Bacalhau Basta

A vida não vale nada
e a morte vale ainda menos
mas quando é a nossa vida
vale aquilo que fazemos
desde o dia em que se nasce
até à noite em que se morre
é com aquilo que se faz
que o caminho se percorre
e se a vida é para ser gasta
vamos gastá-la a preceito
para quem é bacalhau basta
para quem é bacalhau basta
mas que seja bacalhau bem feito.

Sérgio Godinho, Bacalhau Basta

Seis anos de salada

1996 na história foi um ano bissexto, para muitos terá sido mais um, provavelmente para os meus pares pouco relevante para além de brincar na rua ou, para os mais afortunados, TV a cores e jogos de vídeo. Também foi o ano da Malhação, do prémio Nobel da Paz atribuído a Ximenes Belo e Ramos-Horta, do Nobel da Literatura da poeta política polaca Szymborska, da grande perda que a morte de Carl Sagan representou, bem como a muito chorada morte de Tupac Shakur. Para mim foi a morte da minha avó, a mulher que cuidou de mim nos seus últimos anos de vida e fez questão que eu soubesse o que era ser amado, ouvido e respeitado – embora a memória mais berrante seja a de ser completamente livre ao lado dela, ter asas para voar – ela nunca temia e eu nunca vacilava.

Lembro-me de uma tarde com a minha avó, no quarto dela, de gritar e fazer birra porque ela me estava a trocar a roupa, ou algo assim – devia ter-me cagado todo enquanto estava a brincar -, enfim as coisas de que as avós normalmente se encarregam de fazer. A minha birra consistia em ter sido interrompido do que estava a fazer e que queria fazer sem demoras. Ser parado e preso para executar uma tarefa perfeitamente adiável aborreceu-me. Então, para meu desgosto enquanto homem que sou a lembrar-me do que disse, esperneei e gritei um muito malcriado e ingrato ‘deslarga-me estúpida’, corri porta fora para o quintal, depois de ela me ter abraçado, beijado a bochecha e ajeitado a farta e negra cabeleira. Maltratada pelo menino dos olhos dela respondeu ‘ninguém te está pegando!’ Já lhe tinha fugido das mãos, senão tinha apanhado, olhava para trás enfurecido, para ela, que se mostrava zangada e dizia ‘ai o menino se é malcriado!’ com um ligeiro tremor de riso na voz, rindo-se da minha postura de selvagem inofensivo, tirando grande gozo daquela figurinha. Na verdade, pela boca da minha mãe, filha dela, soube anos mais tarde que o que a minha rica avó dizia gostar aqui do menino era da ruindade e doçura constantes.

O facto é que estava enfurecido, no quintal, olhando para trás, ainda a sentir-me no direito de ter agido para defender os meus interesses, muito embora também me sentisse, para mal do meu orgulho, arrependido e zangado comigo mesmo por a ter desconsiderado. Leva-me finalmente a perceber que passados longos anos e muito ter mudado desde então ainda reajo como uma criança reguila e birrenta com aqueles que me amam e que eu amo em reciprocidade, aqueles que eu também tantas vezes magoo. Saber que me amam, anos depois desta memória, é uma arma que ainda uso em meu favor para poder transgredir sem culpas ou sem me perguntar acerca das consequências. Ser amado tão livremente deixou-me o gosto de ser mimado, levou-me a crer que faça ou diga o que for, permanecerei impune. Tal não aconteceu e não acontece.

Voltei atrás, meti-me debaixo da janela do quarto, eu era ainda muito pequeno, tinha três ou quatro anos, mal chegava ao parapeito, aliás mal passava da risca azul daquela enorme casa caiada, mas já tinha boa voz e fôlego, pedindo desculpa, chamando por ela, até que ela apareceu e me pediu a mão para me levar para dentro, para sair do sol. Era verão em Beja, o chão e o quintal estavam cheios de ameixas, pelo menos as que não conseguíamos apanhar, que amadureciam nos ramos e caiam, esborrachando-se contra o solo e lá apodrecendo.

Um dia a minha culpa por sentir que não tinha feito o suficiente não a trouxe de volta e todo o meu amor se fez sentir na sua ausência, não fazendo qualquer diferença, depois de ter morrido na minha cama. O encanto desta história é ela, não eu, a maravilha foi feita por ela apenas, e é a ela que dedico a minha solarenga e livre infância. Assim foi a descoberta do mais puro amor, a ruptura da inocência, a descoberta  da perda irremediável. Assim foram os seis anos de salada.

