L’Ennemi

 

Ma jeunesse ne fut qu’un ténébreux orage,
Traversé çà et là par de brillants soleils;
Le tonnerre et la pluie ont fait un tel ravage,
Qu’il reste en mon jardin bien peu de fruits vermeils.

Voilà que j’ai touché l’automne des idées,
Et qu’il faut employer la pelle et les râteaux
Pour rassembler à neuf les terres inondées,
Où l’eau creuse des trous grands comme des tombeaux.

Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve
Trouveront dans ce sol lavé comme une grève
Le mystique aliment qui ferait leur vigueur?

— Ô douleur! ô douleur! Le Temps mange la vie,
Et l’obscur Ennemi qui nous ronge le coeur
Du sang que nous perdons croît et se fortifie!

 in LES FLEURS DU MAL, Charles Baudelaire

Deixo a versão original em francês de um dos poemas d’As Flores do Mal, a prova do génio de um poeta que não era da sua época, um conhecedor (e estudioso) de Poe, cujo trabalho se revelou prolífico e inspirador, por gerações de futuros relevantes escritores.

Li-o recentemente, nesta faseada e demorada leitura, e remato, assim, uma fase que este poema tão bem faz entender. Sorri ao rever o sentimento que se pode ler em quase um ano de publicações.

Mais ainda se comprova esta atracção, quando novos projectos se avizinham, com o cunho sombrio das flores de Baudelaire.

Até breve,

GJ

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Se estamos sós, o que somos nós?

Anjo?
Anjo?

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Ando tramado, feito cão ao osso. O que não tenho, vou buscar de uma maneira ou de outra.

“Quando eu era pequenino” e dormia na casa da minha avó, logo por cima da cama estava um quadro que persistiu nos meus sonhos por anos. Ele ainda está lá, no mesmo sítio, no quarto. Já lá ninguém mora, mas o quadro está lá. Vendo e querendo o que ninguém quer, pedi-o. Mais valia que tivesse pegado nele e que tivesse seguido pela linha de comboio, até Lisboa. O divórcio entre a casa, as coisas, e os antigos ocupantes está complicado, mas ninguém se enxerga, e eu passo bem por invisível.

Então, não o tendo, fotografei-o e recriei-o.

Não sei explicar, mas sinto-me bem com isto.

.

GJ

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Adaptado apto

    Cheguei ao sítio exacto, onde o rio corre plácido e cai pesado, na cascata. As árvores caídas e, as outras, meio derrubadas dão um charme decadente a esta destruição no meio do nada. Vou trabalhar em cima do joelho, hoje. Longa exposição, 1.6 minutos, diafragma perto de completamente fechado. É só tirar a foto e pronto, o rio já parece veludo, as árvores ao vento como algodão doce.

    Esta foto é uma grande e insultuosa farsa da crueldade deste pedaço húmido e fértil de terra. Cada vez que cá chego de novo, hesito em ficar. Mudo o que vejo, ao mesmo tempo que tento derrubar a quarta parede. Por mais que tente mudar a natureza do vejo, nada a supera. Só assim faz sentido. Só assim posso esperar poder aqui prosperar. A beleza que posso criar pela lente  é mais uma tentativa de fuga à grandeza. Isto é o que existe, tudo é mais que tudo. Tudo vai para além de tudo e mais além, ainda. Tudo é limitado, num fim há um recomeço, um tudo novo, um tudo mais. Impera a relatividade em tudo.

    Estou no seio de toda a matéria imutável, a água não corre do mar para o rio só por pensar que pode, ou por querer. Se pensar, posso moldar a visão de tudo, sair da prisão pelas falhas das grades, como aragem, até ficar preso na eternidade da ilusão e me evadir dela. Por vezes que volte, não encontro a peça que me liga aqui.

    O que me traz à rendição é a vontade de terminar o, até agora, eterno retorno. O tempo nunca pára e, sempre que acordo, acordo para mais um dia, não para mais uma repetição sem sabor, sem odor, isenta de sensação. É preciso, é urgente derrubar a parede deflectora. Movimento-me dentro de água, sem impacto, sem tracção.

   A quarta parede é som. Preciso de ouvir. O som é da realidade que surge por detrás dos medos que conjuro. Ouvir pode acordar -me onde estou. Desprendo-me aos poucos para poder emergir do rio onde me tentei afogar em pensamentos e surdez. Sair, encontrar a ponta do novelo e sorvê-lo.

    Não quero asas, nem nada que se pareça. Há muito de irrealizável que se pode fazer sem asas. Quero ficar. Ir pelo meu próprio pé mais longe e ver mais da solução que do problema. Consumir-me, entesar-me, ganhar forma e ter fome para mais. Mais é novo, é um sabor que fica no nariz e se anseia, um cheiro de origem desconhecida que me deixa a salivar. Esse cheiro vem de fora, crepita e borbulha, é real. É real como o fim. Como o fim de uma onda, seguida de outra.

    O tempo é irrelevante, mas o futuro é garantido, e não é sempre um amanhã. Apesar de o tempo ter começado há pouco tempo, o ontem já se gastou e o tempo presente desenrola-se num novelo que sorvo avidamente, puxando um depois fecundado e, ainda assim, irreversivelmente imprevisível.

    Não temo por tempo nenhum, cavalgo na minha demência sem autopreservação ou comiseração, cheiro flores e salivo mel, que engulo. Arranquei as minhas raízes para me encontrar, e, para, no fim, arar o meu solo fértil. Sou o meu começo e o meu fim. No meu começo há a promessa de um fim, e, na mão do fim, o dente afiado do começo.

GJ