Solidão sem Tempo – as cartas de amor, o sentimento e o intelecto IV

A última vez que te amei, lembro-me bem, foi a última vez que te vi.

Desfiz-me das chaves, não queria, mas pus-lhe um ponto final. Isto é só o começo, a seguir és tu. Podes ficar como estás, hoje sinto um despudor engraçado, a verdade sai fria. Entre nós há uma meia estação, eu estou frio, rigor mortis, tu ardes em raiva, vergonha e medo. Sei bem quando te desequilibraste, essa é a minha verdadeira perversão. O meu silêncio foi perverso. A minha sobrevivência sobre a tua foi a minha premissa, desde o início.

Eu sou desequilibrado, mas quem não o sabe? Tu? Tu sopraste as velas do meu barco, mas não içaste âncora. Se toda a conversa de engate; todos os preliminares; todos os meses; todos os risos; todas as obsessões; todos os delírios; todas as amarras; guerras e fodas não me garantiram, porque pensas tu que fico por ti, se me queres sozinho? A verdade é que eu te menti tanto que me fiz acreditar. Acreditar que me preocupava, que perdoar significava algo, que me ralava com terceiras oportunidades. Desisti tão antes de me declarares guerra. Desisti de mim contigo, sem desistir do teu calor e do teu desejo. E tu tal e qual, queres que pague por tudo, que fique a teus pés. Desequilibrei-te quando te desfiz os planos.

No fundo, julgaste ver uma presa. É uma bela metáfora… a caça foi intensa… e por aí fora. Estou farto da mesma memória, são todas iguais. Os mesmos erros, conversas, circunstâncias, tentativas, prazeres, vezes sem conta. No fim aprendi.

– Vamos para a frente, o que tiver de fazer para te ajudar será a minha missão – Antes de te deixar ao sol, tentei e falhei. A prematuridade entre nós foi real, guiou-nos do princípio ao fim.

Não te ouço falar, muito menos sobre fazer amor. De modo geral falas demasiado. Fala com o corpo, fala com moderação, cala. Falhas de comunicação… não me posso esquecer, jamais. Podia bem ter sido a causa do fim, mas tudo foi jogo, por isso, não.

Vais para Moscovo. Vais para Londres. Vais para Madrid, Alicante, Setúbal e Algarve. Sem cabeça nem passaporte. As propostas foram todas pelo ralo, menos a do Juan, que te quer levar para longe das tuas mágoas.

Estás bem roído, não que tenha visto com os meus olhos. Falhaste-me a tua última promessa, desperdiçaste o teu engodo todo, duma última e inesquecível vez. Senti-me bem assim, frio como já era, mesmo depois. As tentativas desesperadas de me derrubar foram vãs. Senti-me mal, por ti.

Já foste. Só não menti quando te desejei o melhor, quando disse que te amava, que não voltávamos a falar. Ao questionar a veracidade da minha despedida, bem, parece coisa de louco. E creio bem que seja, porque não saber amar é doentio.

GJ

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