O míto de Sísifo, Camus- passagens

O absurdo e o suicídio

 

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio.

(…)

Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que a verdade pôs a sua vida em perigo (…) o que se chama uma razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer-

(…)

Um gesto como este prepara-se, tal como acontece com uma grande obra, no silêncio do coração. Começar a pensar é começar a ser consumido.

(…) As pessoas raramente se suicidam  (…) por reflexão.

(…) Matar-se, em certo sentido (e tal como no melodrama), é confessar. É confessar que se é ultrapassado pela vida e que não a compreendemos. (…) O suicídio é apenas a confissão de que a existência «não vale a pena». Viver, naturalmente, nunca é fácil. Continuamos a fazer os gestos que a existência ordena, por muitas razões, a primeira das quais é o hábito. Morrer voluntariamente implica reconhecermos, mesmo instintivamente, o carácter irrisório desse hábito, a ausência de qualquer razão profunda de viver, o carácter insensato dessa agitação quotidiana e a inutilidade do sofrimento.

(…)

Um mundo que se pode explicar, mesmo com as más razões, é um mundo familiar. Mas, pelo contrário, num universo subitamente privado de ilusões e de luzes, o homem sente-se um estrangeiro.

(…)

Esse divórcio entre o homem e a sua vida, entre o actor e o seu cenário, é que é verdadeiramente o sentimento do absurdo.

(…) o suicídio é uma solução para o absurdo.

(…) este problema pode parecer ao mesmo tempo simples e insolúvel. Mas supõe-se erradamente que as perguntas simples determinam respostas que o não são menos e que a evidência implica a evidência.

(…) Na afeição de um homem pela vida há qualquer coisa de mais forte que todas as misérias do mundo. O julgamento do corpo, vale bem o do espírito e o corpo recua ante o aniquilamento. Ganhamos o hábito de viver, antes de adquirirmos o de pensar.

(…) A esquiva mortal (…) é a esperança. Esperança noutra vida que é necessário «merecer», ou batota dos que vivem não pela própria vida mas por qualquer grande ideia que a ultrapassa, a sublima, lhe dá um sentido e a atraiçoa.

(…) Não é em vão que se tem jogado com as palavras e fingido acreditar que recusar um sentido à vida conduz forçosamente a declarar que ela não vale a pena ser vivida. Na verdade, não há nenhuma relação entre estes dois juízos.

(…) A tenacidade e a clarividência são espectadores privilegiados nesse jogo desumano em que o absurdo, a esperança e a morte travam o seu diálogo.”

 

 

As paredes absurdas

 

(…) o absurdo será tanto maior quanto maior a distância entre os termos da minha comparação (…) o sentimento do absurdo (…) jorra da comparação entre um estado de facto e uma certa realidade, entre uma acção e o mundo que a ultrapassa. (…) Nasce do seu confronto.

(…)

A consequência imediata é ao mesmo tempo uma regra de método.

(…) semelhante luta presume a ausência total da esperança (que não tem nada a ver com desespero), a recusa contínua (que não devemos confundir com a renúncia) e a insatisfação consciente (que não podemos assimilar à inquietação juvenil) (…) O absurdo só tem sentido na medida em que não consentimos nele.

(…) o homem é sempre a presa das suas verdades. Uma vez reconhecidas, não pode libertar-se delas. É preciso pagar esse preço. Um homem que se torna consciente do absurdo fica-lhe ligado para todo o sempre. O homem sem esperança e consciente disso já não pertence ao futuro (…) Mas também está na ordem natural das coisas que ele faça esforços para escapar ao universo de que é criador.

(…) partindo do absurdo sobre os escombros da razão, num universo fechado e limitado ao humano, divinizam o que os esmaga e acham razões para esperar naquilo que os despoja.

 

O Suicídio Filosófico

 

O sentimento do absurdo não deve confundir-se com a noção do absurdo.

Viver sob este céu asfixiante ordena que fujamos ou que fiquemos. Trata-se de saber como se foge, no primeiro caso, e por que se fica, no segundo. Defino assim o problema do suicídio e o interesse que podemos dedicar às conclusões da filosofia existencial.

