Rituais OCD ocasionais

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Os meus rituais para lidar com múltiplos eventos avassaladores enraizaram-se e cristalizaram, já os tenho sabidos e ensaiados, levo-os a cabo com maior rigor do que qualquer tarefa que surja. Experimentei várias formas de abordar aborrecimentos e dificuldades, porém,no presente, pela manhã, trôpego, quebro barreiras à força, quero que se foda, lido agressivamente com chatices que possam ocorrer de manhã cedo e reservo-me esse direito de mandar tudo e qualquer pessoa à fava; depois dos meus rituais matinais de me centrar e de me dedicar tempo, danço pelas coisas vida com outra graça, quase sem fome, amoroso e focado; pela noite quero um desenlace revigorante, justificar criativamente o dia.

Em momentos primordiais da minha juventude resolvia o enfado das coisas de formas menos cristãs e correctas, mas como nunca fui um bom modelo de bons costumes nem nunca fui cristão, tendo sido convidado a abandonar a minha turma de catequese em moço pequeno, pouco me importava se certo ou errado, desde que não tivesse de dedicar atenção a percalços e desde que me viesse, sem nóias e lições. Hoje, orgasmos é só para prazer próprio e mútuo, livre de elos mundanos, livre de ser um meio para o esquecimento. Para me abstrair, saio para caminhadas ou para escutar os que precisam de ser escutados, dou-lhes a minha mão e a minha atenção.

Shall We Love -- Shall we talk about love - o amor na nossa geração - YouTube - Google Chrome 07122015 112625Da minha fácil dispersão e tendência para demorar a começar algo prioritário, quando assoberbado por irritações, barulhos indesejáveis; necessidades; ressacas; desgostos; culpas; outras fragilidades emocionais; preguiça; relutância e receios, dispara o modo emergência de arrumar, arrumar, arrumar, deixar tudo arrumado, alinhado à direita, alinhado ao centro dentro do perímetro rectangular, quadrangular ou circular, limpar, pôr a lavar, escovar, sacudir, categorizar por cores, por material, por tamanho, por padrão, por peso, por dimensão quando ao alto ou ao baixo, em caixas, em prateleiras, em gavetas e em capas, madeiras, metais, tecidos, papéis, instrumentos, recipientes, carvão e pastéis, organizar  documentos, recibos, folhas rabiscadas, coisas sem importância, textos daqui e dali, arrumar alfabeticamente por autor os livros, primeiro os lidos, então os que vou ler, depois por prosa e então por verso, verter o café, lembrar o cigarro que abandonei, deitar-me na cama feita de lavado, vir-me e começar a tirar tudo das paredes, mudar a disposição da decoração, fechar-me no chuveiro em silêncio, tratar gentilmente a face, tirar todo e qualquer restante pêlo supérfluo, barbear, matar a sede, esquecer-me de comer, vestir a roupa mais larga e fazer a lista do que há para fazer, não comer, fazer metade no dobro do tempo e desistir de estabelecer um horário para produção e satisfação pessoal.

No fim disto, que fiz nas últimas duas horas, já estou é cansado e pronto para sorrir com a alma, com a face e com o fígado, engolir o barbitúrico e dar graças, fechar os olhos secos e dormir, rindo para comigo no conforto dos meus rituais que, por muito disfuncionais que sejam, me roubam da fatalidade do existencialismo que me persegue e zanga.

GJ

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