Ao Guadiana com cravos

De todos os dias para subir esta rua, hoje tinha de ser o mais sóbrio, Ainda não deve estar ninguém em casa e o pessoal da tasca já foi jantar. Vou masé dormir, que amanhã tenho outra noite de vigia; Deus queira que não chova. Não há nuvens no céu, mas está uma ventania desgraçada. Levaram-me o cão e deixaram o portão aberto… será que fugiu? Não há de ser o último nesta casa a fugir, também.

Nove da noite… foda-se, um gajo envelhece e fica com manias de chavalo… “Xixi cama!”, deve estar o meu neto a ouvir, já. Se não me mijar é uma sorte, que só me levanto amanhã à noite, até lá ninguém me arranca daqui. Mas também, o que faz um gajo sozinho em casa senão dormir? A outra há-de chegar, mas nunca a vejo, aquela aventesma dum cabrão… é que não vale mesmo um chavo!

trim trim trim – merda p’ró telemóvel, que eu estou a dormir!

vvvvvvvvvvsh vvvvvvsh ffsh ffsh – merda p’ró aspirador, que eu estou a dormir! Mulher dum cabrão… ainda falta tempo para o despertador tocar.

Está frio e cheira mal. Não tenho lençóis na cama e a janela não abre… Está alguém à porta, deve ser o gajo para contar a água. AH! É o meu Toi e o Janito! Devem estar bêbedos, ficaram na cozinha e um deles vomitou-se todo. ‘Dass putos dum raio, não aprendem nada comigo.  Nem depois de crescidos lhes passa a travadinha. O outro devia era estar a trabalhar para dar de comer à minha neta. Deixa lá ver o que se passa… Já passa da hora. Já é de manhã.

Mas estes gajos chegam aqui a chorar, vão-se embora, deixam a porta aberta e nem dizem nada. Devem pensar que não estou em casa, não me viram deitado. Deixei de os ouvir. Abalaram.

Espera lá, então mas está um gajo qualquer a escortanhar-me o peito! Epá, não pode ser…

Está um temporal, vai lá vai! Vem aí chuva da grossa. A miúda está farta de chorar, o outro trouxe o filho para aqui… Txi! Só me apetece é dar uma lambada a cada um… Os meus manos e amigos estão cá, até as minha manas vieram. Está uma delas soluçar aqui ao lado, viúva alegre do caralho! Dou-lhe com uma flor nas ventas, até se borra toda! Ahah! Nem se está mal, estou bem disposto.

Já ninguém vem cá dentro, ficam lá fora, na palheta. A rapaziada do bairro fala-se, reconhecem-se e ficam a falar do antigamente, de quando íamos de bicicleta até ao rio, com as canas.  A família faz a conversa do costume e há pessoas sozinhas e caladas. Vão e voltam, bebem café, almoçam, fumam cigarros, uns atrás dos outros. Acho uma falta de respeito, mas pronto, isto é para eles. A festa nunca mais acaba. Isto é um funeral de merda.

Agora vão todos para dentro, o padre vai dar a missa. As carpideiras estão cá, benzem-se, sentam-se, levantam-se e rezam tudo sem se engasgarem. Em casa doem-lhe os joelhos, na missa ficam doidas. O parvalhão do padre está com pressa, ainda não se acostumou ao cheiro a morto. Acende uma vela, diz uma reza. Acende outra vela, diz uma reza. Coça um colhão, diz uma reza. Cinco velas, três delas num candelabro… e não são velas, são lâmpadas… Levam a carteira aos miúdos e não dá para as velas… Isto parece bruxaria da antiga, de que ouvia falar, quando moço pequeno. Ele é rezas para aqui e para ali, saca da loiça dele, jorra para lá uma coisa qualquer, uns pós, mexe aquilo como ovos, muito à papo-seco, estende os braços e ninguém o imita, tosse, reza e benze-se outra vez, enfarda hóstia e vinho, reza, lê um salmo qualquer que ninguém percebe e vira a página. Entretanto os cangalheiros já estão a arrumar os estaminé, esta bodega de casa mortuária, e põem o pessoal em alvoroço. A moça não pára de olhar para o padre a beber o vinho como se estivesse à frente da merenda dele, aquele javardo de merda. Ninguém está a achar muita piada, a maior parte ainda deve achar que me enfrasquei.  Lava a loiça com um pano, faz uma vénia a Jesus e sai de cena.

