brazen, an antique shield,

A marvel to your great-grandchildren.
Do not be afraid, it is not so.

I will only take it and go aside quietly.
You will not even hear me opening it, no paper crackle,

No falling ribbons, no scream at the end.
I do not think you credit me with this discretion.

If you only knew how the veils were killing my days.
To you they are only transparencies, clear air.

But my god, the clouds are like cotton.
Armies of them. They are carbon monoxide.

Sweetly, sweetly I breathe in,
Filling my veins with invisibles, with the million

Probable motes that tick the years off my life.
You are silver-suited for the occasion. O adding machine—–

Is it impossible for you to let something go and have it go whole?
Must you stamp each piece purple,

Must you kill what you can?
There is one thing I want today, and only you can give it to me.

It stands at my window, big as the sky.
It breathes from my sheets, the cold dead center

Where split lives congeal and stiffen to history.
Let it not come by the mail, finger by finger.

Let it not come by word of mouth, I should be sixty
By the time the whole of it was delivered, and to numb to use it.

Only let down the veil, the veil, the veil.
If it were death

I would admire the deep gravity of it, its timeless eyes.
I would know you were serious.

There would be a nobility then, there would be a birthday.
And the knife not carve, but enter

Pure and clean as the cry of a baby,
And the universe slide from my side.

 Plath

FAUSTO, Goethe -melhores momentos

“Que vida! angústias sempre: ora a almejar por gozo,
ora inquieto na posse, e do almejar saudoso!

(…)

Mudar de pele não muda interior. Com quaisquer trapos
há-de ir comigo o meu viver terrestre.
Já sou velho de mais para brinquedos,
e para descartar-me de cobiças
inda muito rapaz. Que há nesse mundo
que me possa atrair? Priva-te! Abstém-te!
Eis o eterno refrão com que nos quebram
o bichinho do ouvido a toda a hora.
De manhã, quando acordo, é sempre aflito
e ansioso de chorar, pela certeza
de que o dia que enceto é, como os outros,
incapaz de cumprir-me um só desejo,
nem um só. Pois se eu sei que a expectativa
do mínimo prazer já chega eivada
de sua improbação, e cada almejo
do meu férvido sangue há-de ir gelar-se
ante as carrancas do viver prosaico!
À noite é-me forçoso entrar num leito
onde já sei me aguarda o labirinto
da turbulenta insónia, e, se olhos cerro,
medonho pesadelo! O Deus que me enche
rege-me a seu talante, influi, domina
té o âmago mais fundo o meu composto.
E tamanha potência nada pode
fora de mim nos mínimos objectos!
Dura carga é viver! quem dera a morte!
(…)
— Feliz o herói que, na embriaguez da glória,
no instante mesmo em que lhe pega os loiros
com sangue hostil nas fontes a vitória,
cai fulminado ao silvo dos peloiros!
— Feliz o amante que depois do enleio
de louca dança, e no auge do delírio,
súbito expira no adorado seio,
e antes da morte vislumbrou o Empíreo!
— E feliz eu, se quando, face a face,
logrei tratar com génio alto e possante,
nesse extra-vida glorioso instante
morte improvisa os dias meus soprasse!

(…)

Entendamo-nos bem. Não ponho eu mira
na posse do que o mundo alcunha gozos.
O que preciso e quero é atordoar-me.
Quero a embriaguez de incomportáveis dores,
a volúpia do ódio, o arroubamento
das sumas aflições. Estou curado
das sedes do saber; de ora em diante
às dores todas escancaro nesta alma.
As sensações da espécie humana em peso,
quero-as eu dentro de mim; seus bens, seus males
mais atrozes, mais íntimos, se entranhem
aqui onde à vontade a mente minha
os abrace, os tateie; assim me torno
eu próprio a humanidade; e se ela ao cabo
perdida for, me perderei com ela.

(…)

Sê mulher! impõe-te dominá-lo!
Consente que este olhar que em ti se está cravando,
consente que estas mãos às tuas abraçando,
te expressem mudamente o que de mim tens feito,
o que nem cabe em voz, nem cabe já no peito;
permite-me engolfar-me em bem-aventurança,
num afecto sem fim, sem quebra nem mudança,

eterno… sim, que a ser menor que a eternidade,
seria o desespero, o nada. Este não há-de,
não pode já ter fim; jamais, jamais.

(…)

MEFISTÓFELES

Tomara ser passarinho.
para ir ter onde eu desejo;
depressa formara as asas,
que as penas são de sobejo.

Nisto de sol a sol consome os dias;
nisto de sol a sol desvela as noites.
Se alguma rara vez lhe assoma às faces
vislumbre de alegria, as mais das vezes
de mortal pesadumbre as tem nubladas;
ora mostra no rosto mal enxuto
sinais de ter chorado, ora parece
a poder de cansada estar serena…
mas sempre namorada.

FAUSTO

Ah, cobra, cobra!

