Dopamina

Sendo feliz quanto baste e não sendo triste, estou normal. Tenho saudades da minha dopamina. Para os menos conhecedores ou não tão fãs de neurociência, a dopamina é um neurotransmissor, estimulante do sistema nervoso central. Estímulo, prazer e vivacidade estúpida, é o que dá a dopamina. Dá muito jeito para sorrir, para correr, para trabalhar e foder bem. A vida é melhor com níveis equilibrados e produção saudável de dopamina.

O médico disse que há alimentos que estimulam a produção de dopamina, incluindo feijão, mas eu sou mais de comer torradas e café para levar, e depois vê-se. Talvez passe a comer sopa nos tascos que vou encontrando por Lisboa, daquela temperada com a imprescindível rodela de linguiça rançosa. Então ele disse-me que não tenho mais dopamina porque gosto muito de beber café e que o chocolate não substitui uma boa dose de alegria. Ele lá com aquela fala mansa o que me disse, na verdade, foi que não sou mais feliz porque gosto muito de não ser feliz. Pareceu-me uma grande falácia, mas a correlação era algo lógica. No entanto, já que sou um tipo razoavelmente vazio de emoções fortes, não compreendi. Ele receitou-me alegria, deu-me uma palmada seca nos ombros, olhou-me nos olhos e contraiu os lábios, que se enrugaram, como um ânus rosado. Fiquei algo confuso e uma certa adrenalina reagiu ao meu medo e retirei-me vagarosa mas maquinalmente da frente dele, para fora do escritório.

Sem mais vontade do que o costume adquiri uns comprimidos hermeticamente fechados num frasco, inócuos, jamais tocados, alinhados e uniformemente redondos, lisos e brancos.

Até ver, mal não me fizeram, e já me vim duas vezes, entre refeições, hoje. Já passo bem sem jantar, mas vou começar e acabar todas as tarefas da semana, que já é Segunda-Feira, mesmo que seja Domingo.

O que me faz feliz não me tira a tusa, por isso ainda me venho de novo, quando sair do meu transe.

Um suspiro e um cigarro. Já está.

Calma Inquieta

‘Lá está ele a olhar para nada’, pensou ela ao se deparar com aquele homem ausente, de novo, estático no meio do corredor. ‘Estás à procura de alguma coisa?’, perguntou-lhe, pondo-se de frente para ele. Virou-se para ela, lançando um olhar agora atento para o fundo do corredor, não reparando sequer na sua  presença. Algo o chamou à atenção, e, pelos vistos, não foi a voz interrogativa. Alguém tinha entrado e a expressão vaga enrugou-se. ‘É tão transparente e tão misterioso, ridículo.’

Sentia simpatia por ele, sentia até mais curiosidade que simpatia. Para um homem tão falador como ele, é estranha tamanha ausência. ‘A não ser que recebas correio no escritório, não há ali nada para ti! Era bom que fosse o nosso almoço…’ – suspirou, sacudiu o cabelo solto, olhou-o de soslaio – ‘Acorda, pá!’ – empurrou-o com a ponta dos dedos, tentando sacar alguma reacção. ‘Sim, está tudo bem. Estava à espera de… sei lá eu de quê… Vais almoçar?’ – respondeu-lhe, saindo do aparente transe. ‘Sim, vou agora’ – avançou para a varanda – ‘mas vou primeiro lá fora’ – tirando um maço do casaco e estendendo-lho – ‘queres vir?’. ‘Já vou ter contigo.’- disse com firmeza. ‘Deve ser grave, para ter saído do cubículo dele…’ – pensou – ‘e que olhos são aqueles? Se não o conhecesse bem até diria que tinha cheirado… ou que tinha chorado… mais a primeira que a segunda hipótese, mas enfim’ – e riu-se com a sua constatação, soltando um bafo sonoro, disforme e trapalhão, tentando esconder o riso com a mão. Começava a fazer frio, lá fora, acariciou os braços procurando aquecer-se, deu um último bafo, atirou o cigarro, lançou a cabeça para trás e soltou o fumo vagarosamente, soltando um pouco de cansaço e um pouco de desespero. Viu-o passar e foi ao seu encontro, na esperança de ter a atenção dele, sem sucesso.

