gaivota
gaivota

vem uma gaivota

para me roubar do meu sonho livre

estendo-lhe a mão

dou-lhe o meu pão

e ela não vai a lado nenhum

voam, as gaivotas,

assaltam mendigos de caixa de papelão

vão pela margem, terreiro fora,

ela come o pão, não vai embora

sou pensamento, de alma

corpo e coração

seguro a minha perdição

levo-a comigo pelos meus dias

enquanto houver pão

na minha mão

GJ

Solidão sem Tempo – as cartas de amor, o sentimento e o intelecto III

Hei-de voltar atrás só para compensar este esforço.

Acabei de chegar, estou, por fim, em casa. Já te vou avisar que estou vivo e ainda a viver no mesmo sítio, vivo. Quero antes disso deixar cair a ficha e perceber que estou mesmo em casa e que estive onde estive. Não acredito bem que me encontrei contigo há três dias e que os passei contigo, como se nada se passasse e como se de nada soubesses, nem de nenhuma das consequências. Acredito que não queiras saber, em circunstância alguma, do que te distancia da meta final. Segui-te, pela noite seca, noite dentro e rua fora, pelas putas das Amoreiras e pelas putas do parque, pelo vazio das ruas. Acordei uma vez contigo, longe, encostado à parede, já com o sol alto na cara, doía-me a garganta do tabaco, da gritaria, do vinho. Doíam-me as costas da nossa luta. Doíam-me as pernas de caminhar sem forças. Doía-me a cabeça. Antes de acordares já planeava o caminho para casa. Acordaste com planos feitos, planos que desconhecia, mas que me iam roubar para longe. Fomos longe, fomos mais longe que a tua imaginação, porque nos permiti. A viagem foi longa, Palmela é longe como o raio. Voltaríamos nessa noite, depois dos caracóis, dos teus irmãos mais novos, da tua mãe, do teu padrasto, depois de mais uma tentativa. Depois dos irmãos que gostas de ver pobres e indefesos, da mãe que te fez amar assim, do padrasto que nada te é. O teu pai enchia-te de porrada se te ouvisse falar assim e beijava-te a cara. Ficámos para copos e para a festa, jogámos às escondidas, eu ganhei e bati com a cabeça, como é do meu hábito ébrio. Levantei-me a rir, tu riste-te de mim e deste-me a mão. Jogámos à bola, transpirámos e caímos um bocado para o lado, no alcatrão morno da noite abafada, de céu avermelhado e limpo. Agarrei-te pelo casaco e puxei-te para mim, beijei-te na rua, sim, ao ar livre, e não estávamos sós, nem escondidos. Era a tua casa, jogaste em casa e deste-me carta branca. Acabou o jogo, já tu sabias que perderia, se fosse preciso. Era preciso acabar. Acordámos antes de todos, ainda podia telefonar, para dar mais vida à minha mentira. Era procurado, observado de perto, tu sabias porque te contei os meus crimes e castigos. Doíam-me as costas. O autocarro demorou a chegar, fingi dormir até chegarmos à gare. Não falámos. Largámos as mãos escondidas assim que as portas abriram. Virei costas, soube-me bem ir embora. Depois do metro; depois de S.Sebastião; depois da prisão; depois de Campolide; depois da noite passada; depois das promessas e da prisão; depois do pedido; depois da expectativa; depois do sim desinteressado: doíam-me terrivelmente as costas. Um beijo invalidou a excitação de três dias à deriva. Foi o meu coração a abrandar, os meus dentes a descolar e as minhas dúvidas apaziguadas, porque por pior que seja, saber que me dá mais paz do que incerteza, deixar-te ir -só o pensamento, a hipótese – ajudou-me a respirar com tamanha franqueza. Sorri.

Tenho de limpar e arrumar, já te digo alguma coisa. Vou tomar um duche quente e lavar os dentes, ainda.

Lembras-te? Chovia bastante, já estava escuro, estávamos cheios de fome e descemos da esplanada da Pollux para a Rua Áurea, e lá contaste-me as tuas aventuras e desastres, que ainda acho algo fictícios. Apaixonei-me pelas tuas falhas de personalidade, pela vida que levavas, por estarmos no mesmo ponto de chegada e de partida, pelo simples facto de não te querer. Dormimos juntos, nessa noite. Quis-te mais tarde. Não te quis mais a ti do que tu a mim, nunca. Não te dei o que querias. Querias ganhar e levar o que não é teu. Puro capricho. Tal como não fui teu, também te amei. Não dei atenção ao teu jogo e fizeste tanta birra. O teu corpo deitado a meu lado não me roubou de mim mesmo. Amei-te sem me atirar da janela e isso não é amar. Pois, talvez não seja. Só sei amar desta maneira, em que estou à tua frente, firme para o que der e vier, e para toda a ocasião, sou teu sem nunca to dizer nem saber.

Já cheguei, vou descansar!

Merda para mim? No entanto, ambos sabemos que não vai haver luta.

GJ

Solidão sem Tempo – as cartas de amor, o sentimento e o intelecto II

Olá, como vais,  como estás,

pois, sim, não, é capaz,

está frio e faz sol,

fica antes debaixo do lençol,

tens fome ou sede,

tens preguiça ou vontade,

sais da cama e falas,

ouves e calas,

vê o que te trago,

tralha tua metida num saco,

sem mais demoras,

e porque só te vejo as costas,

vou-te deixar, que assim já ouves,

que estamos em núpcias podres,

e para terminar sem classe ou beleza,

vou pôr as cartas na mesa,

cago para ti e para o que queres,

para como jogas, para os teus interesses,

ser infeliz por uma semana mais é melhor,

do que receber o ódio a que chamas amor.

 

GJ