 

(…)

MARGARIDA, só, fiando na roca, e cantando

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Inda não quitei a vida,
e já ’stou na sepultura.
Quem nasceu tão sem ventura,
melhor não fora nascida.

Trago esvaído o juízo,
o coração como louco.
Sempre durastes bem pouco,
horas do meu paraíso.

[312]

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!

Canso a buscar-te por fora;
canso à janela a esperar-te,
sem ver em nenhuma parte,
nem saber quem te demora.

Que nobre andar! que figura!
que olhar! que riso! e que boca,
donde eu sentia já louca
jorrar caudais de doçura

E aquela mão, que inda vejo
a apertar convulsa a minha
o fogo que ela não tinha!
E o beijo! oh meu Deus, o beijo!

Sinto o coração pesado.
Dias de paz, onde estais?
Ai, descanso abençoado,
nunca, nunca, nunca mais!
[313]

Onde estás, que me esvoaço
por colher-te? onde…? não sei.
Se outra vez a ti me abraço,
das angústias que hoje passo
como então me vingarei!

(Levantando-se, e declamando com veemência.)

Prendo-te ao seio,
já sem receio
de te perder.
Farto os desejos
de toda em beijos
me desfazer.

(…)

PROCTOFANTASMISTA

Na própria cara
vo-lo repito, Espíritos! Não sofro
a Espíritos ser déspotas; e a causa
é que déspota ser não posso eu mesmo.

(Continuam a dançar)

Tudo hoje me sai torto. Paciência!
Aldemenos, fiz mais esta Viagem.
E antes que faça a última, inda espero
vencer alfim diabos e poetas.

 

(…)

MARGARIDA (cantando em delírio)

Nasci de uma perdida.
Gerou-me um salteador.
A mãe roubou-me a vida.
O pai tragou-me em flor.
Saltou-me a irmã vizinha
do fresco seu coval;
mudou-me em avezinha
no agreste matagal;
fugi da terra feia;
vim ser feliz no ar;
aqui só me recreia
voar, voar, voar.

(re)leituras – “The Waste Land”de T.S.Eliot

Here is no water but only rock
Rock and no water and the sandy road
The road winding above among the mountains
Which are mountains of rock without water
If there were water we should stop and drink
Amongst the rock one cannot stop or think
Sweat is dry and feet are in the sand
If there were only water amongst the rock
Dead mountain mouth of carious teeth that cannot spit
Here one can neither stand nor lie nor sit
There is not even silence in the mountains
But dry sterile thunder without rain
There is not even solitude in the mountains
But red sullen faces sneer and snarl
From doors of mudcracked houses

If there were water

And no rock

If there were rock

And also water

And water

A spring

A pool among the rock

If there were the sound of water only

Not the cicada

And dry grass singing

But sound of water over a rock

Where the hermit thrush sings in the pine trees

Drip drop drip drop drop drop drop


But there is no water

 

(excerto do capítulo “What the Thunder Said”)

“De Profundis” de Oscar Wilde: breves passagens

“Estará a tua imaginação a despertar da longa letargia em que repousa? Já sabes o que é o Ódio. Começarás a compreender o que é o Amor, e qual é a natureza do Amor?”

“Julgo que o que eles amam não é a Arte

Que quebra o cristal do coração de um poeta

Aqueles olhos pequenos e viciosos podem irritar-se ou deliciar-se.”

“A faculdade «por meio da qual e apenas por meio da qual somos capazes de compreender os outros nas suas relações reais ou ideais», tinha sido enfraquecida pelo teu estreito egoísmo, e a sua longa falta de uso tinha-a tornado indisponível”

“Dentro de nós o tempo não progride. Regressa. Parece circular à volta de um centro de dor.”

“Nunca, nem mesmo nos dias mais perfeitos do meu desenvolvimento como artista, teria eu sido capaz de ter palavras que se adequassem a um tão grande fardo, ou que se movessem com suficiente majestade musical no meio do púrpuro espectáculo da minha incomunicável mágoa.”

“As folhas de louro morrem quando são apanhadas por mãos idosas. Só a juventude tem o direito de coroar um artista. Esse é o verdadeiro privilégio da juventude, se a juventude o conhecer.”

“Não há nenhuma coisa viva no mundo do pensamento ou do movimento em relação à qual a Dor não vibre em pulsação terrível, ainda que extraordinária.”

“Onde há Dor, o chão é sagrado. Um dia compreenderás o que isto significa. Não saberás nada da vida enquanto não o compreenderes.”

“O primeiro volume de poemas que, na Primavera da sua virilidade, um jovem lança para o mundo, devia ser como uma flor na Primavera, como o espinho branco no prado em Magdalen, ou como os malmequeres nos campos de Cumnor. Não deve pesar sobre ele o peso de uma tragédia terrível e revoltante, de um escândalo terrível e revoltante.”

“Há um tacto no amor e um tacto na literatura – tu não foste sensível a qualquer deles.”