 

(…) presume a ausência total da esperança (que não tem nada a ver com o desespero), a recusa contínua (que não devemos confundir com renúncia) e a instisfação consciente (que não podemos assimilar à inquietação juvenil).

 

(…) o homem é sempre a presa das suas verdades. Uma vez reconhecidas, não pode libertar-se delas. É preciso pagar esse preço. Um homem que se torna consciente do absurdo fica-lhe ligado para todo o sempre. O homem sem esperança e consciente disso já não pertence ao futuro (…) Mas também está na ordem natural das coisas que ele faça esforços para escapar ao universo de que é criador.

 

(…) a aceitação do absurdo é contemporânea do próprio absurdo. Constatá-lo é aceitar e todo o esforço lógico do seu pensamento consiste em pô-lo a claro para ele libertar ao mesmo tempo a esperança imensa que ele arrasta consigo.

 

O pensamento de um homem é antes de tudo a sua nostalgia.

Assim como a razão soube acalmar a melancolia plotiniana, também dá à angústia modernas os meios de se acalmar nos cenários familiares do eterno. O espírito absurdo tem menos sorte. Para ele,  o mundo não é nem tão racional nem irracional a esse ponto. É desrazoável e só isso.

 

A liberdade absurda

 

Posso negar tudo dessa parte de mim que vive de nostalgias incertas, salvo esse desejo de unidade, esse apetite de resolver, essa exigência de clareza e de coesão. Posso refutar tudo neste mundo que me rodeia, me choca ou arrebata, excepto este caos, este acaso-rei e esta equivalência divina que nasce da anarquia.

 

Vamos, pelo contrário, sustentar a aposta dilacerante e maravilhosa do absurdo? Façamos um último esforço a esse respeito e tiremos todas as nossas consequências. O corpo, a ternura, a criação, a acção, a nobreza humana, retomarão então o seu lugar neste mundo insensato. O homem nele encontrará enfim o vinho do absurdo e o pão da indiferença de que a sua grandeza se alimenta.

 

O homem absurdo tem de esgotar tudo e esgotar-se.

 

Não me interessa saber se o homem é livre. Só posso sentir a minha própria liberdade.

 

É por isso que me posso perder na exaltação ou na simples definição de uma noção que me escapa e perde o seu sentido a partir do momento em que ultrapassa o quadro da minha experiência individual. Não posso compreender o que pode ser uma liberdade que me seria dada por um ser superior.

 

Pensar no amanhã, fixar um objectivo, ter preferências, tudo isto supõe a crença na liberdade, mesmo que às vezes as pessoas se certifiquem de que não a experimentaram.

 

Se me persuado de que esta vida não tem outra face que não seja a do absurdo, se sinto que todo o seu equilíbrio depende dessa perpétua oposição entre a minha revolta consciente e a obscuridade onde ela se debate, se admito que a minha liberdade não tem sentido a não ser em relação ao seu destino limitado, então devo dizer que o que conta não é viver melhor mas viver mais.

 

O Homem Absurdo

 

O que é, com efeito, o homem absurdo? Aquele que, sem o negar, nada faz pelo eterno. Não que a nostalgia lhe seja estranha. Mar prefere-lhe a sua coragem e o seu raciocínio. A primeira ensina-o a viver sem apelo e a bastar-se com aquilo que tem, o segundo instrui-o acerca dos seus limites.

 

Não se trata aqui de dissertar sobre a moral. Já vi muitas pessoas agirem mal com muita moral e todos os dias constato que a honestidade não precisa de regras.

 

«Tudo é permitido», exclama Ivan Karamazov.

A certeza de um Deus que daria o seu sentido à vida ultrapassa muito em atractivos o poder impune de fazer o mal. A escolha não seria difícil. Mas não há escolha e começa então a amargura. O absurdo não liberta, amarra. Não autoriza todos os actos. Esse «tudo é permitido» não significa que coisa alguma seja proibida. O absurdo dá somente a sua equivalência às consequências desses actos.

 

Um espírito penetrado de absurdo julga tão-só que essas consequências devem ser consideradas com serenidade.

 

O único pensamento que não é enganador é, portanto, um pensamento estéril. No mundo absurdo, o valor de uma noção ou de uma vida mede-se pela sua infecundidade.

