Solidão, silêncio, segredo, criação

Therefore, dear Sir, love your solitude and try to sing out with the pain it causes you. For those who are near you are far away… and this shows that the space around you is beginning to grow vast…. be happy about your growth, in which of course you can’t take anyone with you, and be gentle with those who stay behind; be confident and calm in front of them and don’t torment them with your doubts and don’t frighten them with your faith or joy, which they wouldn’t be able to comprehend. Seek out some simple and true feeling of what you have in common with them, which doesn’t necessarily have to alter when you yourself change again and again; when you see them, love life in a form that is not your own and be indulgent toward those who are growing old, who are afraid of the aloneness that you trust…. and don’t expect any understanding; but believe in a love that is being stored up for you like an inheritance, and have faith that in this love there is a strength and a blessing so large that you can travel as far as you wish without having to step outside it.

― Rainer Maria Rilke, Letters to a Young Poet

Sento-me, por vezes, assustado, frente às ideias rabiscadas e penduradas, sem me conseguir mexer, olhando fixando para a parede forrada de papéis, traços, recortes, palavras novas, ideias organizadas em caixas, por temas, por épocas. Acabo por virar as costas e assumir que não vão viver, não as levarei avante. De costas voltadas para a colecção de entusiasmos momentâneos, esqueço-me de mim. Decido esquecer-me de mim e da tensão que estes mementos carregam.

Quando fui chamado para ir à minha antiga escola, às turmas de português e literatura, para falar sobre a minha experiência, sobre poemas, escritas e responder a perguntas, antes de sequer dar começo às aulas eu alertei os miúdos que há escolhas que temos de fazer e que nem sempre escolheremos bem. As perguntas juvenis eram atiradas como se, por proximidade de idades, pudéssemos ser semelhantes, e eu devolvia as perguntas. Quem sou eu? Quem és tu? Talvez escrever os ajudasse a descobrir, pois a auto-descoberta acontece melhor em silêncio e em solidão – tal como a escrita.

Não há nada que possa responder, nada que possa ensinar, sou tão inútil. Sou inútil porque só sei de mim e sou irreplicável. Não tenho a consciência de um lutador e perco altitude como um meteorito, caio à velocidade a que o pó assenta num vendaval.

Há muitos factos e memórias que me trazem a este ponto em que me fecho e dou preferência à solidão e ao vazio, ao luxo de uma vida isenta do que fazer, ao luxo dos barbitúricos e da despreocupação, contra a forte corrente de ambição dos meus pares, demitindo-me da régia esperança que nada tem que ver com nada. Assim me tenho afastado de quem me viu ir. Assim me tenho fechado a artes que não me servem. Assim me tenho isolado da pressão e da mentira. Assim me tenho escutado. Assim tenho aprendido. Assim me tenho reconhecido como incompleto. Assim me tenho enfrentado. Assim me tenho decidido a não ser, por ora. Não serei até voltar. Voltarei quando precisar de ser. Serei criando aquilo que é verdadeiro. A solidão é essencial, mais essencial ainda é o silêncio, o segredo.

GJ

Comentários

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s