“A cegueira pode ser levada tão longe que se torne grotesca, e uma natureza pouco imaginativa, se não se fizer alguma coisa para a despertar, ficará petrificada numa absoluta insensibilidade, de tal modo que, enquanto o corpo pode comer, beber, e ter os seus prazeres, a alma, de que é casa, pode, como a alma de Branca d’Oria em Dante, estar absolutamente morta.”

“Tratei a Arte como a realidade suprema, e a vida como um mero modo de ficção; despertei a imaginação do meu século de tal maneira que ela criou mitos e lendas à minha roda; resumi todos os sistemas numa frase, e toda a existência num epigrama”

“O que o paradoxo era para mim na esfera da paixão, tornou-se para mim a perversidade na esfera da paixão”

“Estou mais individualista do que alguma vez fui. Nada me parece ter o mais pequeno valor, excepto aquilo que retiramos de dentro de nós. A minha natureza procura um novo modo de auto-realização”

“Quando penso acerca da religião, sinto que gostaria de fundar uma ordem para aqueles que não são capazes de crer; poder-se-ia chamar a Confraternidade dos Sem Pai, onde, num altar, no qual não ardesse qualquer lamparina, um sacerdote, em cujo coração não habitasse  a paz, pudesse celebrar com um pão amaldiçoado e um cálice vazio de vinho”

“A Verdade na Arte não é uma correspondência entre a ideia essencial e a existência acidental (…) tal como não é o poço de água prateada existente no vale que mostra a Lua à Lua e Narciso a Narciso”

“Fracasso, desgraça, pobreza, dor, desespero, sofrimento, lágrimas mesmo, as palavras entrecortadas que provêm dos lábios da mágoa”

contemplar o espectáculo da vida com as emoções adequadas, que é aquilo que Wordsworth define como verdadeira finalidade do poeta”

“Quando entramos em contacto com a alma, isso torna-nos mais simples como crianças, como Cristo disse que devíamos ser.”

“Quanto ao Altruísmo, ninguém melhor do que ele sabia que que é a vocação e não a volição que nos determina, e que não podemos tirar uvas de espinhos nem figos de cactos”

“Mas, embora Cristo não tenha dito aos homens, Vivei pelos outros, afirmou que não havia diferença entre as vidas dos outros e a nossa vida”

“Todas as obras de arte são o cumprimento de uma profecia. Pois todas as obras de arte são o cumprimento de uma profecia. Pois todas as obras de arte são a conversão de uma ideia numa imagem”

“não tinha influência sobre ti para conseguir que não me perturbasses, como se deve fazer a um artista”

“detestava que olhasses para mim como uma pessoa útil, modo como nenhum artista deseja ser visto ou tratado; sendo os artistas, tal como a própria arte, inúteis por essência”

“Quanto a ti, só me resta dizer uma última coisa. Não tenhas medo do passado. Se as pessoas te disserem que é irrevogável, não acredites nelas”

Onde outros, diz Blake, nada mais vêem do que a Madrugada a aparecer sobre o monte, eu vejo os filhos de Deus gritarem de alegria

 

in De Profundis, Oscar Wilde.

GJ

 

 

“O amor é alimentado pela imaginação”

Em ti, o Ódio foi sempre mais forte do que o Amor. O teu ódio pelo teu pai era de tal maneira grande que excedia, vencia e ofuscava completamente o teu amor por mim. Não havia qualquer batalha, ou, se havia, era pequena, entre eles; de tais dimensões, de tamanho tão monstruoso era o teu Ódio. Não percebias que não há lugar para essas duas paixões na mesma alma. Não podem viver juntas nessa pequena morada esculpida. O amor é alimentado pela imaginação e, por meio dele, tornamo-nos mais sábios do que nos sabemos, melhores do que nos sentimos, mais nobres do que somos; por meio dele podemos viver a Vida como um todo; por meio dele e apenas por meio dele, somos capazes de compreender os outros nas suas relações reais e ideais. Só aquilo que é excelente, e excelentemente concebido, pode alimentar o Amor. Mas qualquer coisa pode alimentar o Ódio. Não houve nenhuma taça de champagne que tenhas bebido, nenhum prato que tenhas comido naqueles anos, que não tenha alimentado o teu Ódio, fazendo-o engordar.

(…)

O Ódio cega as pessoas. Tu não tinhas consciência disso. O Amor pode ler o que está escrito na mais longínqua estrela, mas o Ódio cegou-te de tal maneira, que já não eras capaz de ver para além do estreito, murado, e já seco pela luxúria, jardim dos teus desejos vulgares. A tua terrível falta de imaginação, o único defeito realmente fatal do teu carácter, resultava inteiramente do Ódio que vivia em ti.

(…)

Aquela faculdade que o Amor podia ter acalentado, foi envenenada e paralisada pelo Ódio.

 

in De Profundis, Oscar Wilde

O meu Livro do Ano: “Mulher ao Mar”, Margarida Vale de Gato

Deixo-vos com a selecção que fiz dos poemas de Margarida Vale de Gato, contidos no livro Mulher ao Mar, publicado pela Mariposa Azual.

