Colecção de Identidade: Hoje

       O silêncio hoje incomoda-me. Estou ciente das minhas vontades, sem saber o que com elas fazer. Não só por serem ambições pouco gratificantes, mas também por serem pouco exequíveis a tempo inteiro. Embora seja a vontade de alcançar algum feito nesta arte de escrever, ou de dar uma fantástica sensação de novidade a meros memoirs com cores, e a  verdadeira emoção de homem de palavras, não há ainda a substância que me possa levar a ser a verdadeira voz de mestria. Não reside em mim e impede-me de fazer o que me projecto, na minha grande ideia de auto-realização.

       Suponho que me possam dizer o que fazer com a minha vida, que me dêem indicações de como encenar a minha vida convincentemente, convenientemente e coniventemente, embora a minha vontade seja de me superar e escrever geniais retratos duma vida que não pertence a mais ninguém, nem mesmo a mim. Poderia, no entanto, cultivar-me já e saciar-me no Inverno de agora, preguiçoso, de alento e satisfação. Isto não cabe dentro dum emprego nada generoso, ora porque sou de perguntar e procurar para instruir outras aventuras, ora porque aceder aos pedidos mecanizados de outros nada me traz senão um insuperável sentimento de desperdício e de submissão a estas exigências do mundo expiatório em que já mal se vive, e muito menos de sobrevive.

       Não estou disposto a viver em pobreza, muito menos aliado à miséria de hoje, mas a profusa descontinuidade de quem sou hoje, incapaz e repartido, deixa-me duas alternativas: continuar à procura e render-me ao mundo fora das vãs manifestações de ego, ou aceitar que faça o que fizer para estar conforme e conquistar algo, tudo dá no mesmo, não há fontes melhores, é só o que há e um dia acaba. Correndo o risco de influenciar alguém com a minha desilusão, desiludir os planos e frustrar quem acredita, detesto ceder ao declínio da fé no maior dos sonhos, à decadência do parar das engrenagens, de fazer e conquistar. O meu nome, a minha imagem, a minha voz, vão ser lembrados pelos que comigo vivem em comunhão, esses também tão mortais quanto eu. Lembro-os de que a vida não é bem vivida, em pleno rigor de sermos privilegiados com tamanha simplicidade de ser e construir o que é vital e descobrir, sem pressões pessoais ou monetárias, aquilo que queremos saber, mostrar e tanto alcançar. Vendemos a nossa vida a fazer o que a humanidade pensou para nós. Trabalho, família, coisas, comida, cobiça, amores confinados ao alívio de não estar só. Javardamos nisto tudo como se amanhã pudéssemos conquistar tudo, ou perder tudo.

       Se me resguardo de tantas oportunidades de ser contente, o que sou, aqui?

     Sinto tanto por nada fazer, nada ter, nada ser, por me parecer um passivo moralista com mais por dizer, sem encontrar ainda as amarras para enlaçar, atirar e prender ao pilar do próximo cais.

GJ

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