 

O Donjuanismo

 

Quanto mais amamos mais o absurdo se consolida.

Porque seria necessário amar raramente para amar muito?

(…) os tristes têm duas razões para o ser: ignoram ou esperam. Don Juan sabe e não espera.

E é bem isso o génio: a inteligência conhece as suas fronteiras.

 

Esta vida satisfá-lo, nada é pior do que perdê-la. Esse louco é um grande sábio. Mas os homens que vivem de esperança dão-se mal neste universo onde a bondade cede o lugar à generosidade, a ternura ao silêncio viril, a convulsão à coragem solitária. E todos dizem: «Era um fraco, um idealista ou um santo».

 

Ele é um sedutor vulgar. Com uma pequena diferença, a de ser consciente. Por isso é que ele é absurdo.

 

Mas do amor só conheço essa miniatura de desejo, de ternura e de inteligência que se liga a determinado ser.

 

A comédia

 

«O espectáculo, diz Hamlet, eis a armadilha onde apanharei a consciência do rei» (…) É preciso agarrá-la em pleno voo, nesse momento inapreciável em que ela lança um olhar fugitivo sobre si própria.

 

A eternidade não é um jogo. Um espírito suficientemente insensato para lhe preferir uma comédia, perdeu a salvação. Entre «em toda a parte» e «sempre», não há compromisso. Daí que esse mester tão depreciado possa dar lugar a um conflito espiritual desmedido. «O que importa, diz Nietzsche, não é a vida eterna, é a eterna vivacidade».

 

Digo-vo-lo, amanhã sereis mobilizados. Isso é uma libertação, tanto para vós como para mim. O indivíduo não pode nada e, no entanto, pode tudo. Nessa maravilhosa disponibilidade compreende-se por que razão eu o exalto e o esmago ao mesmo tempo. É o mundo que o tritura e sou eu que o liberto. Forneço-lhe todos os seus direitos.

 

Sim, o homem é o seu próprio fim. E é o seu único fim. Se quiser alguma coisa, tem de ser nesta vida.

Estar privado de esperança, não é desesperar. As chamas da terra valem bem os perfumes celestes. Nem eu nem ninguém podemos aqui julgá-los.

 

A Criação Absurda

 

Filosofia e Romance

 

Há também uma felicidade metafísica em sustentar o absurdo do mundo. A conquista ou o jogo, o amor inumerável, a revolta absurda, são homenagens que o homem rende à sua dignidade num campo onde está antecipadamente vencido.

 

A busca pueril do esquecimento, o chamamento da satisfação são agora sem eco. Mas a tensão constante mantém o homem em face do mundo, o delírio ordenado que o leva a tudo acolher, deixam-lhe outra febre. Nesse universo, a obra é então a única possibilidade de manter a consciência e fixar-lhe as aventuras. Criar é viver duas vezes.

 

A criação sem amanhã

 

Trabalhar e criar «para nada», esculpir na argila, saber que a nossa criação não tem futuro, ver a nossa obra destruída num dia, sendo consciente de que, profundamente, tal não tem mais importância do que construír para séculos e séculos, eis a difícil sageza que o pensamento absurdo autoriza. Levar por diante essas duas tarefas, negar por um lado e exaltar por outro, é o caminho que se abre ao criador absurdo. Ele dar dar ao vazio as suas cores.

Não a fábula divina que diverte e cega, mas o rosto, o gesto e o drama terrestres em que se resumem uma difícil sageza e um pensamento sem amanhã.

 

O Mito de Sísifo

 

Já todos compreenderam que Sísifo é o herói absurdo.

Se este mito é trágico, é porque o herói é consciente.

 

Quando as imagens da terra se apegam demais à lembrança, quando o chamamento de felicidade se torna demasiado premente, acontece que a tristeza se ergue no coração do homem: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O imenso infortúnio é pesado de mais para se poder carregar. São as nossas noites de Gethsemani. Mas as verdades esmagadoras morrem quando são reconhecidas.

 

A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. «Acho que tudo está bem«, diz Édipo e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem.

 

Não há sol nem sombra e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz que sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. (…) Nesse instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa sequência de acções sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte.

 

É preciso imaginar Sísifo feliz.

 

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