 

MUTILAÇÃO

Se por fora não pareço oca dentro
podre ao centro estou.
Sem querer armar-me em modernista tenho Alturas
em que experimento a lúcida percepção
quase materialista e táctil
do progresso da loucura
sou tal película sobre-
posta sobre-exposta,
precipitado cálculo de abertura –
aí o pânico a insónia eu cindida.
Só escrever me alivia um pouco
e dantes inclusive consolava;
agora é mais um corte
que sob a pele se exerce a prevenir
a coisa mais violenta que me pulsa na cabeça
e compulsivamente desta forma se escoa
mas não seca nunca estanca apenas se desloca.
E quanto disto não assenta na suspeita
de que me torno assim pior pessoa?

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VIDA EM COMUM

Comuns delitos quotidianamente
acumulamos: a avareza no acto
de nos amarmos; o azedume, os vários
domésticos queixumes, os dejectos,
os cacos dos púcaros desfalcados,
o casquilho ardido que ninguém vem
consertar; e o tempo sobretudo
que empatamos, que tu nas tascas
matas, desgostas-me o hálito a mosto,
a sanha que abre a porta à procura
da agressão, o acolhimento da crónica
resignação com que te nego o beijo,
nino no colo o filho e logo não
te abro os braços que sobre ele enlaço.

E as coisas tantas que reclamam nossa
dupla presença: o banco que empurra
o tampo à máquina que enferrujada
recusa trabalhar, a sopa rala
no prato cavo e a colher na boca
que impede a fala, a rebeldia dos
bens que possuímos e restituímos
à entropia, lentas tardes letárgicas
corridas de reposteiros no culto
dominical atento do alheamento
e prostração, os dias úteis cercados
por relógios, fadiga, esquecimento.

Na tua falta porém o enfado
cede à inércia e falha-me energia
para fazer dia após dia a cama
larga, exausta cedo ao cheiro azedo
que exala a nossa morte se propícia
a noite os corpos trepam conciliam-se
me pego então à fronha amarrotada
absorta faço ronha, de nós
não peço mais senão de novo ouça
toque do telefone encantamento
onde soe contrafeita tua voz.

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SENHORA DO Ó
“Faemina circundabit virum.”
Jer 31:22

Sendo Ele o objecto do anelo
e o meu colo o sujeito que anelava,
em mim logrou a forma que buscava
e logo anel formou para contê-lo.

E a roda do tempo em mim se trava,
em mim se imprime e grava o eterno selo,
pois todo o meu Amado eu desejava,
estendendo minha pele para acolhê-lo;

Em mim Ele se move e tem repouso
e Ele é o varão, eu a donzela,
e Ele está em mim e eu estou n’Ele

e este é o mistério mais gozoso,
ser Ele a pedra dura que por dentro
circula e mergulha no meu centro.

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A AUTO-ESTIMA DE UMA CORÇA SOZINHA NUM BAR

Um olhar arisco talvez não seja metáfora

um olhar melindrado
os cascos de unhas tratadas
tamborilando nos amendoins
diante de uma bebida branca
atrair sem chamar as atenções
agir com singularidade — o cigarro
que já aprendeu a enrolar —
afectar desinteresse sem descurar possível contágio,
a isso chamam os homens mistério.

Pensar na casa vazia como se de sobriedade se tratasse
não pensar sequer na casa vazia
nem nos corpos que lá subiram
troféus que não cumpriram elementar função
de brilhar no espaço
quando para o ocupar bastam gatos
extensos de tédio.

Oscilar levemente os ombros à música saturada
descontracção
os ombros bem torneados
moldura do impecável colo
ombros ebúrneos pescoço esguio
queixo bicudo nariz inflexível boca madura
ossos do esterno rigorosos
olhos levemente abstraídos por matizes de álcool
relaxar inclinar flutuar com cabelos não perder a cabeça
acenar ao sorriso dos lábios da mesa fronteira
o significado do sorriso — convite curiosidade
escárnio compaixão bebedeira
alerta! vulnerabilidade máxima, não sorrir
olhar fixamente para o cartaz da loira
que tem as saias arregaçadas pelo vento:
Uma mulher numa casa vazia contaminada de barbitúricos
o telefone sempre sem descanso a imagem de estar só
o corpo de desejo o desleixo no sofá seminu.

Esvaziada mente
mandar vir outra de espírito mais forte
convir à discrição ouvir a música fluir ser grácil
o detentor do sorriso adianta-se a chamar o empregado
— avidezes bailando sedutoras —
alguma coisa humedece ao som dos lábios untuosos
pois sim outro gim — mãos imperceptivelmente crispadas
não ceder.
Resguardar-se.
Defender-se da luz para não chocar com as traças
não — para não se mostrar que se envelhece
titubeante
amparar disparo com desdém.

