Bacalhau Basta

A vida não vale nada
e a morte vale ainda menos
mas quando é a nossa vida
vale aquilo que fazemos
desde o dia em que se nasce
até à noite em que se morre
é com aquilo que se faz
que o caminho se percorre
e se a vida é para ser gasta
vamos gastá-la a preceito
para quem é bacalhau basta
para quem é bacalhau basta
mas que seja bacalhau bem feito.

Sérgio Godinho, Bacalhau Basta

Autoretratos / Self portraits

Depois de um longa semana cheia de novidades e muito que fazer no mundo lá fora, todas as horas livres foram passadas da melhor forma, possibilitando-me maior foco. Meti-me a desenhar umas ideias que andavam aqui a pairar há bastante tempo e a relembrar-me que não lhe estava a dar atenção e que estava a ser preguiçoso.

After a long and eventful week with a lot of work all my free time was spent in the best way possible, allowing me to be focused. I began drawing some ideas I had floating over my head for a long time which kept reminding me I wasn’t tending to them and that I was being lazy.

Como sou o meu único modelo, usei-me para praticar desenho de corpo e estudar sombras e texturas, daí que tenham surgido alguns autoretratos, como estes.

As I am my own model I draw myself to study body drawing and shadows and textures, hence the making of these self portraits.

 

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GJ

O vinho

Le Vin des amants

Aujourd’hui l’espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!

Comme deux anges que torture
Une implacable calenture
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!

Mollement balancés sur l’aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,

Ma soeur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves!

Charles Baudelaire

 

Mal acabei a minha última aula, de a ensinar isto é, pus-me a caminho, a pé pelo Saldanha para a Estefânia, descendo para o Campo Mártires da Pátria. Cheguei meia hora mais cedo, senão pelo vinho, que ali servem bem. Em Março, ao frio, um copo de vinho tinto e o último cigarro daquele maço desfizeram a primeira meia hora e As Flores do Mal desfizeram a segunda.

Já chega!, dizia eu a molhar os lábios no segundo copo, nunca mais me apontam o dedo por chegar atrasado seja àquilo que for, eu que aqui estou há uma hora à espera.

Fecho os olhos a beber, fecho os olhos a passar fumo, entre vistas abre-se a porta com um sopro duro de frio que logo se enevoou ao encontrar os bêbedos da casa. Chegou e pediu desculpas, sem dar grande importância, enrolando-se numa história que não me incomodou ignorar, enrolando-se numa história que não me incomodou ignorar. Não somos amantes, não obstante uma e outra tentativas passadas. O vinho clama pelo meu amante longínquo, que me guardava em segredo. Chamei pelo vinho que me lavava a língua o seu nome, seis vezes exactas, parando aquando à hora do fecho pela noite a correr não veio. Gradualmente, o pó estático que sustentava a sua ilusória presença a meu lado assentava no chão e as luzes apagavam-se.

Ao terceiro copo, depois ter articuladamente respondido a todas as perguntas de que se conseguiu lembrar de me fazer, virei o jogo com apenas e tu? Garanto que ouvi até ter a certeza de que um bem ou um vai-se andando fora dito, introduzindo a sequência de insólitas desgraças do costume, ensopando a língua de vinho, que em tons raros de canela me abriam o apetite.

O quarto copo cheirava a Douro. Nas palavras que agora a recordavam o passado em que mergulhei na noite revolta e chuvosa sem me afogar. Sorvi daquele vinho as notas para cantar quatro Stornelli Romanesche aprendidas em tascas, em barcos e bacanais e ainda mais uma, trazida na gota escorrida pelo pé do quinto copo. Più seeeeeemo e mejò staaaamo, tremeu-me na voz límpida pelo aperto na garganta que a assobiava. Do balcão, os velhos bêbedos saíram sem pagar; dos assentos, o casal que menosprezava a intimidade do silêncio ofendeu-se com o regalo barítono que lhes interrompeu a conversa fatigante, o regalo generoso trazido pelo vinho amoroso que tão doce me deixou. Dançávamos em cima da mesa. Juntos dançámos aquela ágil troca de pés que amolgou a mesa de pinho. Caí. Perdi. Carregou-me.

Quanta amargura amaciada pelo mosto sadio! Olhava pela janela ociosa do pendura a Lisboa que já não fazia sentido, chupando dos dentes o último gole de vinho que chamasse o seu nome.

