Colher

Dei ao mar, caído da minha jangada desenlaçada pela minha própria mente turbulenta.

É certo, antes de arar queria colher como antes de perguntar queria já saber. Quis sempre vencer a corrida contra mim mesmo e adivinhar-me antes de o tempo ter corrido. Colher-me-ia o tempo ainda desmentido, que não existia, e voltaria para me questionar ininterruptamente e estar todas as vezes errado, todas as vezes todas as manhãs, todas as perguntas respondidas, todas as certezas desfeitas. Esta eternidade teve um fim contigo. Quando me mostraste a cor da minha pele e a vi clara como água aceitei a vibração do laranja que me ardia na vista turva da água salgada, quando mergulhado estive, quebrados a cada nó da maré os meus ossos, sargaço do mar, quando me colheste e respondeste à pergunta que se afogou comigo, trouxeste a manhã irrepetível.

Juntos desmentimos o tempo, repetimos manhãs em que buscamos tudo do conhecimento e ficamos em flor e ora em fruto, nos ramos rebentamos em flores, e então em frutos.

GJ

Shlamit: o início de um projecto

Dando lugar na minha prioridade a um projecto que tem vindo a maturar reuni a minha pequena e amiga equipa e fotografei a modos modernos uma figura do imaginário épico e amoroso bíblico. Aprofundarei o espectro do amor incondicional em tempos selvagens e escravatura.

Ficam aqui alguns frames em gif, para mais um cinemagraph :)

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GJ

Solidão sem Tempo – as cartas de amor, o sentimento e o intelecto IV

A última vez que te amei, lembro-me bem, foi a última vez que te vi.

Desfiz-me das chaves, não queria, mas pus-lhe um ponto final. Isto é só o começo, a seguir és tu. Podes ficar como estás, hoje sinto um despudor engraçado, a verdade sai fria. Entre nós há uma meia estação, eu estou frio, rigor mortis, tu ardes em raiva, vergonha e medo. Sei bem quando te desequilibraste, essa é a minha verdadeira perversão. O meu silêncio foi perverso. A minha sobrevivência sobre a tua foi a minha premissa, desde o início.

Eu sou desequilibrado, mas quem não o sabe? Tu? Tu sopraste as velas do meu barco, mas não içaste âncora. Se toda a conversa de engate; todos os preliminares; todos os meses; todos os risos; todas as obsessões; todos os delírios; todas as amarras; guerras e fodas não me garantiram, porque pensas tu que fico por ti, se me queres sozinho? A verdade é que eu te menti tanto que me fiz acreditar. Acreditar que me preocupava, que perdoar significava algo, que me ralava com terceiras oportunidades. Desisti tão antes de me declarares guerra. Desisti de mim contigo, sem desistir do teu calor e do teu desejo. E tu tal e qual, queres que pague por tudo, que fique a teus pés. Desequilibrei-te quando te desfiz os planos.

No fundo, julgaste ver uma presa. É uma bela metáfora… a caça foi intensa… e por aí fora. Estou farto da mesma memória, são todas iguais. Os mesmos erros, conversas, circunstâncias, tentativas, prazeres, vezes sem conta. No fim aprendi.

– Vamos para a frente, o que tiver de fazer para te ajudar será a minha missão – Antes de te deixar ao sol, tentei e falhei. A prematuridade entre nós foi real, guiou-nos do princípio ao fim.

Não te ouço falar, muito menos sobre fazer amor. De modo geral falas demasiado. Fala com o corpo, fala com moderação, cala. Falhas de comunicação… não me posso esquecer, jamais. Podia bem ter sido a causa do fim, mas tudo foi jogo, por isso, não.

Vais para Moscovo. Vais para Londres. Vais para Madrid, Alicante, Setúbal e Algarve. Sem cabeça nem passaporte. As propostas foram todas pelo ralo, menos a do Juan, que te quer levar para longe das tuas mágoas.

Estás bem roído, não que tenha visto com os meus olhos. Falhaste-me a tua última promessa, desperdiçaste o teu engodo todo, duma última e inesquecível vez. Senti-me bem assim, frio como já era, mesmo depois. As tentativas desesperadas de me derrubar foram vãs. Senti-me mal, por ti.

Já foste. Só não menti quando te desejei o melhor, quando disse que te amava, que não voltávamos a falar. Ao questionar a veracidade da minha despedida, bem, parece coisa de louco. E creio bem que seja, porque não saber amar é doentio.

GJ

Solidão sem Tempo – as cartas de amor, o sentimento e o intelecto III

Hei-de voltar atrás só para compensar este esforço.