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COM PAIXÃO E HIPOCONDRIA

Confortamo-nos com histórias laterais,
evitamos o toque, há risco de contágio;
por mais que preservemos a franqueza
passou o estágio já da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes – entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía

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TERESINHA

Aquele que amei tive de deixar no sítio

mesmo onde nunca soube perdoar:
aí persiste observando o rancor
que lhe impede a respiração da pele
até ao dia em que se desfará —
pedaços de lepra contra a consciência.
Pratico com ele a indiferença, exigente
solução de diluir o que não irá mudar.

Aquele que instintivamente toquei
não deu mais satisfações;
imagino-o absorto numa oficina
com um escopro ou um compasso
descrevendo a solidão, satisfeito consigo.
ou no convívio de terceiras pessoas.
Por ele, sem que que tenha esquecido,
disciplinei o corpo a emudecer.

Aquele a quem um instante quis chegar
não fica, antecipa partidas, vai
e volta, vai mais vezes do que volta;
retira as esperanças, logo não desilude:
quando vem traz o coração aberto
e os braços um tanto ocupados.
Admito com ele ter suspendido
a fraqueza em virtude do acanho.

Aquele a quem não pedi nada
e que invoco às manhãs,
aparece todavia pelas tarde com notícias
e tempo, que estende em desafogo aparente,
às vezes na cama demora quanto quer
e deixa os lábios no meu ombro.
Trato com ele a justiça que suscita
o que reconhecemos e não nos interroga.

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PRINCÍPIO DO ESCURO

Acordei hoje como se fosse natural-
mente necessário ter o comprimento
do teu corpo na minha cama e estranhei
que não me abraçasses, nem preenchesse
o encaixe da tua pélvis
as minhas nádegas, a tua mão
sobre o meu monte, os teus joelhos
encostados à dobra onde os meus flectem

Vês daí como tudo ainda e sempre
treme continuamente, e a descompasso
do real, todos os dias tenho calores
de imaginação, trabalho a libido
do cansaço, se fecho os olhos não durmo,
encho-me, ao invés, de fricções. Depois
no outro plano, já sentiste, custa-me
estar presente: das consecutivas vezes
que nos tocámos na boca, estudei os beijos
como uma alegoria embaraçosa:
tudo sob o comando diferido
da cabeça, com tensão mais que tesão,
a minha língua esgrimia a tua, quase
nada clamava ou humedecia, talvez
exceptuando um latido pequeno de amor
a pingar com irritação, não sei,
e além do mais haveria a indagar
se são de facto compatíveis nossas
espécies, se nisso há inevitabilidade,
ou onde preciso das tuas carícias
nos anéis das cervicais ou dedos
na pele ou o princípio do escuro
a partir do perímetro da cintura.

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DESLOCALIZAÇÃO DA PRIMAVERA

a despedida de Setembro, o diagnóstico de Outubro
dão azo desta vez a uma melancolia remota
tão somente, gralhas que não gritam neste calendário
decerto extemporâneo; pois somos nós o mês de Maio,
migrantes pássaros não tementes já dos dias curtos;
que deslumbradamente as penas luzem: invés de cinza,
uma patine de prata – vantagem devida à lua
que roda e dura agora mais que o sol – e o tempo assim
é amor que não azeda na demora da reserva.

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COPING

Ficar quieta é técnica que já
aplico com rigor, e no preciso
sítio em que pulsa paraliso
tudo, quem está morto livre está.

Creio que começou quando cedeu
o avô. Alguém disse: afinal
o coração não aguentou. Eu
pensei: mais vale declinar o abalo.

Mas também não cheguei nessa altura
até ao fim. Escangalhei-me na novena
aos degredados filhos de Eva.
Iniciei-me então nos barbitúricos

e hoje passo bem melhor. Às vezes
é um jogo, em que recorro ao coito
antes da apanhada, e se esgoto
essa via, dedico-me à mimese,

diluo-me com os objectos, tudo
me toca mas nada dá por mim, tão
imóvel que me ignora a dor, não
há como acordar um corpo mudo.

Por exemplo agora não veio
o homem, podia ter-me ferido
ou saído a buscar outro, e perdido;
mas pratico com vantagem a apneia

e a domesticidade. É pena
que me esqueça tanta coisa; foi
sorte saber da lamela – eia, pois
advogada nossa – dormir serena.

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UMA FALHA NO PROGRAMA

Estou à espera mais uma vez
de ser gentilmente votada
ao meu lugar de amante
intensa, grata e gozada
e é melhor que fique assim,

nem me queixo, inconveniente
sou para todo o protocolo
e além disso algo demente;
tenha embora certo interesse
falta-me um tudo-nada, charme

e desprendimento – aliás,
agradeço que entre portas
me deixem dedicar mil vezes,
no meio dos uivos e lodos,
a minha vulnerabilidade –

– mas se por acaso, só desta,
for mesmo da minha cabeça
e acontecer de outro modo,
fico de tal forma contente
que hei-de agradar-vos a todos.