Voltou algo acelerado ao cubículo, sentou-se, pôs os pés em cima da mesa com brusquidão, e espreguiçou-se, deixando cair os braços relaxados ao lado do corpo quase deitado na cadeira. ‘Relatórios; listas; e-mails; processos; falar com o gajo dos pagamentos’ – enumerou mentalmente. O tecto estava manchado pela humidade. O tecto estava manchado e apenas esse pensamento roubava a sua atenção. Observando os desenhos nos cantos da sala, apenas deixando-se consumir pela insignificância dos desenhos da humidade, assim se deixou ficar. Não dormiu, não sonhou, não fantasiou, apenas permitiu que a sua cabeça deixasse de funcionar. Afinal de contas é esse o seu mal, levar os pensamentos à exaustão. ‘Não sei se deva acordar ou dormir,’ – confessou – ‘não sinto nada do que está à minha volta. É tudo tão igual e imutável. É tudo tão igualmente inefável, não faz lá muito sentido. Mais do que uma vez me perguntei, só esta manhã, se estaria num profundo estado de sono, ou coma… Isso justificaria esta confusão e apatia… este terror paralisante.’ – ainda encarava o tecto, boquiaberto, deslizando, flácido, pela cadeira. A falta de vida no olhar agravava-se nitidamente, a cada dia. Tentava em vão acordar, repetidamente, no sítio onde adormecera há muito, muito tempo.

Deslizou da cadeira, caindo de frente, batendo com a cara no chão, dormente, incapaz de amparar a queda, com uma perna caída e outra em cima da mesa. Um espetáculo deprimente, se me permite dizê-lo. Que infelicidade a de viver inconscientemente. Que infelicidade a de viver um sonho sem experimentar o impossível.

Medo

Faço o funeral ao medo.

Não me recordava,

desde que percebi

de que em pequeno

rodeado de medo

e morte me vi,

até a morte ser medo.

Medo é errado.

Medo é bom.

Fatalidade era costume

ateado em brado lume

encostando-me, assombrado,

à alucinação fantástica

das maravilhas da infância.

Até me saber só

nada percebia do logro

da tristeza e seu ócio.

Do vício e do dó

evidenciaram-se as rédeas,

arreando o desejo,

desejando ser só,

de uma só vez, todo só.

A perda é uma cela.

Medo é doença.

Perto de revelações, penso,

que o mundo cabe no meu abraço

e se o destino é finar,

que me esgote eu sem pesar.

Lava

Eis que no meu peito

corroído pela lava

rebentam águas salgadas

 

banho-me nas furnas

da cravada ilha alva

cuspo de vulcão desfeito.

 

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

 

Se pedras forem castigos

dados aos tarados nos pelourinhos,

se os demónios forem desiguais

envenando n’Olímpo os gigantes divinais

 

Abalo com as tuas pedras

o teu templo herético

selo o teu jazigo helénico

c’o horror dos cubistas.

 

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

Prostra os forasteiros,

bebe tu meu mar, o meu sangue.

Por pecados que apenas eu me castigue

ardendo na lava do meu peito.

Rígel

‘Respira fundo, pelo nariz, enche o ar de pulmões, expande a caixa torácica, prende o ar lá dentro’ – ouço as reticências dela a marcar o tempo, a cadência da inspiração retida e da exalação soprada – ‘e solta agora o ar pela boca, com força’ – ordenou-me, com a mão no meu peito, esvaziando-o como um balão deitado no colchão d’água. É como flutuar, é como tapar-me com cimento, como enterrar-me num sono consciente. Inalei fundo toda a tranquilidade que não conheço. Exalei toda a desarmonia e desordem. Algures na transfusão pausada e cadenciada, na suspensão encontrei yin e na roda viva yang.

‘Concentra-te na minha voz’, lembrou-me, ‘Vou iniciar a contagem decrescente de dez a zero. A cada número, descerás um degrau. Olha à tua volta, vê onde estás. Vês as tuas escadas? Já aí estiveste’. As escadas eram, de facto as mesmas. O mesmo corredor sombrio e limpo, cujas paredes que encolhiam em ângulo agudo para as escadas amarelavam e gretavam, apenas iluminado à minha passagem, à falta de tochas, candeias ou algo tão banal como electricidade. Ao virar o corredor em caracol para as escadas encontro o mesmo brilho azul e difuso, gelo e neve e luar. É por aqui que desço mais e mais para o meu abismo. ‘Dez’, e desço o degrau. Não se sente nada, o gelo é gelo e o túnel forma-se. ‘Nove’, e desço outro degrau. Andei uma vez numa montanha russa na grande feira popular de Viena, onde as carruagens entravam num túnel estreito, a luz apenas mostrava a boca da serpente, para dentro só escuridão. ‘Oito’, desço outro degrau, desta vez com receio de escorregar. ‘Sete’, desço. A imaginação é algo poderoso. Aqui estou eu, representação de mim mesmo no meu subconsciente, nu. ‘Seis’, com um pé ainda no degrau anterior. Estou nu a descer escadas com degraus contados. Arquitectei bem a minha toca, tudo arrumado e funcional. ‘Cinco’, ainda que permaneça uma divisão mórbida da minha consciência, encanta-me. Desço. ‘Quatro’, desço com receio de me esquecer de descer. Mesmo agora ao molesto-me por me permitir trazer medo para casa. Depressa acabo com a pestilência do medo no meu santuário fortificado, onde não há escutas nem privação, apenas segurança e mundivivência. Poder ultrapassar limites de visão e alcance. Perscrutar o universo, projectando-me além da atmosfera e abaixo de mim mesmo. ‘Um’, merda! Três, dois, um, desço. Enquanto desço perco as escadas e caio hirto numa espiral cósmica, translúcida, líquida, clara de ovo e leite diluídos em água e ondas neónicas, boreais e sol.

