Calma Inquieta

‘Lá está ele a olhar para nada’, pensou ela ao se deparar com aquele homem ausente, de novo, estático no meio do corredor. ‘Estás à procura de alguma coisa?’, perguntou-lhe, pondo-se de frente para ele. Virou-se para ela, lançando um olhar agora atento para o fundo do corredor, não reparando sequer na sua  presença. Algo o chamou à atenção, e, pelos vistos, não foi a voz interrogativa. Alguém tinha entrado e a expressão vaga enrugou-se. ‘É tão transparente e tão misterioso, ridículo.’

Sentia simpatia por ele, sentia até mais curiosidade que simpatia. Para um homem tão falador como ele, é estranha tamanha ausência. ‘A não ser que recebas correio no escritório, não há ali nada para ti! Era bom que fosse o nosso almoço…’ – suspirou, sacudiu o cabelo solto, olhou-o de soslaio – ‘Acorda, pá!’ – empurrou-o com a ponta dos dedos, tentando sacar alguma reacção. ‘Sim, está tudo bem. Estava à espera de… sei lá eu de quê… Vais almoçar?’ – respondeu-lhe, saindo do aparente transe. ‘Sim, vou agora’ – avançou para a varanda – ‘mas vou primeiro lá fora’ – tirando um maço do casaco e estendendo-lho – ‘queres vir?’. ‘Já vou ter contigo.’- disse com firmeza. ‘Deve ser grave, para ter saído do cubículo dele…’ – pensou – ‘e que olhos são aqueles? Se não o conhecesse bem até diria que tinha cheirado… ou que tinha chorado… mais a primeira que a segunda hipótese, mas enfim’ – e riu-se com a sua constatação, soltando um bafo sonoro, disforme e trapalhão, tentando esconder o riso com a mão. Começava a fazer frio, lá fora, acariciou os braços procurando aquecer-se, deu um último bafo, atirou o cigarro, lançou a cabeça para trás e soltou o fumo vagarosamente, soltando um pouco de cansaço e um pouco de desespero. Viu-o passar e foi ao seu encontro, na esperança de ter a atenção dele, sem sucesso.

Voltou algo acelerado ao cubículo, sentou-se, pôs os pés em cima da mesa com brusquidão, e espreguiçou-se, deixando cair os braços relaxados ao lado do corpo quase deitado na cadeira. ‘Relatórios; listas; e-mails; processos; falar com o gajo dos pagamentos’ – enumerou mentalmente. O tecto estava manchado pela humidade. O tecto estava manchado e apenas esse pensamento roubava a sua atenção. Observando os desenhos nos cantos da sala, apenas deixando-se consumir pela insignificância dos desenhos da humidade, assim se deixou ficar. Não dormiu, não sonhou, não fantasiou, apenas permitiu que a sua cabeça deixasse de funcionar. Afinal de contas é esse o seu mal, levar os pensamentos à exaustão. ‘Não sei se deva acordar ou dormir,’ – confessou – ‘não sinto nada do que está à minha volta. É tudo tão igual e imutável. É tudo tão igualmente inefável, não faz lá muito sentido. Mais do que uma vez me perguntei, só esta manhã, se estaria num profundo estado de sono, ou coma… Isso justificaria esta confusão e apatia… este terror paralisante.’ – ainda encarava o tecto, boquiaberto, deslizando, flácido, pela cadeira. A falta de vida no olhar agravava-se nitidamente, a cada dia. Tentava em vão acordar, repetidamente, no sítio onde adormecera há muito, muito tempo.

Deslizou da cadeira, caindo de frente, batendo com a cara no chão, dormente, incapaz de amparar a queda, com uma perna caída e outra em cima da mesa. Um espetáculo deprimente, se me permite dizê-lo. Que infelicidade a de viver inconscientemente. Que infelicidade a de viver um sonho sem experimentar o impossível.

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