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CONDIÇÕES MÍNIMAS

Esta sarça é interdita a matilhas;

há que mudar a pele para comer

o fogo. Não que eu faça render

qualquer talento, ou tenha em vasilhas

 

semi-intactas ilustres maravilhas:

uma lista de coisas a fazer,

solidão, pedra de isqueiro, um revólver,

e um aparelho já com pouca pilha

 

e que só uso eu; a nós vontade

basta – e alguma luz: pede-se intensa,

mas sem que obste o brilho à entrega cega,

 

aceitas? compreendes? aguentas?

 

no nervo negro desta densidade

penetra só sentindo que sustentas

e me conténs quando eu me desintegro.

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TALVEZ A INJECÇÃO LETAL

 

tão cansada de engolir
comprimidos sem dormir
do meu sexo que se embota
do meu coração que se esgota
esticado na horizontal
sob uma agulha sensual
e a sopa na panela
embacia-me a janela

e sorvo mas sem palato

sem ter forças para o salto

se há uma falha um abalo
Dickinson Plath Woolf Kahlo
onde foram estavam loucas
queriam coisas eram ocas
queriam chique eram pedras
queriam arte eram merdas
tentando o voo eram estacas
punho em riste eram farpas

fornos hortos seu delírio

nunca foi santo martírio

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HOTEL LOUNGE

Entre vocês e eu na arriscada
via rápida dos artistas há
um baldio de línguas que se
tresmalham incandescem e internamente
queimam os ouvidos: pares poetas eu
lamento discordar mas
sendo
a poesia
o que perde a tradução
há então mais importantes coisas
que guardar e eu não vejo forma
outra de sair deste férvido ruído
senão o esforço extreme e distendido
no transporte de chegarmos.

Quão arriscadamente – é o nodo
central desta questão – nos dispomos
a correr entre as línguas a arder
e se escrever vale de outro modo.

Por exemplo o nosso lounge
no hotel, pode ser um espaço
franco de chegarmos face
a face? e caso isso suceda
é prudente
defendermos a cilada
do comum e do corrente?

Pares poetas eu lamento discordar
mas na arte vejo alvos desiguais:
ter em vista o chegarmos a outrem
ou escudar a perda que se arrisca
e para mim é o primeiro que convém.

E mesmo assim no lounge do hotel
se enfim depositamos os punhais
no parapeito do balcão – rondando
estrangeiros num abrigo as bebidas
e as pontas de vidas e cigarros –
será jamais possível emalhar as nossas
línguas sem cair no brejeiro trocadilho
e no perverso lenocínio de um verso?
e vão tomar-me por aquilo que eu sou ou
por aquilo que em mim miram e pode haver
uma outra via de sair a via
de fazer um esforço mútuo
de mudar-nos e folgar quando falamos
o freio do orgulho de ser únicos?

Embaraça-me, pares poetas, discordar
do vosso tão distinto parecer
mas agradeço todavia essas vias
lenitivas no encontro de chegarmos
à provisória e aturdida comunhão
entre o médio-transitivo território
de um lounge num hotel.

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MORRE COMIGO ESTE SEGREDO

faz-se a renda juntando os quadrados
em fiadas, uns que se abrem e outros
que se fecham, é fácil mesmo de olhos
vendados, como agora nesta casa
onde vivo emparedada entre lágrimas
crónicas de cataratas e os ratos
que me atacam as crostas do telhado,
esta casa onde nasci e onde hoje
só a morte espera ainda que eu
já não espero nada, sepultado

o pânico da vida sem eventos
durmo de um só sono à noite com
os meus medicamentos e a Bíblia
à cabeceira, no canapé a colcha
por acabar que é para o enxoval
da filha da afilhada – tantas vezes fui
madrinha no altar, até dos manos
que vinham de visita aos domingos
mais as cunhadas prenhes e ufanas
sem saberem felizmente que a vida

que me não quis amada me fizera
amante insana em tempos pubescentes
nessa época antiga do recente
mênstruo empolgando os animais,
mergulhando-me e às amigas no
mistério das regras mensais do corpo
ainda irregular, nesse outro tempo
dizia em que um estrangeiro me apartou
das alegrias do gineceu e me deu
a conhecer o intranquilo apelo

que com desconforto rompeu
o retráctil selo do meu sigilo—
e porque ainda em flor fui desflorada
nunca mais quis eu o amor nem ser
casada, e portanto que escarneçam se
quiserem as cunhadas cobiçosas,
levem-me os móveis mas deixem-me a casa
onde fui nada e fui criada que sem
a deixar nunca me valeu o ganho
das rendas que me pedem de encomenda,

e em tudo o mais levo eu vida piedosa,
cumpro os ofícios na missa e recolho
o ofertório finda a homilia;
só eu sei da lingueta do ferrolho
onde fulgem as jóias da família.

