O minuto do segredo

suninmymouth2

Este é o minuto. O minuto que puxa as memória. Neste minuto passo os olhos pelo que nos aconteceu. Ainda não estou cheio, ainda ando desequilibrado pela paixão. Nos olhos meus que passeiam pelas visões, pelas palavras, pela memória da tua boca que contém o que não dizemos, dos teus olhos que entendem os meus, porque só falo bem com eles, das tuas mãos firmes, quando te esforças e te afogas por te manter à tona. Estou pesado pela minha dor. Largo vela para voar e te levar comigo. Vou largar vela e ser leve. Este minuto testemunha a minha conversão. Ontem deixei de ser, hoje sou para ti. Tudo o que queria era o minuto contigo, o minuto que nos trouxe à nova manhã chovida, à manhã sóbria, à manhã do sexo que teimou e tardou, seguido de sono, seguido de amor e das palavras que a tua boca conteve, ditas por mim.

Cada minuto escreve um parágrafo, cada minuto não será exactamente um minuto, ainda flutuo no fumo que me tirou da dor. Deixa-me tirar-te da dor, pelo menos enquanto ainda sou eloquente. O que realmente quero dizer escapa-me com as ideias concretas, restando estes enigmas rebuscados, mas confesso a minha solidão, confesso a minha decepção porque não compreendo os mecanismos da fácil felicidade que me dás, porque bloqueio a simplicidade e me devolvo à dor, te trago dor e te acompanho na dor – confesso a minha vergonha pelo egoísmo, pelas cicatrizes e pela mutiladora dúvida.

Confesso ainda a minha devoção a ti. Não temas, não me remeto para os campos da fé ou da esperança, apenas e só ao teu brilho. Os teus olhos fechavam-se em repouso, a tua cara sorria – este é o meu motivo. Eu já não sou suficiente. É de ti que cuido. Há tanto que não compreendes quando falo fora do que é possível, do que é físico, pelo que não compreenderás que o meu equilíbrio precário foi desfeito para dar lugar a este desequilíbrio em que a superfície sofre marés, em que a mudança muda o rumo e não luto contra a corrente.

O minuto da separação roeu-me a língua, encolhi-me no meu corpo ao teu lado e contei os minutos que não chegaram para te fazer ver que já não sou eu. Perdi-me porque este é o equilíbrio que une a confusão que sou ao amor, é aqui que posso estar vivo. Os minutos não domaram a minha solidão, fui roubado do leito improvisado para te entregar ao teu, e a morte não faz sentido, quando nasço sempre em ti.

O minuto do acordar tirou-me da fácil felicidade, roubou-me do tempo, entregou-me a algo angustiante e a uma saudade fora do comum. O minuto de acordar mostrou-me a solidão que criei, 0 silêncio e o luxo de não falar, nem mesmo comigo. Prometi-me, dei a minha vida à tua luz, que te possa trazer das águas revoltas, faço-me leve para te levar a voar.

 

GJ

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