 

GJ

Daniel, o inexplicável e o mortífero

 Há tanto por explicar e não tarda já o poderás entender por ti mesmo…

   Daniel, jóia em bruto, cuidado com as barreiras que te surgirem: terás de passar por elas, mas não poderás voltar atrás. Acrescento ainda que sempre terás barreiras onde quer que vás. Deixa-me, com os tiques de alguém de grava história em pedra, registar as idades que vivo e com isto advertir-te, para que não te interponhas tu mesmo entre as barreiras e o resto… Todas as barreiras são necessárias para te lembrares de quem és. Algumas ficam fatigadas com o tempo, não se reerguem.

Sobretudo, mais grave ainda que qualquer auto flagelo: não compliques. Criares as tuas próprias barreiras é um atentado contra ti mesmo. Que cries barreiras ao que sentes é inútil, não há nada que pare uma emoção, senão a morte. Se tentares e te esforçares para impedir as tuas emoções de serem reais, elas matar-te-ão. Exprime tudo, até a moderação… não existem motivos suficientemente fortes para te impedir de assim o fazer, nem mesmo a ameaça, nem mesmo a opressão, nem mesmo a morte que te possa custar. Estarás morto de qualquer forma. Não te permitas viver morto. Vive sempre sem outra opção. A liberdade é daquele que se sabe aprisionado, seja qual for a prisão. Foge dos moralismos: enquanto vivemos entre humanos, sejamos humanos, dum inter homines sumus colamus humanitatem.

Testa-te, surpreende-te, fere-te a quebrar barreiras, nem que as quebres ao cair. As boas escolhas também se aprendem ao escolher mal. Vive e prossegue com graça. Todo o arrependimento que te causares, foi uma escolha difícil… e que mal te fará? A felicidade que queres pode ser a amargura que mais evitas. Liberta quem te deixa. Sente saudades e perde a esperança do ideal. Perdoa este pequeno e barulhento pedaço de terra – a minha, a tua.

GJ

Porque me sinto zangado pt II

A pergunta persiste.

Pergunto-me a mim mesmo, perguntam-me outros ao través dos anos, e eu resisto e engulo a resposta, porque a idade era tenra e o tempo da liberdade ainda não era. A resposta, a explicação da minha zanga esquizofrénica, que ora é, ora se esquece de ser, é o trauma da esperança e do sonho, o desejo de concretizar ideais, a promessa que fiz a mim mesmo de tudo da minha mente construir e criar. Mas que os meus pares me passem ao lado e sejam jamais, e se esqueçam de novo de perguntar, porque os ignoro hoje se ontem os quis revisitar. Mete-me nojo visitar-vos, ver-vos de um passado que não floresceu, quando a minha dolorosa e inevitável missão ao través dos anos é ser eu.

Pergunta-me hoje porque estou tão zangado assim, deixa-me ter espaço e tempo para responder e entre tudo o que os meus pés e punhos podem partir e em pedaços explicativos ajudar a minha a desenrolar, dir-te-ei com a mágoa de deuses fora do devido altar que à flor da pele a natureza me fere de urgência de ser livre – E EU AINDA NÃO SOU LIVRE – que todo eu sou cansaço, que da mediocridade sinto o peso do tempo, o peso do tempo atrasado, irreparável inércia que me rói os dentes, obstrui e constrange as válvulas, a culpa da fraqueza piora a dor de cabeça, e a raiva animal, viral, lança-me ao ataque, à sabotagem de tudo o que representa futuro, e de tudo isto resta-me zanga, mágoa e raiva. Fazer para quê? O quê? Em troco de quê? Por quem e porquê? Com que garantia do bem estar da minha sanidade? Com que posses? Por que cedência? Resta-me sair ao mundo todos os dias a realizar a minha missão e ser rodeado de apoiantes, que levam o que gostam de ver, e regresso eu sozinho, ainda a ser o que sou e mais não me consigo suportar, a minha mágoa, a minha zanga, a minha raiva. Zangado, silvos de medo, encolhido a um canto, solto estes avisos para que tenhas precaução: não sou o que tenho de ser e sou um acumular daquilo que nunca quis ser. De mim não vejo mais maravilhas, de mim não espero mais sonho, de mim apenas tenho fuga, reclusão, solidão, inércia, caluda e falta de sono.