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AINDA AMOR ME ALUI, FRIÁVEL CARAPAÇA
A mim que me julgava há tanto tempo seca,
Ó, tão íntima bênção — que a não esqueça
e a conserve — após o acto claro, após
o imenso espanto exacto, me fecunde
esta miséria funda, e assim desfeita,
guardando, grata, o quanto ampla fui
Que faço só poema onde haja dentro carne
e corpos prefiro que cubram como casas
Melhor ainda tendas, asilos fugazes
um ou dois furos, ventos, humidades, dádivas

Palavras de livros recentes: importado do Japonês para Esperanto, traduzido para pt-br, uma leitura confusa para este tuga

catamito – ou Catamitus, emprestado do etrusco Catmite, é o nome latino de Ganimedes, personagem da mitologia grega, o lindíssimo rapaz que foi seduzido por Zeus e se tornou amado e escanção deste. Por isso, na Roma antiga dizia-se que um catamito era o parceiro passivo, normalmente mais novo, numa relação de pederastia entre um homem e um rapaz, à semelhança do eromenos grego.

 

arrivista – (francês arrisviste)adjectivo de dois géneros e substantivo de dois géneros: Que ou quem tem ambições ou quer triunfar, a todo o custo e sem escrúpulos

 

barregã – concubina

 

litania – [Religião]  Oração em que se pede a Deus ou aos santos para intercederem pelos fiéis;  Enumeração enfadonha.

 

delíquio – Acto de liquefazer-se sob a acção ou humidade do ar.

Perda momentânea dos sentidos; Vertigem, tontura.

 

patíbulo – Lugar de execução da pena de morte; Instrumento usado na execução da pena de morte.

 

pusilânimeadj. Excessivamente tímido; Que não tem coragem para reagir; Que indícios de pusilanimidade.

subs. de dois géneros; Aquele que tem fraqueza de ânimo ou cobardia.

 

uta – poema que consiste na repetição de versos de 5 e 7 sílabas em diversas combinações consoante os tipos de uta. As mais conhecidas que sobreviveram até aos dias de hoje são: a tanka, com 31 sílabas (5+7+5+7+7) e a tyôka ou uta longa, cujo esquema métrico consiste na repetição de 5+7 um número indefinido de vezes (mais de três) com 7 no fim. A uta longa leva geralmente no fim um poema em forma de tanka, que resume ou suplementa o conteúdo.

 

GJ

Da arte e da morte -Miyamoto Masao – episódio tya no yu

“tya no yu – etiqueta de preparar e beber chá, também chamada cerimónia do chá ou culto do chá. O chá é conhecido no Japão desde 729, mas o tya no yu teve origem na severa disciplina dos mosteiros zen. O seu pai foi Syukô (1423-1502). Os seus princípios foram elaborados por Zyô (1503-1555) e aperfeiçoados por Rikyû.”

in DA ARTE E DA MORTE, Miyamoto Masao

“Quando reapareceu aos três convidados, que estavam sentados na sala de chá, no seu rosto ninguém podia ler qualquer intranquilidade ou agitação. Estava igual a todos os dias normais. Voltou a saudá-los com uma inclinação da cabeça e primeiro pegou numa pequena bandeja e dela tirou um bule, que colocou à sua esquerda. Depois, abriu um saco de brocado* dourado, limpou a bandeja e voltou a colocar o saco no lugar. Em seguida, pegou com ambas as mãos numa mesinha, sobre a qual se encontrava uma taça, um pano, um batedor e uma colher, e colocou-a diante dos joelhos. Com o pano, limpou a colher e voltou a colocá-la na bandeja. Pôs o batedor atrás do pequeno lavabo. Pegou neste e colocou-o junto ao pires. Tirou então uma colher grande da prateleira e passou-a à mão esquerda, e, com o pano da direita, tirou a tampa do bule. Agora, puxou um pouco para si a mesinha, meteu uma colher de água na chávena e lavou-a. De novo meteu meia colher de água na chávena e limpou-a com o batedor, e a chávena, juntamente com o batedor, foi colocada em frente do fogão. Em seguida, limpou a mesinha com um pano e colocou sobre esta a chávena. Com a mão direita pegou no bule e entregou-o à mão esquerda. Com três dedos, tirou a tampa do bule e colocou-a numa ponta numa ponta da bandeja; e pôs três colheres de chá na chávena, na qual verteu água. Após ter batido bem a chávena, propô-la primeiro ao principal convidado”

in A ÚLTIMA SESSÃO DE CHÁ, Da Arte e da Morte, Miyamoto Masao

*brocado é um tipo de tecido ricamente decorado, feitos em seda colorida, e com relevos bordados geralmente a ouro ou prata.

GJ

Palavras de livros recentes: uma questão de vocab

Abulia:  (grego aboulía, -as, falta de vontadesubstantivo feminino; Doença que tem por sintoma a perda da vontade.

Aluir:  verbo transitivo 1. Tirar a solidez à base de; verbo intransitivo 2. Fazer mover o que está solidamente fixo; 3. [Figurado]  Abalar; verbo pronominal 4. Vergar.

