Prece, lenço perfumado

Ao entardecer já imploro por ser deitado abaixo, para desligar do mundo e adormecer. De noite deambulo, procuro coisas incessantemente, procuro na cama, procuro na gaveta, procuro na cozinha, procuro no fundo do copo, procuro lá fora, procuro em mim saber o que procuro. Dou voltas na cama quando voltam as memórias que esquecera. E que memórias são, santo deus!… Ao entardecer regresso a casa e lavo as mãos no lavatório, olho-me, procuro-me no espelho, já sei que quero apagar e dormir, já sei que não descansarei. Monto a mesa, sento-me, não como, sem vontade no olhar, com gestos ansiosos arrisco tentar de novo, procuro sentir, mas só ouço o barulho das máquinas, o ciciar dos meus pensamentos em voz alta, o barulho do autoclismo do vizinho, os cães que não páram de ladrar – sou interrompido pelo frio que me faz nas entranhas, este vazio inquieta-me. Passo as horas da noite a bater as portas, a atirar pratos e copos para o lava-louça, a amaldiçoar as notícias, as memórias do meu ridículo e a ladaínha toda que me deram. Restam-me as horas da noite para fazer o que a minha vontade uma vez quis, e, ciente do repetido fracasso, fraquejo, estático, sentado de frente para a parede, leio um pedaço de Al Berto sobre laranjas e chuva. O Inverno mantém-me acordado, bem como a ânsia de completar todas as coisas, bem como o desejo de ser outro alguém, voltar atrás no tempo e não tropeçar, voltar a ser quem melhor amaste, antes de por terra cair. Engulo as drogas que me prometem dormência, mas demoram ainda a lutar contra a minha exasperada consciência, hiperactiva, impulsionada pela exaustão das emoções traumáticas, o fosso de repressões que transborda. Dançarei deitado até me escavar o esconderijo perfeito, usando ao pescoço o lenço perfumado da noite que encertámos juntos, em anéis de gozo, cercados pela bruma e pelos uivos gemidos do submundo. Só a memória de te amar, só a meditação do teu nome, do teu rosto, do teu toque, me suaviza a fronte e sorri na alma. Adormeço após esta reza.

A manhã é de torpor, fome, sede, indiferença. Há café, maquinalmente despejado na chávena ânfora, como o que possa com sôfrego, perco-me na ficção que calhar. Acordo do transe com o som da tua voz, procuro-me dentro da roupa e sacrifico uma parte de mim a ti, desaperto-me do cilício, liberto-me neste corpo que viverá por ti. Num duche longo lavo-me, fervo e escovo a pele com pedra pomes, lavo a língua com os cânticos que me ensinaste. É a primeira hora do dia que me pesam as memórias. Pesado de memórias. Pesam-me as memórias. Estou pesado, quero que voem, que voem com o meu passado. Estou pesado.

Julgando que não, encontro-te, pois bem que te procurei. Vou passar o resto do dia a procurar-te. Passarei estas e as restantes das minhas horas a procurar-te para, algures no tempo te encontrar e, de novo, te perder de vista. Direi preces à noite, no leito por ti abençoado, dignificado, antes de fechar os olhos, antes de perder a batalha contra a exaustão.

Entardeceu e, à mesa, sob a luz acesa, incandesce o vapor da oferenda, da refeição que preparei para me evadir do vazio. Sento-me, não como. Sem vontade no olhar, coçando-me ansiosamente, arrisco sentir de novo, mas só sinto o que o desespero me deixou… ouço o barulho das máquinas, o ciciar dos meus pensamentos em voz alta, o ressoar do autoclismo do vizinho pela casa, os cães que ainda ladram – sinto o frio que me faz nas entranhas – cerro os punhos, inquieto-me.

GJ

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