Correram os anos e mantive o meu olhar certeiro na estrada contínua. Omito aqui os tropeções, os achados e outras recordações, a estrada é longa e longa deveria continuar a ser até chegar onde quisesse, porém a estrada acabou precocemente e a meio a minha música ficou. Como poderia eu continuar a alimentar o boato da minha loucura? Observa, vê que a minha revolta não pode ser menor nem silenciosa, como retomo a minha gritaria! O som abandonou-me e eu faço melodias e ritmos contra uma parede que não consigo escalar, para incomodar quem me ouve, até fazer o cimento estalar. Perdidas estão as cornetas que abalaram as muralhas de Jericó e perdida está a doença do coração deste homem que antes, consumido pela esperança, pensou poder existir, porém agora, livre do veneno, se indigna com o a priori que lhe diz que só pode ser… É o meu único luxo .

GJ

– editado, 14/08/2016

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Entro nas memórias vívidas que se desenterram sozinhas, dum passado cálido e distante como um sonho, da infância como lugar único que vivi em despudor e despreocupação, e memórias que me são inacessíveis, encobertas por finais alternativos recriados pela perturbação que causam ao íntegro presente. Há um lado fabuloso nos dias que vivo, que sorriem, quando distraído em pensamentos e regressões, que afogam o olhar, quando ressaltam os pensamentos proibidos, em que vejo, balbucio e escuto o mal, assaltado por repressões, transgressões e limites, fios de navalha, memórias vivas fora do corpo, corpo vazio e bobo, corpo rubro e alma morta.

Anseio dirigir-me palavras de amigo, destapando os anos que me esqueci de ter vivido, inundar a lacuna, a vala dos defuntos actos legítimos e irascíveis, para me devolver a clareza da visão, para me trazer a união do todo que tenho vindo a planear e a arrumar em inventários selectos da minha mente pouco afectada, definhada, a fronte da minha paixão ardente que foi incendiada por derrames contínuos do combustível que há muito da fonte havia parado de jorrar. Anseio poder ser o todo que me coloca no invejado lugar daquele que se conhece e se aceita. Anseio não temer… e, no entanto, quando me sinto bravo, é a ânsia me faz tremer.

Há muito que me ecoa a visão clarividente que me garante que morrerei em breve. Só sei que poderei morrer quando me torno uma perda. Como poderia ser uma perda sem ser de alguém pertença? E se alguém me tem, a alguém me terei dado. Quem me pudesse perder, sofreria algo como uma perda. Não temo a morte, pelo que tal pânico é extra irracional, dentro da racionalidade que estimo e tão bem cuido para compreender os caprichos dos meus medos, fixados em solos arenosos. Temo e inundam-me os olhos de melancolia a perda de quem sou aos olhos de quem me tem, que me poderá perder para a rigidez rigorosa, sem ter sido lido, sem me ter aberto, sem ter lido aos donos do meu afoito coração de criança desconfiada crescida os mandamentos do real inquieto desnutrido, desiludido, alienado, adormecido. A fábula é a mais extensa, infindável peça que ainda não tive o atrevimento de deixar a meio. E que mentiroso eu sou.

E que mentiroso eu sou.

A mentira que me atrevo a reconhecer é a nova farsa que crio para esconder a verdade do que julgo entorpecer pela reprovação. A mentira é a verdade e a verdade a ternura, a compaixão da mentira… e há uma lava que se verte pela lava extinta, o vulcão que me cava de novo o peito pela alegria que tenho em me ver desfeito das minhas teias de controlador do universo. A minha liberdade só chega quando sou detido. Preciso da prisão para ser livre. Preciso de não ser, para ser livre. Continuarei livre de amarras para me prender a uma única expressão: a do caos unificador que me faz anémico e tranquilo para os donos do afoito coração de criança desconfiada desiludida, ardida.

E que amoroso sou eu. Quem em amores desmesurados me quero derreter eu. Derreter em lava e perdição, derreto-me, eu.

Apaga-me e desunha-me, deixa as crostas para nunca mais ver a ferida.

GJ

contemplando