Já me arrumaram na carrinha, mas vão-me levar a dar voltinhas, primeiro. Chove que se farta, vêm todos atrás a tentar seguir, mas está difícil. A minha rua está igual. O portão está fechado e não vejo o meu cão. Foram-se perdendo, um a um, os carros. Devem ir lá ter, na mesma.

Foi rápido, chegámos e descarregaram-me. Fui de surra lá para dentro. Já têm o forno a aquecer. Aparte do que possa dizer para me consolar, ir para o forno é aquela ideia das cinzas às cinzas que vejo concretizada. Deve ser pelo melhor. Querem espalhar-me por aí, para estar em todo o lado. Teria usado um frasco destes para bater o meu cigarro.

Cheguei a casa, finalmente! Vão deixar um bocado de mim na campa dos meus pais, primeiro. A ideia de ter um braço, um olho e um pé num lado e o resto noutro, faz-me confusão, mais valia ou só ali ou noutro lado qualquer. O resto do molho de flores que compraram vai comigo para o rio; é lá que me vão deixar descansar, finalmente. Parece que nunca mais acaba. Nem o pai morre, nem a gente almoça. Precisam é de ir para casa comer e dormir, deixem-me ir.

Fazem-me parecer um herói. Estão de luto porque não havia nada a fazer e nada se pode fazer, mesmo. Pai fui, sim. Pai que se diga, perguntem aos meus filhos, à aventesma, aos meus irmãos… Vão dizer que me perdi, mas que tinha muito bom coração e fazia todos sorrir. Não interessa para nada, os meus filhos ficam orfãos de pai e têm saudades.

Já faz sol, está um bom dia para apanhar achigã. Estão só os meus manos, filhos e netos. O rio corre forte, a chuva encheu-o bem de água limpa e transparente, salta peixe nas margens. Os moinhos de água já só servem de abrigo aos putos de Baleizão, que lá vão dar umas valentes fodas. Numa corrente que se faz entre os moinhos, alinham-se, preparam as flores, beijam-me a urna e calam-se.

Seguram cravos vermelhos e brancos, como sempre comprava, para a campa dos meus pais. Mexem a água com um dos cravos para desviar os mosquitos. A medo, vão sacudindo as cinzas para a água, onde, como dizem, me desfaço logo, arrastado pela corrente. Voam cinzas, ainda, poeira brilhante, à luz do sol. Atiram os cravos.

Vou pelo rio fora, com os meus cravos. Sem cerimónias nenhumas, antes de assentar no lodo vou sendo comido por peixes, que alguém há-de pescar. Tudo nasce, tudo morre, tudo se renova? Deixem-me em paz.

Guadiana
Guadiana

GJ

Solidão sem Tempo – as cartas de amor, o sentimento e o intelecto IV

A última vez que te amei, lembro-me bem, foi a última vez que te vi.

Desfiz-me das chaves, não queria, mas pus-lhe um ponto final. Isto é só o começo, a seguir és tu. Podes ficar como estás, hoje sinto um despudor engraçado, a verdade sai fria. Entre nós há uma meia estação, eu estou frio, rigor mortis, tu ardes em raiva, vergonha e medo. Sei bem quando te desequilibraste, essa é a minha verdadeira perversão. O meu silêncio foi perverso. A minha sobrevivência sobre a tua foi a minha premissa, desde o início.