 

GJ

De a) a B) pela zebra

A forma como encaro o decorrer dos desafios e desaires de todos os meus dias pode-se equiparar ao simples acto de atravessar a estrada.

O hábito propõe uma preparação de largos anos, em que antes de me dirigir algures e me cruzar com as gentes e as coisas que desconheço e com as quais coexisto, todos os gestos, todos os actos, me avivam a memória de como chegar de a) a b), cada passa ecoa no corredor para a rua num rufar arrastado avenida fora, que me permite avançar.

Se o caminho está desimpedido, avanço.

Se o meu ritmo se combina com os que comigo se cruzam, avanço, jamais parando.

Se não há travessia, avanço, a meu próprio risco.

Se vindos de várias frontes, os perigos, seguidos, apressados, sigo sem que me vejam, sem interferir, para prosseguir, porque apenas posso avançar.

GJ

24 hour 180º

Deep into the last half hour of Star Wars: Episode III – Revenge of the Sith I was fighting a mighty battle with an insidious melancholic train of thought, eschewing it to the back of the back of my mind, as I pushed harder to focus on the movie. None of us spoke during, we just held hands, lightly caressing each other’s sweaty palms, until you closed your hand tightly, allerting me there was a great scene coming up, but I confess I had lost the battle and hopped on the train.

It started during the previous movie. Anakin stood in front of the Jedi Council and Yoda saw through him that he was filled with fear, which later on made him vulnerable to the Dark Side of the Force. With that Yoda explains further on Fear leads to anger. Anger leads to hate. Hate leads to suffering, and advised Train yourself to let go of everything you fear to lose. Damn that Yoda! I was enjoying finally having a moment only for ourselves, watching and learning about your favourite sequel, I was glued to the screen with enthusiasm, until that peevish booger threw me off the space odyssey wagon onto an utterly uncomfortable box of sharp question marks. It was right there, directly from the speakers to my ears, what I had been avoiding meditating on, thinking about, why I was jumpy to the tought of being away from you. The truth is, we have been away for a while now. For as much as we want to sugar coat it, the last three months were, in reality, 6 days, the sixth being the last one, when I said goodbye at the bus stop and watched it take you home. There’s a gap fundamentally unspoken here, you get to go home and I get to mend myself for a couple days until I can focus on something else, misplaced in a house with a profound lack of familiar warmth.

After Master Yoda’s quaint observation I delved into it concerning our situation, whilst trying to, at least, understand what was happening in the movie. So, Anakin burned, Amidala gave birth, Lord Vader was created, I had been afraid of moving far away from you and was worried about the costs of my absence,  about the distance, the constant longing, the wistful thinking, the fear of losing you to the distance. You see, miracles in my life happened by you. I don’t matter.

I joined you for lunch, which was left unattended ‘till late that day, before the movie marathon, followed by the short in time yet rich in intensity night which rendered a mellow morning with it’s contractual hour of bleak bliss, denial and love making. We watched The Force Awakens and we didn’t spoil the leading moments to your departure speaking about the distance. Later that night I watched Fellini’s Satyricon, chewing my tongue in distress for not having heard word from you since…

I pray I can learn to let go, but not so much you won’t know how much you’re cared after, for your staying found with me is your personal freedom and my mission.

 

GJ

Dois cafés, um em chávena escaldada

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Se estivéssemos agora a tomar café pedias-me para ir tirar e encher dois copos com água do balcão, para pagares os cafés sem que eu resmungasse. Ficaríamos dentro do café e não na esplanada, na mesa do canto, de frente um para o outro. Terias voltado e estaríamos a falar sobre aquele filme de ficção-científica com aliens e uma Linguista, do outro filme que não é bem Star Wars mas sim uma história paralela, sobre o castelo medieval que estão a construir em França e que vai levar mais 25 anos até estar totalmente erguido, sobre a vergonha que foi a organização dos Jogos Olímpicos e depois, por falar em Brasil, sobre os confrontos entre professores e estudantes com a polícia no Rio de Janeiro, só depois disso contaríamos as novidade boas e más, um diálogo que temos aperfeiçoado, intercalado por olhares cruzados, um sorriso encavacado e um amo-te. Porias a tua mão sobre a minha e falaríamos abertamente de como nos sentíssemos, até o tempo parar nos teus olhos doirados e a bolha estar restaurada. Dali partiríamos para um qualquer passeio, amando-nos pelo caminho, parando para almoçar, descobrindo mais um do outro, um sobre o outro, sem a hora da partida.