Acabei de chegar, estou, por fim, em casa. Já te vou avisar que estou vivo e ainda a viver no mesmo sítio, vivo. Quero antes disso deixar cair a ficha e perceber que estou mesmo em casa e que estive onde estive. Não acredito bem que me encontrei contigo há três dias e que os passei contigo, como se nada se passasse e como se de nada soubesses, nem de nenhuma das consequências. Acredito que não queiras saber, em circunstância alguma, do que te distancia da meta final. Segui-te, pela noite seca, noite dentro e rua fora, pelas putas das Amoreiras e pelas putas do parque, pelo vazio das ruas. Acordei uma vez contigo, longe, encostado à parede, já com o sol alto na cara, doía-me a garganta do tabaco, da gritaria, do vinho. Doíam-me as costas da nossa luta. Doíam-me as pernas de caminhar sem forças. Doía-me a cabeça. Antes de acordares já planeava o caminho para casa. Acordaste com planos feitos, planos que desconhecia, mas que me iam roubar para longe. Fomos longe, fomos mais longe que a tua imaginação, porque nos permiti. A viagem foi longa, Palmela é longe como o raio. Voltaríamos nessa noite, depois dos caracóis, dos teus irmãos mais novos, da tua mãe, do teu padrasto, depois de mais uma tentativa. Depois dos irmãos que gostas de ver pobres e indefesos, da mãe que te fez amar assim, do padrasto que nada te é. O teu pai enchia-te de porrada se te ouvisse falar assim e beijava-te a cara. Ficámos para copos e para a festa, jogámos às escondidas, eu ganhei e bati com a cabeça, como é do meu hábito ébrio. Levantei-me a rir, tu riste-te de mim e deste-me a mão. Jogámos à bola, transpirámos e caímos um bocado para o lado, no alcatrão morno da noite abafada, de céu avermelhado e limpo. Agarrei-te pelo casaco e puxei-te para mim, beijei-te na rua, sim, ao ar livre, e não estávamos sós, nem escondidos. Era a tua casa, jogaste em casa e deste-me carta branca. Acabou o jogo, já tu sabias que perderia, se fosse preciso. Era preciso acabar. Acordámos antes de todos, ainda podia telefonar, para dar mais vida à minha mentira. Era procurado, observado de perto, tu sabias porque te contei os meus crimes e castigos. Doíam-me as costas. O autocarro demorou a chegar, fingi dormir até chegarmos à gare. Não falámos. Largámos as mãos escondidas assim que as portas abriram. Virei costas, soube-me bem ir embora. Depois do metro; depois de S.Sebastião; depois da prisão; depois de Campolide; depois da noite passada; depois das promessas e da prisão; depois do pedido; depois da expectativa; depois do sim desinteressado: doíam-me terrivelmente as costas. Um beijo invalidou a excitação de três dias à deriva. Foi o meu coração a abrandar, os meus dentes a descolar e as minhas dúvidas apaziguadas, porque por pior que seja, saber que me dá mais paz do que incerteza, deixar-te ir -só o pensamento, a hipótese – ajudou-me a respirar com tamanha franqueza. Sorri.

Tenho de limpar e arrumar, já te digo alguma coisa. Vou tomar um duche quente e lavar os dentes, ainda.

Lembras-te? Chovia bastante, já estava escuro, estávamos cheios de fome e descemos da esplanada da Pollux para a Rua Áurea, e lá contaste-me as tuas aventuras e desastres, que ainda acho algo fictícios. Apaixonei-me pelas tuas falhas de personalidade, pela vida que levavas, por estarmos no mesmo ponto de chegada e de partida, pelo simples facto de não te querer. Dormimos juntos, nessa noite. Quis-te mais tarde. Não te quis mais a ti do que tu a mim, nunca. Não te dei o que querias. Querias ganhar e levar o que não é teu. Puro capricho. Tal como não fui teu, também te amei. Não dei atenção ao teu jogo e fizeste tanta birra. O teu corpo deitado a meu lado não me roubou de mim mesmo. Amei-te sem me atirar da janela e isso não é amar. Pois, talvez não seja. Só sei amar desta maneira, em que estou à tua frente, firme para o que der e vier, e para toda a ocasião, sou teu sem nunca to dizer nem saber.

Já cheguei, vou descansar!

Merda para mim? No entanto, ambos sabemos que não vai haver luta.

GJ

Solidão sem Tempo – as cartas de amor, o sentimento e o intelecto II

Olá, como vais,  como estás,

pois, sim, não, é capaz,

está frio e faz sol,

fica antes debaixo do lençol,

tens fome ou sede,

tens preguiça ou vontade,

sais da cama e falas,

ouves e calas,

vê o que te trago,

tralha tua metida num saco,

sem mais demoras,

e porque só te vejo as costas,

vou-te deixar, que assim já ouves,

que estamos em núpcias podres,

e para terminar sem classe ou beleza,

vou pôr as cartas na mesa,

cago para ti e para o que queres,

para como jogas, para os teus interesses,

ser infeliz por uma semana mais é melhor,

do que receber o ódio a que chamas amor.

 

GJ

Solidão sem Tempo – as cartas de amor, o sentimento e o intelecto I

SolidãosemTempo
SolidãosemTempo

   Sei quem és, sei que aqui queres estar, cair da sétima nuvem para o meu prado, falecendo ao acordar da manhã, seguir o relógio de sol com o coração resplandecido, contanto nós, plácidos, os batimentos unidos, o tempo feliz.

   És paixão, subirás e vazarás como a maré, mas sente-me, vê-me, impressiona-te estúpido com a insubstância do tempo da paixão, e verás que a paixão não tem de acabar.

   Não sei de mais ninguém, sorrio nesta luxúria sozinha do amor que se foi, que me tempera o corpo… a felicidade adoça, a paixão ferve o sangue. Amar faz o homem.

    Para ser maior, serei estátua, se o tempo pára e ganhas substância.

GJ