Eu sou desequilibrado, mas quem não o sabe? Tu? Tu sopraste as velas do meu barco, mas não içaste âncora. Se toda a conversa de engate; todos os preliminares; todos os meses; todos os risos; todas as obsessões; todos os delírios; todas as amarras; guerras e fodas não me garantiram, porque pensas tu que fico por ti, se me queres sozinho? A verdade é que eu te menti tanto que me fiz acreditar. Acreditar que me preocupava, que perdoar significava algo, que me ralava com terceiras oportunidades. Desisti tão antes de me declarares guerra. Desisti de mim contigo, sem desistir do teu calor e do teu desejo. E tu tal e qual, queres que pague por tudo, que fique a teus pés. Desequilibrei-te quando te desfiz os planos.

No fundo, julgaste ver uma presa. É uma bela metáfora… a caça foi intensa… e por aí fora. Estou farto da mesma memória, são todas iguais. Os mesmos erros, conversas, circunstâncias, tentativas, prazeres, vezes sem conta. No fim aprendi.

– Vamos para a frente, o que tiver de fazer para te ajudar será a minha missão – Antes de te deixar ao sol, tentei e falhei. A prematuridade entre nós foi real, guiou-nos do princípio ao fim.

Não te ouço falar, muito menos sobre fazer amor. De modo geral falas demasiado. Fala com o corpo, fala com moderação, cala. Falhas de comunicação… não me posso esquecer, jamais. Podia bem ter sido a causa do fim, mas tudo foi jogo, por isso, não.

Vais para Moscovo. Vais para Londres. Vais para Madrid, Alicante, Setúbal e Algarve. Sem cabeça nem passaporte. As propostas foram todas pelo ralo, menos a do Juan, que te quer levar para longe das tuas mágoas.

Estás bem roído, não que tenha visto com os meus olhos. Falhaste-me a tua última promessa, desperdiçaste o teu engodo todo, duma última e inesquecível vez. Senti-me bem assim, frio como já era, mesmo depois. As tentativas desesperadas de me derrubar foram vãs. Senti-me mal, por ti.

Já foste. Só não menti quando te desejei o melhor, quando disse que te amava, que não voltávamos a falar. Ao questionar a veracidade da minha despedida, bem, parece coisa de louco. E creio bem que seja, porque não saber amar é doentio.

GJ

gaivota
gaivota

vem uma gaivota

para me roubar do meu sonho livre

estendo-lhe a mão

dou-lhe o meu pão

e ela não vai a lado nenhum

voam, as gaivotas,

assaltam mendigos de caixa de papelão

vão pela margem, terreiro fora,

ela come o pão, não vai embora

sou pensamento, de alma

corpo e coração

seguro a minha perdição

levo-a comigo pelos meus dias

enquanto houver pão

na minha mão

GJ

Solidão sem Tempo – as cartas de amor, o sentimento e o intelecto III

Hei-de voltar atrás só para compensar este esforço.

