Registo fotográfico II – rua

Pois que lesionei de novo o joelho direito e ando coxo, embora nada me impeça de queimar as solas dos sapatos na calçada crepitante, com o calor que faz. Depois de umas horas de conversa a pôr em dia, eu e a minha companhia descemos rumo ao Rossio para encontrar o melhor refresco, seguindo para a Praça do Comércio, onde por sorte encontrámos lugar para conviver e para eu parar e descansar a perna. No meio da salganhada toda e do vento que fazia inspirei-me para uma establishing shot ao ver o aproximar do navio. Depois levantou-se um vento malino que me fez lacrimejar copiosamente, deixando eu de perceber se chorava dos olhos secos ou de dores…

 

SONY DSC
establishing shot

 

GJ

Registo fotográfico 1 – o que é casa?

Quando penso em casa penso em memórias, quer as minhas vividas, quer as que me contaram, porque na minha família todos gostamos de contar histórias, a tradição de contar aventuras de antepassados e as histórias dos miúdos quando já se tornam graúdos sempre existiu. Lá em casa não tínhamos câmara de filmar, nem sempre tivemos máquina fotográfica, muitas das vezes tiravam-nos fotos. As poucas que tenho, são todas com aqueles que me criaram, sempre comigo, sempre a meu lado. Isto é casa, protecção, clã, união e memórias.

 

SONY DSC

 

*murphy bed alert!

 

GJ

Listas? Talvez não.

Talvez bons resultados sejam também potenciados por bons desafios.

O desafio mais recente era o de criar uma lista ou de coisas que gosto, ou do que aprendi, ou ainda do que sou melhor a fazer. Eu listo afazeres e o que é preciso comprar, pouco mais. É inevitável que me disperse no tempo e no espaço a problematizar assuntos que vão surgindo, mas considero o tipo de listas que listei acima um desperdício de energia.

Uma lista de coisas oportunas e que valem a pena pensar:

Soluções para problemas que comprometem o futuro, defendê-las e refutá-las até chegar a algo real e exequível

Problematizar a reestruturação dos canais de comunicação social: tendenciosos, corruptos e cúmplices.

A rotina que levamos é imposta, se não fosse, o que faríamos com a nossa atenção livre para perceber o que se passa no mundo que compromete a nossa saúde, o futuro que julgamos inefável para nós e para os nossos, pessoas e famílias inteiras que morrem todos os dias devido a guerras que não são mostradas, a poluição, os interesses políticos e corrupção sem vergonha que ainda não conseguimos levantar a voz para cessar, a estupidez a que chegámos para nem sequer agir, agir para quê se está tudo estragado?, o que vamos dar de comer aos nossos descendentes?, que água vamos beber?, vamos querer viver? – e será que tudo isto seria assunto se não vivêssemos como porcos encurralados e nos apercebêssemos que temos tempo e energia, muito embora algo a perder, para nos insurgirmos e trazer à luz do dia estas questões, pelo menos para morrer de consciência tranquila?

Porque raio é a religião um motivo?

Porque raio é usada qualquer religião como desculpa para explorar os interesses dos gananciosos, para defender os criminosos que dizendo que se regem por ela praticam os mais incríveis crimes?

Porque é que a história não serve de aviso para o que acontece hoje, neste preciso minuto, em todo o lado?

– Hoje exponho estes assuntos, não sendo o primeiro nem o último: cada um tem o seu ângulo, pois eu tenho perfeita noção que este mundo já não é nosso, por isso precisamos de o refazer. Tragamos acima o que protege o bem estar, a segurança pelas mãos dadas e a individualidade e o respeito mútuo. Liberdades e egoísmo não funcionam, mas podemos coexistir. Há muito que me dizem que ninguém é realmente livre. Ninguém é realmente livre de si mesmo, isso sim. Larguemo-nos.

GJ

Criar listas de ideias ajuda?

Não creio que fazer listas concretize qualquer ideia, embora a mim me ajude a não me esquecer de as concretizar, o que só por si já ajuda. O meio parece auxiliar o fim, por isso partilho uma breve lista:

Kundalini

reside a alma na amígdala?

Hecate

hissopo

autocombustão

abraço

onanismo

 

Estas são algumas das palavras chave que me remetem para imagens ou ideias registadas em papel e pendentes… entre outras listas que tenho, umas mais outras menos claras e detalhadas, esta ajuda-me a manter presentes as ideias que me têm surgido ao longo dos últimos oito meses.

 

GJ

Oxygen

Taking some editing tips and successfully editing an article from June!