Não passaria pelo embaraço de te dizer acerca da minha solidão, não estaria disperso por demais tarefas que me mantivessem no sossego apartado do calor, apressado correr a lista da minha rotineira manhã para começarmos a nossa, enfim, seria a minha prioridade – se hoje te tivesse recebido. Especialmente hoje, que abalou o aperto e se acomodou a pachorrenta alma de lavrador, pois que se por um lado te espero fazendo dos dias poucos segundos, cultivo essa solidão para dela recolher sustento.

É esta a sólida distinção entre solidão e estar apenas só, em que o espírito arde num firme fio para o absoluto no resoluto lavor, e não soprado pela falta. Solidão é meu repouso e meu lar.

Assim seria, ficção ou não, se tivéssemos tomado café hoje.

GJ

Dois cafés e dois copos d’água

Se estivéssemos a tomar café agora eu resmungaria acerca da desnecessária controvérsia do copo d’água ou do copo com água iniciada pela mulher do café mais cheia de chavões do que discernimento. Enjorcarias a tua expressão de carneiro mal morto ao mesmo tempo que revirarias os olhos, a concordar comigo, ainda à procura da cigarreira e do isqueiro. Eu passar-te-ia o cinzeiro e guardaria o livro que teria estado a ler meia hora antes de chegares atrasada, porque o café estaria marcado para as quatro e, farto de esperar, decidi entreter-me. Perguntar-me-ias se não fumava, pelo que teria finalmente oportunidade de partilhar contigo que esse foi outro vício que larguei, faz hoje exactamente três meses.

Tenho a certeza que me apoiarias nessa decisão a dizer que também deverias deixar de fumar, distorcendo a questão para concluíres que no fundo não vale a pena, que sempre soubeste que te seria prejudicial e que não era agora que te ias armar em hipócrita, além de que o café te sabe mesmo bem é com o L&M vermelho do costume. Rir-me-ia com um toque de escárnio da tua observação sobre costumes. Costumes esses que, tal como os vícios, te envolvem numa temporária e exaustiva segurança. Já estarias a olhar para o lado a bafejar, a fazer perguntas desinteressantes a lamentares e facto de já nem teres pachorra para escrever, nem teres assunto para escrever, no fundo, a preparar o terreno para te sentires à vontade para falar sobre ti, sobre o verdadeiro motivo de estarmos a tomar café. Aquilo que não te saberia dizer, por não saber como sem nos deixar em absoluto constrangimento, é que tu precisas de deixar a conversa da coitadinha de lado, que já sei que encornaste o pobre moço porque já não se amam há bastante tempo e que tens vivido uma mentira por teres medo de estar sozinha, mas o outro deu-te tusa e começaste a repensar a tua vida – e quando tomaste uma decisão, não só não te correu bem como ainda pior do que poderias ter esperado. Eu sei disso tudo e não te julguei nem uma única vez, nem quando me perguntaste o que achava se te envolvesses com outra pessoa, estando ainda a reatar uma relação abalada, em que te insultaste a ti própria por considerares tal hipótese. Não te julguei quando, depois de cederes às tuas necessidades, desapareceste, muito menos quando soube que me evitavas por vergonha do que poderia achar de ti. Outro dos vícios que tinha largado aquando a nossa última conversa foi opinar sobre sentimentos que não são os meus.

Começarias por quebrar o silêncio, depois de esmagares a beata contra o fundo do cinzeiro, quente nas pontas dos dedos, queixando-te da falta de tempo para tudo e que não tens feito mais nada senão trabalhar. Eu compreenderia. Dar-me-ias mais não sei quantas razões, eu compreenderia. Nunca me falarias sobre o que te aconteceu, mas far-me-ias entender que estarias a sofrer. Eu mudaria de assunto para as minhas novidades, e daqui para a frente esse assunto não surgiria de novo em conversa, não por ti, mas sim porque não me incomodo em viver no passado.

Já depois de te fazer rir, a mostrar os pequenos dentes presos numa muito roxa gengiva, veríamos as horas e seria já tarde para ti, estaria na hora de ir embora. Despedir-nos-íamos com um beijo na bochecha e um vago até breve, para continuarmos a seguir os nossos caminhos distintos. Assim teria sido, se tivéssemos tomado café.

 

GJ