Acabei de chegar, estou, por fim, em casa. Já te vou avisar que estou vivo e ainda a viver no mesmo sítio, vivo. Quero antes disso deixar cair a ficha e perceber que estou mesmo em casa e que estive onde estive. Não acredito bem que me encontrei contigo há três dias e que os passei contigo, como se nada se passasse e como se de nada soubesses, nem de nenhuma das consequências. Acredito que não queiras saber, em circunstância alguma, do que te distancia da meta final. Segui-te, pela noite seca, noite dentro e rua fora, pelas putas das Amoreiras e pelas putas do parque, pelo vazio das ruas. Acordei uma vez contigo, longe, encostado à parede, já com o sol alto na cara, doía-me a garganta do tabaco, da gritaria, do vinho. Doíam-me as costas da nossa luta. Doíam-me as pernas de caminhar sem forças. Doía-me a cabeça. Antes de acordares já planeava o caminho para casa. Acordaste com planos feitos, planos que desconhecia, mas que me iam roubar para longe. Fomos longe, fomos mais longe que a tua imaginação, porque nos permiti. A viagem foi longa, Palmela é longe como o raio. Voltaríamos nessa noite, depois dos caracóis, dos teus irmãos mais novos, da tua mãe, do teu padrasto, depois de mais uma tentativa. Depois dos irmãos que gostas de ver pobres e indefesos, da mãe que te fez amar assim, do padrasto que nada te é. O teu pai enchia-te de porrada se te ouvisse falar assim e beijava-te a cara. Ficámos para copos e para a festa, jogámos às escondidas, eu ganhei e bati com a cabeça, como é do meu hábito ébrio. Levantei-me a rir, tu riste-te de mim e deste-me a mão. Jogámos à bola, transpirámos e caímos um bocado para o lado, no alcatrão morno da noite abafada, de céu avermelhado e limpo. Agarrei-te pelo casaco e puxei-te para mim, beijei-te na rua, sim, ao ar livre, e não estávamos sós, nem escondidos. Era a tua casa, jogaste em casa e deste-me carta branca. Acabou o jogo, já tu sabias que perderia, se fosse preciso. Era preciso acabar. Acordámos antes de todos, ainda podia telefonar, para dar mais vida à minha mentira. Era procurado, observado de perto, tu sabias porque te contei os meus crimes e castigos. Doíam-me as costas. O autocarro demorou a chegar, fingi dormir até chegarmos à gare. Não falámos. Largámos as mãos escondidas assim que as portas abriram. Virei costas, soube-me bem ir embora. Depois do metro; depois de S.Sebastião; depois da prisão; depois de Campolide; depois da noite passada; depois das promessas e da prisão; depois do pedido; depois da expectativa; depois do sim desinteressado: doíam-me terrivelmente as costas. Um beijo invalidou a excitação de três dias à deriva. Foi o meu coração a abrandar, os meus dentes a descolar e as minhas dúvidas apaziguadas, porque por pior que seja, saber que me dá mais paz do que incerteza, deixar-te ir -só o pensamento, a hipótese – ajudou-me a respirar com tamanha franqueza. Sorri.

Tenho de limpar e arrumar, já te digo alguma coisa. Vou tomar um duche quente e lavar os dentes, ainda.

Lembras-te? Chovia bastante, já estava escuro, estávamos cheios de fome e descemos da esplanada da Pollux para a Rua Áurea, e lá contaste-me as tuas aventuras e desastres, que ainda acho algo fictícios. Apaixonei-me pelas tuas falhas de personalidade, pela vida que levavas, por estarmos no mesmo ponto de chegada e de partida, pelo simples facto de não te querer. Dormimos juntos, nessa noite. Quis-te mais tarde. Não te quis mais a ti do que tu a mim, nunca. Não te dei o que querias. Querias ganhar e levar o que não é teu. Puro capricho. Tal como não fui teu, também te amei. Não dei atenção ao teu jogo e fizeste tanta birra. O teu corpo deitado a meu lado não me roubou de mim mesmo. Amei-te sem me atirar da janela e isso não é amar. Pois, talvez não seja. Só sei amar desta maneira, em que estou à tua frente, firme para o que der e vier, e para toda a ocasião, sou teu sem nunca to dizer nem saber.

Já cheguei, vou descansar!

Merda para mim? No entanto, ambos sabemos que não vai haver luta.

GJ

Solidão sem Tempo – as cartas de amor, o sentimento e o intelecto II

Olá, como vais,  como estás,

pois, sim, não, é capaz,

está frio e faz sol,

fica antes debaixo do lençol,

tens fome ou sede,

tens preguiça ou vontade,

sais da cama e falas,

ouves e calas,

vê o que te trago,

tralha tua metida num saco,

sem mais demoras,

e porque só te vejo as costas,

vou-te deixar, que assim já ouves,

que estamos em núpcias podres,

e para terminar sem classe ou beleza,

vou pôr as cartas na mesa,

cago para ti e para o que queres,

para como jogas, para os teus interesses,

ser infeliz por uma semana mais é melhor,

do que receber o ódio a que chamas amor.

 

GJ