I find myself stopping whatever I’m doing to do something else just because I can’t breathe right, my body is curling up in pressure and need release. That’s when I usually whistle a jazzy tune, close my eyes taking a deep breath recaling all of my reiki symbols and think of all the positive futures, remember all my worries and end up dreaming awake about what will be and having day sex dreams. Next to my libido and endless imagination for things I quickly forget, whistling and rampant singing are my out of the world breaks. As long as I can breathe right my brain will sustain itself, fully fueled, to endure the painful boredom that’s been stricking me since my mother gave birth to me… I’ve become addicted to this back and forth between stillness, stress and release.

Once I realised this, being a very young adult fresh out…

View original post mais 303 palavras

Seis anos de salada

1996 na história foi um ano bissexto, para muitos terá sido mais um, provavelmente para os meus pares pouco relevante para além de brincar na rua ou, para os mais afortunados, TV a cores e jogos de vídeo. Também foi o ano da Malhação, do prémio Nobel da Paz atribuído a Ximenes Belo e Ramos-Horta, do Nobel da Literatura da poeta política polaca Szymborska, da grande perda que a morte de Carl Sagan representou, bem como a muito chorada morte de Tupac Shakur. Para mim foi a morte da minha avó, a mulher que cuidou de mim nos seus últimos anos de vida e fez questão que eu soubesse o que era ser amado, ouvido e respeitado – embora a memória mais berrante seja a de ser completamente livre ao lado dela, ter asas para voar – ela nunca temia e eu nunca vacilava.

Lembro-me de uma tarde com a minha avó, no quarto dela, de gritar e fazer birra porque ela me estava a trocar a roupa, ou algo assim – devia ter-me cagado todo enquanto estava a brincar -, enfim as coisas de que as avós normalmente se encarregam de fazer. A minha birra consistia em ter sido interrompido do que estava a fazer e que queria fazer sem demoras. Ser parado e preso para executar uma tarefa perfeitamente adiável aborreceu-me. Então, para meu desgosto enquanto homem que sou a lembrar-me do que disse, esperneei e gritei um muito malcriado e ingrato ‘deslarga-me estúpida’, corri porta fora para o quintal, depois de ela me ter abraçado, beijado a bochecha e ajeitado a farta e negra cabeleira. Maltratada pelo menino dos olhos dela respondeu ‘ninguém te está pegando!’ Já lhe tinha fugido das mãos, senão tinha apanhado, olhava para trás enfurecido, para ela, que se mostrava zangada e dizia ‘ai o menino se é malcriado!’ com um ligeiro tremor de riso na voz, rindo-se da minha postura de selvagem inofensivo, tirando grande gozo daquela figurinha. Na verdade, pela boca da minha mãe, filha dela, soube anos mais tarde que o que a minha rica avó dizia gostar aqui do menino era da ruindade e doçura constantes.

O facto é que estava enfurecido, no quintal, olhando para trás, ainda a sentir-me no direito de ter agido para defender os meus interesses, muito embora também me sentisse, para mal do meu orgulho, arrependido e zangado comigo mesmo por a ter desconsiderado. Leva-me finalmente a perceber que passados longos anos e muito ter mudado desde então ainda reajo como uma criança reguila e birrenta com aqueles que me amam e que eu amo em reciprocidade, aqueles que eu também tantas vezes magoo. Saber que me amam, anos depois desta memória, é uma arma que ainda uso em meu favor para poder transgredir sem culpas ou sem me perguntar acerca das consequências. Ser amado tão livremente deixou-me o gosto de ser mimado, levou-me a crer que faça ou diga o que for, permanecerei impune. Tal não aconteceu e não acontece.

Voltei atrás, meti-me debaixo da janela do quarto, eu era ainda muito pequeno, tinha três ou quatro anos, mal chegava ao parapeito, aliás mal passava da risca azul daquela enorme casa caiada, mas já tinha boa voz e fôlego, pedindo desculpa, chamando por ela, até que ela apareceu e me pediu a mão para me levar para dentro, para sair do sol. Era verão em Beja, o chão e o quintal estavam cheios de ameixas, pelo menos as que não conseguíamos apanhar, que amadureciam nos ramos e caiam, esborrachando-se contra o solo e lá apodrecendo.

Um dia a minha culpa por sentir que não tinha feito o suficiente não a trouxe de volta e todo o meu amor se fez sentir na sua ausência, não fazendo qualquer diferença, depois de ter morrido na minha cama. O encanto desta história é ela, não eu, a maravilha foi feita por ela apenas, e é a ela que dedico a minha solarenga e livre infância. Assim foi a descoberta do mais puro amor, a ruptura da inocência, a descoberta  da perda irremediável. Assim foram os seis anos de salada.

 

GJ