Lugre:  (inglês luggersubstantivo masculino; [Antigo]   [Náutica]  Embarcação de três mastros sem vergas; (origem obscurasubstantivo masculino [Ornitologia]  Pássaro conirrostro fringilídeo (Carduelis spinus), de plumagem amarela e preta. = PINTASSILGO-VERDE

Arroubo:  (derivação regressiva de arroubarsubstantivo masculino 1. Acto ou efeito de arroubar (verbo transitivo Enlevar, arrebatar, extasiar); 2. Arrebatamento, enlevo, êxtase, rapto; 3. Encanto.

Surde:   do latim surgo, -ere, erguer-se, levantar-se, pôr-se de , aparecer, sair, elevar-se, nascer, crescer); verbo intransitivo 1. Sair de dentro. = APARECER, BROTAR, SURGIR; 2. Sair de onde estava mergulhado ou imerso. = EMERGIRIMERGIR; 3. Ter início. = DESPONTAR, MANIFESTAR-SE; verbo transitivo 4. Aparecer como resultado de algo ou levar a determinado resultado. = DERIVAR, PROVIR, RESULTAR

Rechaçaverbo transitivo 1. Repelir; 2. Derrotar ou obrigar a retirar. = DESBARATAR; 3. Fazer retroceder ou recuar, opondo resistência. = REBATER

Terço: (latim tertius, -a, -um, terceirosubstantivo masculino 1. Cada parte de um todo dividido em três partes.

Relancear:   verbo transitivo 1. Dirigir rapidamente (a vista, os olhos);  substantivo masculino;  2. Relance; vista de olhos;  3. Movimento rápido.

Frustre:  1ª pess. sing. pres. conj. de frustrar.

Impudente:    adjectivo de dois géneros 1. Falto de pudor;  2. Descarado;  3. Desavergonhado.

Tácito: (latim tacitus, -a, -um, calado, silencioso, calmo, sossegado, secreto, oculto);   adjectivo 1. Que não está declarado mas que se subentende. = IMPLÍCITO, SUBENTENDIDOEXPRESSO, MANIFESTO, PATENTE;  2. Que não usa palavras ou a voz. = CALADO, SILENCIOSOPALAVROSO;   3. Que não se mostra. = ESCONDIDO, ENCOBERTO, SECRETO, VELADOABERTO, DESCOBERTO;   4. Sossegado, calmo.AGITADO, TEMPESTUOSO

Candurasubstantivo feminino 1. Qualidade do que é cândido;  2. Brancura puríssima;  3. Embarcação das Maldivas;   4. [Figurado]  Pureza;   5. Credulidade ingénua.

Ebúrneo:   (latim eburneus, -a, -um, de marfimadjectivo 1. Relativo a marfim; 2. Semelhante ao marfim, na cor ou na lisura.

Novena:    substantivo feminino  1. Série de nove dias;  2. Grupo de nove coisas; 3. [Religião católica]  Devoção que dura nove dias.

Areópago:    (latim Aeropagus, -i, do grego Áreios págos, colina de Marte onde se reunia o tribunal ateniense mais importante)   substantivo masculino   1. Antigo tribunal ateniense;  2. [Figurado]  Assembleia de pessoas eminentes.

Alvitre:   1ª pess. sing. pres. conj. de alvitrar;  3ª pess. sing. imp. de alvitrar;  3ª pess. sing. pres. conj. de alvitrar;    substantivo masculino;   Proposta; sugestão; lembrança; parecer.

Coruscante:   adjectivo de dois géneros  Que brilha muito. = FULGURANTE

Trâmite:   (latim trames, -itis, caminho secundário, atalho, estrada)    substantivo masculino   1. Caminho com direcção determinada. = SENDA, VIA;    2. Fase de um processo. = ETAPA;   3. Cada um dos meios ou termos prescritos.

Espúrio:    (latim spurius, -a, -um, bastardo, ilegítimo, falso)    adjectivo    1. Que não tem pai certo ou que não pode ser perfilhado (ex.: filho espúrio). = BASTARDO, ILEGÍTIMO;     2. [Figurado]  Que não está como o autor o fez. = ADULTERADO;   3. Cujo autor não é aquele a quem se atribui a autoria. = APÓCRIFO;    4. Que se falsificou. = CONTRAFEITO, FALSIFICADOAUTÊNTICO, GENUÍNO;    5. Estranho à boa linguagem (ex.: palavras espúrias).CASTIÇO, VERNÁCULO;    6. Contrário às regras. = ILEGÍTIMO, ILÍCITO, INOPORTUNO;    7. Imundo; espurco;   8. [Antigo]  Despojado, privado;   9. [Medicina]  Diz-se da doença a que faltam os sintomas característicos.

Ulterior:    adjectivo de dois géneros   1. Que vem depois, que sucede depois (por oposição a anterior);    2. Futuro, que há-de acontecer

GJ