‘Concentra-te na minha voz, guiar-te-ei’, olhei para cima enquanto caía, olhei para baixo tentando perceber onde ia cair. Ouço-a, estou cá e lá, mas noutro sítio. Querendo, viajei mais além das indicações dela. Escorreguei para os olhos de uma baleia, que me mostravam constelações e mais escuridão do que alguma vez conheci. Um vazio avassalador que reanimou o meu corpo cósmico, sem mãos nem pés, apenas veias e terminais luminosos, sem carne, apenas plasma, um ovo, um embrião na teta que tudo o que existe alimenta. De onde venho ninguém tem lar e no frio onde moram os diamantes do céu terrestre encontro o remédio para a minha amargura de filho abandonado. A esfera é feita de um tecido macio, quente, vivo. Um hemisfério sólido, branco, outro invisível, revelador de uma noite onírica. De dentro surgem figuras sem corpo ou membro, ligadas ao navio, brancas, com os mais profundos olhos negros, duas bolhas negras onde cabem os olhos dos humanos. Quem são? Acariciam-me com ondas de calor, com carinho e saudade e consigo aceder a tantos segredos nos olhos que entram nos meus, consigo intuir a missão que me foi entregue sem consentimento ou permissão. Sou, de um só golpe sem piedade, abortado para fora da nave, caído numa realidade vermelha caótica, de destruição e medo. ‘Não permitirei medo’, penso, emboscado por ventos solares que me elevam e se alojam em frequências nucleares irrequietas, emitindo faixas de luz pelo meu corpo de plasma, ensopando as ramificações que tomo por membros de nano estrelas.

Sou violado pela luz mais dolorosa e justa, elevando-me na atmosfera bélica que vim para derrubar e domar. Na inexistência de som, sentia-me a gritar lamurias de super novas, enquanto sorvo pela boca toda a matéria. Expludo luz de todos os terminais, desfazendo-me em poeiras que reflectem o universo. Irradio explosões de luz em mantos que cobrem a realidade que fui enviado para extinguir. A luz roça os astros circundantes, a luz que sempre trouxe e que se uniu ao concílio dos astros para banir o medo e a miséria. Assim nasci, memória da vitória sobre os limites. Luzindo mais bravo e completo, terminado. Rígel.

Lilith

Cresce-me a luz da dúvida na fronte. Mal me toca a carícia da intuição, que cego me fiz, dançando valsas e cortejos só, à confiança dos sentidos, de olhos fechados, com o fantasma do meu agora reencarnado desânimo. Cresce-me a necessidade de usar palavras. Palavras que silenciara e trocara por adornos de realeza perfurando a pele macia, quente, fugaz, violeta. Palavras trocadas que cimentaram bases de paz. Cresce-me o impulso, empunho suspeitas prontas para me flagelar, suspeitando do meu objecto e da minha suspeita, vocifero as hipóteses que tecem as três bruxas da minha introspecção, que me fazem companhia, alienação, solidão, mania. Afogo-me em retratações, entre cláusulas que assumo para comigo com rigores e temores.

Cresce-me na fronte a sombra da perda, sobre os olhos que procuraram com ambição e não folhearam os capítulos soprados pelo vento pestanejado pela rapidez vigarista de olhos desassossegados. As palavras voam no silêncio de segundos, no desmaio da minha crença. Alço a batuta, em repetido alívio e flagelo, sangro, soo o alarme do descontentamento, largo os uivos da suspeita que me desenlaçaram do sacrifício do orgulho, do suicídio do medo. Findo-me com as palavras que te convocam, que te acusam para me justificar tão inquieto, tão incerto.

Digo apenas que amarias o meu corpo conforme dizes de tua vontade, não amando, amarás outros na rebentação, que és volátil impressionável Vénus e serei eu ardido Vulcano, trabalhando o aço azulíneo para te desbravar as amarras do egoísmo ácido que atiras sobre o meu peito descoberto.

Atravessa-me a fronte, eclipsando a manhã da razão, uma Lilith maligna que me destrona do bom julgamento, em velhas lembranças, na velha cegueira impotente, de amarguras imprevistas. Cumprindo-se o presságio adiantado pela melancolia, farei minhas as lágrimas seguradas de Adriano, pelo fúnebre brilho que se abate no meu olhar afogado pela perda do teu níveo frescor.